O melhor prêmio que a vida tem a oferecer é a chance de trabalhar duro por um trabalho que vale a pena fazer.

Poucas foram as vezes em que eu tive o privilégio de acompanhar uma série de início a fim sem titubear, acreditando que tudo daria certo até mesmo quando os tropeços eram feios. Ao longo de minha vida serie maníaca, isso ocorreu cinco vezes: O.Z. (a primeira série de TV que assisti e representou uma das experiências mais surreais e cruéis), Angel (que pegou meu fascínio infindável por vampiros e elevou à milésima potência), Carnivàle (o exemplo de que eu podia sentir medo, dor, pena e compaixão em um cenário de miséria e apocalipse), Six Feet Under (por me destruir e reconstruir, sufocar-me e me fazer feliz e mostrar que havia beleza dentro das situações e das pessoas mais tristes) e Lost (afinal, o que importava não era o final, muito menos o resultado, mas sim a jornada e que belíssima jornada foi essa). 2015 chegou para destruir a minha estabilidade emocional, encher meu peito de saudade, abrir mais uma porta nostálgica e inundar meu coração de belas lembranças e lindos sentimentos com uma temporada final arrebatadora de Parks and Recreation. E agora é meu momento de dizer adeus a uma série de TV que marcou minha juventude e o início de minha vida adulta. Mas não só um adeus, um agradecimento por fazer meu coração parar de tanto bater pela sexta vez em minha própria história.

One Last Ride não foi um episódio, muito menos um series finale. Foi um terremoto emocional, um tornado fantasiado de despedida e o resultado do alinhamento dos planetas. Tudo esteve nesses quarenta e dois minutos finais. Um detalhe pequeno sequer foi esquecido. O que e quem realmente importava estava lá, não somente em 2017, mas em 2019, 2023, 2025… E já começo aqui elogiando a estrutura narrativa do episódio duplo. Nos meus mais loucos devaneios, eu imaginei que os roteiristas iriam fazer um cover do festival do final da sexta temporada e homenagear a série cantando Bye Bye Li’l Sebastian. Eu estaria mais do que feliz se isso fosse a realidade. Mas esta foi muito melhor: poderemos ficar eternamente tranquilos por saber como foi o futuro dos personagens que tanto amamos e tudo graças ao toque milagroso de Leslie Knope. E foi através do toque de sua mão que vimos um pouco do que o futuro guardaria para Craig. Histérico, intenso e enervante, o servidor público encontraria sua alma gêmea em Typhoon. MELDELS, SOCORRO, QUE EU QUASE ME JOGUEI NO CHÃO COM RON SWANSON SENDO O PORTA ALIANÇA DE TYPHOON (Escola Swanson de como roubar a cena no plot dos outros <3). Resolução com felicidade dupla: por saber que a amizade entre Ron e o cabeleireiro durou e por Craig não mudar seu jeito mesmo quando já estava em seus 90 anos de idade.

Como o universo é justo, a primeira estrela a brilhar com um pedacinho de seu futuro apresentado a nós foi a detentora da peça de roupa mais sensualmente erótica da história: Donna, com sua “coisa vermelha” #DerrubandoForninho #DestruindoABundaDaPaolaOliveira. Donna se tornou, ao lado de Leslie, a maior representação da força das personagens femininas de Parks. Ela não é bancada pelo marido, na verdade, trabalha pesado para ganhar sua pequena fortuna e poder fazer a vida dela e do marido mais felizes. Mas, como para ganhar o Nobel da Paz, é necessário ter alguma consciência social, lá estava Donna fazendo sua parte para garantir seu prêmio no futuro. E foi muito bonito ver que sua amizade com April, ou sobrinha de Satã, vingou e, mais ainda, foi ver APRIL GRÁVIDA NA MESA COM A IMPERATRIZ DA SEDUÇÃO!! Sim, meu povo, April e Andy procriaram e, provavelmente, essa nova raça que eles geraram provocará o apocalipse <3 <3 <3 Interessante constatar que, mesmo sendo duas peças esquizofrênicas e desajustadas, os dois têm uma sincronia de casal tão genuína que soa doce. A prova disso foi a conversa entre eles sobre a possibilidade de terem um filho. Mais doce somente a Sra Karate parindo com a cara pintada de Zumbi/Sobrinha-de-Capiroto e, em seguida, batizando o filho com o marido.

