Aprenderam, crianças? É assim que se faz um season finale de maneira épica.

Spoilers Abaixo:

Atuação. Cenários. Iluminação. Diálogos. Histórias. Quando os pontos fundamentais são executados com qualidade, é impossível que o resultado seja qualquer coisa que não o sucesso. Durante 44 minutos tivemos a maravilhosa oportunidade de (re)lembrar o porquê dessa série ter chegado onde chegou, e porque existem espalhados tantos fãs de House ao redor do mundo.

É fato comprovado que os finais de temporada da série costumam ser bem-sucedidos. Para a nossa felicidade, com este não foi diferente: mesmo após uma temporada controversa, com alguns episódios ótimos e outros nem tanto, os fãs que não largaram o barco foram recompensados com o fechamento de um gigantesco arco, e com isso o início de um outro. Mas sobre essa questão falaremos mais adiante.

O episódio iniciou-se com pequenos flashs envolvendo um House explicitamente à beira do caos, fato que rapidamente aguçou e manteve preso o espectador com menos de 10 segundos de tela. Recurso já muito utilizado na história da TV, essas pequenas cenas fizeram a ponte entre a expectativa deixada no último episódio e o resultado de um dia particularmente interessante na vida do médico. A partir dali, o espectador já poderia esperar que haveria algo importante nesse último episódio. Como se ninguém aqui desconfiasse…

Voltando ao presente, através da cena onde House entrega o livro à Cuddy é que podemos constatar o tamanho da sutileza com que os diálogos são feitos nessa série. Exemplifico isso com o arco final da temporada passada, onde foi usado recurso idêntico: caso não se lembrem, House na época considerava que Cuddy estava brava com ele por causa da noite de amor que teriam tido, enquanto que o motivo da reclamação era somente uma frase mais rude do médico. Nessa semana, por sua vez, Cuddy infere que House já havia tomado conhecimento de seu noivado antes mesmo de que ele realmente soubesse de qualquer coisa. Assistindo à cena pela segunda vez – assim como na citada sequência da 5ª temporada – podemos ver como que o diálogo é sabiamente construído para nos levar a uma conclusão implícita, diversa da verdadeira, sem contudo que para isso qualquer mentira ou falsidade seja utilizada pelo personagem. É pura genialidade, utilizada da maneira mais simples.

Já que aproveitamos um poquinho do final da 5ª temporada, porque não pegar algo de bom do final da 4ª também? Partindo daí, temos novamente um pano de fundo que envolvia um grande acidente. Porém, diferentemente daquilo que vimos em Wilson’s Heart, o final da sexta temporada traz um set absurdamente maior (que deve ter dado um trabalho gigantesco) e uma história que se passava toda em um plano de tensão que poucos já experimentaram.

Para aqueles que acharam simples ou irrelevante o fato do episódio se dar quase todo sob escombros de um prédio, eu os convido à uma pequena experiência. Quando tiverem oportunidade, deitem-se em suas camas e cubram-se com um simples lençol. Tentem somente aguentar uma única hora ali, sem água nem luz. Fácil? Adicionem então a tensão, a falta de segurança e algumas toneladas a mais de concreto pressionanado o lugar onde você está. Molezinha né?

No meio de uma situaçao dessas está Hanna, personagem que entrará facilmente para o livro nobre de pacientes que já passaram por essa série, ao lado de nomes como a bela Eve de One Day One Room (3×12) e o próprio House em Three Stories (1×21). Aliás, já que citamos este último, fazia tempo que não víamos o drama da perna dele ser tratado de forma tão explícita, tão literal. Estamos acostumados a ver House lidando com os problemas gerados por essa situação, é verdade, mas são raros os momentos onde o médico discute abertamente sobre como ele foi parar naquela condição. E, mais relevante ainda, o quanto de culpa que a dor na perna tem nessa história toda. Até onde vai o temperamento do médico e onde começa a infelicidade causada pelas dores? Acredito que nunca saberemos.

