Quem disse que Parks não pode ser feminista se quiser?

Existe uma beleza no nível de liberdade criativa que Parks and Recreation teve ao longo de sua jornada. Uma série de comédia da TV aberta que tem uma mulher como sua protagonista, mas não só isso: o foco da série não é amor por um homem, mas o amor desesperado de uma funcionária pública pelo seu trabalho, sua cidade e seu país. Diante disso, natural que a série tocasse no tema da posição da mulher na sociedade em sua reta final e esse foi o destaque de Ms. Ludgate-Dwyer Goes to Washington (MLDGTW) e Pie-Mary, que foram centrados em questões sociais, profissionais e pessoais da mulher. Se por um lado, tivemos April finalmente expondo sua insatisfação com seu rumo profissional para Leslie, por outro lado, vimos esta, aliada ao marido, quebrar paradigmas conservadores na cidade de Pawnee. Ao fim dessa dobradinha, tiveram dois ganhadores claros: o público, que foi entretido de forma tocante e divertida, e a sociedade, com o tratamento maduro de um tema tão complicado de ser debatido até hoje.

Em textos anteriores, já tinha sido levantada a questão da maneira insatisfatória que o plot de April estava sendo desenvolvido. Assim, MLDGTW foi basicamente um comunicado dos roteiristas para o público: “Calma, galera, a gente sabe pra onde vai, segura as pontas só mais um pouco”. Com o que foi apresentado nesse episódio, o planejamento da última temporada de Parks ficou escancarado ainda mais, uma vez que, a partir da Creepy, foram usados vários elementos mitológicos de Pawnee e ainda houve a virada para o delineamento de como serão os momentos finais da personagem. E que curioso foi perceber que o futuro de April será em Washington, trabalhando com uma fundação que casa jovens indecisos profissionalmente com trabalhos comunitários ao redor dos Estados Unidos.

Mas não há como ignorar o caminho percorrido até esse momento. Foi divertidíssimo ver Leslie abordando os senadores com sua forma incisivamente tenaz e vivendo seu sonho com os políticos de sua vida (particularmente, o diálogo com Madeleine Albright é o símbolo de concretização do sonho de Knope). Concomitantemente, era triste acompanhar a falta de empolgação e o esgotamento de April com o trabalho que estava realizando. Assim, surgiu a belíssima cena entre Knope e Ludgate em que ambas resolvem juntas os anseios, com direito a “I love you very much” com abraço da aprendiz de Praga do Egito.

Em Pawnee, o clima era de histeria cômica e o trio Andy-Ben-Ron brilhou muito. Mais que provar a verdadeira amizade existente entre aquelas figuras, que se unem para encontrar um futuro para April, esse plot serviu para mostrar os ricos pareamentos que a série consegue. Que show de química foi Chris Pratt, Adam Scott e Nick Offerman nessa reunion, que funcionou tão bem exatamente em razão das personalidades divergentes dos personagens. E o auge desse plot foi o encontro do trio ternura com Barney!!! MELDELS, SOCORRO, COMO PARKS ESTÁ TRAZENDO LITERALMENTE TODA PEÇA DE SEU QUEBRA CABEÇA DE MITOS E SÍMBOLOS. E Barney continua o mesmo: ainda desejando Ben na empresa de contabilidade, sendo o único que entende as piadas do Sr. Knope e, como não podia fugir à regra, sendo rejeitado ao final. Sério, só <33 por essa série.

Pie-Mary remexeu as peças do tabuleiro, mas manteve o foco na questão da mulher. A diferença é que a figura central da vez foi Leslie, desde os minutos iniciais, com a cena loucamente engraçada e cruelmente real em que Jennifer Barkley levanta a forma que mulheres inteligentes assustam as pessoas e que Knope teria que se conter durante a campanha de Ben para não prejudicá-lo. E o que vimos ao longo de Pie-Mary foi um cenário que progressivamente se agravou. Não bastavam os repórteres sensacionalistas, ainda tinha a Família Tradicional de Pawnee, o Movimento Antifeminista, o Movimento Contra a Repressão Masculina na Sociedade (WTF??!!) e Brandi Maxxxx (diva eterna). O roteiro esteve afiadíssimo com piadas ácidas seguidas, mas o mais importante do plot foi expor a coragem da série em não fugir de um tema perigoso e, na verdade, trazer um debate frutífero de forma engraçada que culminou no discurso MARAVILHOSO de Leslie e Ben em que é exposta toda a hipocrisia midiática e social quanto a mulheres independentes e administram carreira e família ao mesmo tempo.

O episódio também trouxe o início da despedida de April, que agregou Andy e Ron Swanson. Eita que coisa maravilhosa foi acompanhar o resgate da conexão sempre existente entre Ron e April e, o melhor, o passado negro em que esta tinha paixonite por Andy.  Diante disso, a caça ao tesouro serviu exatamente para trazer à tona toda a carga nostálgica dos anos inicias de Parks na vida desses três personagens e levantou a reflexão de quanto tudo mudou ao longo dessas sete temporadas. Mas nada foi mais emocional em Pie-Mary que a dupla Donna e Gary. Ambos os personagens começaram escondidinhos e foram ganhando importância até se tornarem parte do elenco fixo. E Retta e Jim O’Heir têm plena consciência disso e, apesar de provocarem o riso, resgatam um sentimento doce e tocante durante a trabalhada de Gary/Terry/Larry/Jerry e provam como as duas figuras são fundamentais para o gigante coração da série.

MLDGTW e Pie-Mary foram episódio lindos para fãs e feministas verem. Dois episódios que passaria com louvores no Teste de Bechdel (que questiona se há, em um trabalho de ficção, duas mulheres que conversam entre si sobre algo que não seja homens) e que preparam ainda mais o tom de despedida.

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