Como, no meio da fronteira do drama com a comédia, deve haver um momento de puro escape, os irmãos Saperstein deram o ar da graça, com o enterro falso de Jean-Ralphio. OH, JAH, como é que dois projetos de seres humanos conseguem ser tão escrotos e idiotas ao mesmo tempo, hein? O que importa é que ele se declarou oficialmente para Knope e esta femme-fatalemente disse “Vei, to sabendo”. Enquanto os irmãos não conseguiram o final feliz através de trapaças, Tom conseguiu um final digno de sua figura: cretinice pura. Claro que os roteiristas não permitiriam que nós víssemos o casamento mais ostentador da história. Eles, na verdade, quebraram nossas caras com a bancarrota de Tom, para então nos presentear com sua fama sendo autor de livros de autoajuda profissional. Isso sim é ter domínio do próprio universo. Eu mesmo, fã declarado, não teria capacidade de bolar nem o rascunho de um final criativo como esse. Garry/Jerry/Terry, por outro lado, viveu dias de glória em sua vida como prefeito, ao lado de sua esposa e sua família gigantesca de filhos, netos e bisnetos. Mas o troféu Swanson de roubar a cena na história dos outros foi para Gayle, que não envelheceu nada em mais de trinta anos. Leitores de Harry Potter, eis a veela de Pawnee. E, como destino pega e não tem como escapar dele, lá estava o nome dele escrito errado na lápide.

Ron Swanson ficou entediado com sua vida de empresário e recorreu à amiga por ajuda para encontrar uma nova profissão. Incrível como esses dois juntos SEMPRE trazem uma carga dramática forte. Foi assim na première da sexta temporada, no legendário Leslie and Ron e agora no series finale. E, lá ficou Ron, sendo ele mesmo, gerenciando um parque natural, com a natureza que ele tanto ama, as árvores que lhe dão a madeira que ele tanto trabalha. Não havia forma melhor de delinear o futuro de Mr. Swanson e a música Buddy, de Willie Nelson, foi um lembrete do 7×04, mas também um divisor de águas para a transição para a história da outra metade da forte amizade: Leslie. MERMÃO, QUE EU FANGIRLIZEI GERAL QUANDO VI O JOE BIDEN, maior símbolo sexual da vida de Knope. No entanto, em questão de segundos, lá estavam os roteiristas brincando com meu coração com buraquinhos e insinuando uma disputa entre Ben e Leslie (eternos Beslie). E o tratamento dessa questão foi um dos melhores momentos do episódio: maduro e justo. Por mais que Ben pudesse ser um governador excelente, ele nunca poderia alcançar a paixão pela política, pela cidade de Pawnee, pelo estado de Indiana, pelos Estados Unidos da América de Leslie Knope. E, reconhecendo isso, o próprio Wyatt entregou a candidatura ao governo do estado à esposa, não por ser condescendente, mas por reconhecer a vocação maior e o empenho de uma vida inteira que ela fez por seu trabalho.

O coração de Mama Knope, no entanto, teria seu maior abalo na forma de um sísmico nível 9 na escala Richter, chamado Ann Perkins. VELHOOOOOOOOOOOOOO, ESSA SÉRIE QUASE ME MATA DE RIR NESSA HORA!!! Doido, alguém dá um Emmy, feat Oscar feat Grammy feat Secretaria Geral da ONU pra Amy Poehler, PELAMORDEJAH!! Só ela para conseguir transitar do drama pra comédia de forma tão elegantemente escrachada e somente dizendo duas frases: “A Ann tá aqui” e “Aew, galera, Ann tá aqui, vlw-flws!”. E essa grande reunion final se tornou o suprassumo da delícia quando April reencontrou Ann, Leslie soltou seus elogios metafóricos para a melhor amiga, depois destruiu a vida saudável de Chris, finalizando com Sra Karate anunciando o segundo herege-que-trará-o-fim-dos-mundos e Knope-Perkins costurando indiscretamente o futuro amoroso de seus filhos.

E, como tudo na vida chega ao fim, Parks também tinha que chegar e fez isso com o máximo de brilho: um discurso da Governadora Knope na formatura dos alunos da Universidade de Indiana, celebrando o trabalho que é feito com motivação porque ele inspira você a isso. Segundos depois, lá estava ela fazendo bico por ter sido homenageada com uma mera biblioteca. E é isso. Parks acabou. O que fica agora é o agradecimento por termos tido uma sétima temporada incrível, uma série com uma jornada deliciosa e a felicidade garantida de toda semana por anos seguidos. Foi uma bela jornada escrever sobre a série. Agradeço a todo mundo que comentou e participou da cobertura desde 2013, quando assumi a série e agora o que nos resta é esperar o tempo passar e superar o fato de que próxima semana ou próximo ano não tem mais.

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