A verdade é que House nunca foi uma boa pessoa. Sempre teve vários defeitos. Porém, assim como confessou à Hanna, seu medo o levou a tomar uma decisão que afetaria o seu modo de vida para sempre. A escolha de viver com dor por um lado salvou seu membro, mas por outro trouxe toda uma gama de consequências que, se alguém lhe tivesse avisado antes, talvez não teria optado. Assim, quando Cuddy abre seus olhos sobre o mal que estaria fazendo a Hanna, House percebe que sua história de superação não é algo a ser seguido, mas sim um exemplo do que não deve ser feito. E assim ele toma a decisão de nos presentear com um dos discursos mais sinceros que o personagem já proferiu na história da série.

Por mais que alguns reclamem que alguns episódios nessa temporada não foram tão bons como o esperado, com o episódio final pudemos perceber que muito daquilo ali foi, sim, necessiário. O arco que culminou com o House miserável dessa semana vem sendo trabalho a tempos, e o resultado pôde ser visto por todo o episódio, mas principalmente na relação dele com aquela paciente. A proximidade entre ele e Hanna nos proporcionou reflexões acerca do caráter do médico que nenhum episódio dentro do hospital poderia nos trazer. Fosse em outro momento, ela seria somente mais uma deitada em uma cama no hospital, sem que House sequer soubesse seu nome e cuja passagem em sua vida seria rapidamente esquecida.

Mas não. A forma com que a vida de Hanna impactou o médico pôde ser vista com exaustão na pele de um Hugh Laurie impecável. O turbilhão de emoções que a paciente trouxe à House foram maravilhosamente expressas através de uma atuação como a tempos não via na telinha. Será uma tremenda injustiça se um episódio como esses não der um Emmy ao Hugh. A facilidade do ator em externar toda a dor e a compaixão de um House decadente merece sem dúvida nenhuma um prêmio.

House rezando. House segurando na mão de um paciente. House confessando um erro. São esses os legados que Help Me deixará para a série. Não se trata de um simples final de temporada. Confio que será na verdade um divisor de águas na história da série. Arrisco dizer, e me perdoem se estiver errado, que acabamos de ver o primeiro episódio da última temporada de House. Uma temporada que elucidará os problemas emocionais desse personagem que tanto já sofreu, mas que a cada semana que passa demonstra que está amadurecendo, procurando uma estabilidade. Sem perder suas características singulares, House caminha para uma vida adulta, e acredito que o passo mais importante foi dado hoje.

Ao fim, algo que agradará a muitos e trará repulsa a tantos outros: House e Cuddy caminham, enfim, para um final juntos. Pessoalmente nunca fui muito fã desse relacionamento, quem acompanha os reviews a algum tempo sabe disso. Mas não vejo outra saída melhor e possível para o desenvolvimento do próprio personagem. Acredito que na próxima temporada essa relação entre os dois pode ser, sim, positiva, se dosada de maneira correta. É claro que ninguém aqui quer que House se transforme em uma série romântica, mas devemos dar o braço a torcer que, através dessa via, outros resultados poderão ser alcançados. Inclusive já tivemos a primeira vitória: adeus Vicodin. Um problema a menos pro nosso ranzinza favorito.

O ponto triste do episódio fica com a saída da Thirteen. Obviamente em um episódio como esse não haveria tempo de dissecar melhor sobre essa decisão dela, mas acho que seria ingenuidade nossa ligar totalmente essa saída dela ao problema com sua doença. Acredito que mais coisas serão vistas em relação à ela, mas confesso que fiquei triste por ver a (no momento) melhor médica da equipe saindo do hospital.

Como ponto de justiça, ressalto a atitude humana do Foreman, que reconhece os problemas de seu chefe e percebe que House não tem a menor condição de se manter sozinho. Nada me engana que a visita de Cuddy ao apartamento de House teve, sim, um dedo dele. Mas isso não importa muito no momento.

O que importa é que o review já está maior do que eu esperava, e que talvez isso seja o meu eu interior pedindo para que a temporada não termine. Porque por mais que existam episódios medianos aqui ou ali, capítulos como esse nos lembrarm que House é House, e que o velhinho ainda é um dos maiores personagens dessa nossa TV.

Um abraço a todos, foi um prazer!

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