Tensão do começo ao fim.

Assim se resume o episódio que abre o caminho para a conclusão de Agent Carter.  E cada vez fica mais claro, ela nunca foi pensada para ser apenas uma temporada, de uma minissérie. Mas em se tratando de Marvel, o que realmente é planejado para ser isolado, com exceção do filme do Incrível Hulk (não que ele tenha sido)? E tenho certeza que vocês conseguiram ser fisgados pela qualidade de roteiro, agilidade, diversão e sabem muito bem o que Agent Carter pode oferecer a longo prazo.

Todos nós sabíamos muito bem que chegaria o momento em que Peggy seria confrontada pelos seus serviços como agente dupla. Porém, como era esperado e até teorizado, isso aconteceria de uma maneira heroica, onde Peggy mostraria para todos os amigos que duvidaram de sua capacidade o que ela realmente é capaz de fazer em prol do bem maior. Ao passo que seus amigos teriam terminado como bobos, investigando desde o começo uma causa perdida. Bom, assim que o episódio anterior terminou e nossa agente estava lá, sendo tradada como “igual”, ou no próprio começo deste, onde ela (por insistência) conseguiu uma investigação própria, eu já temia que a derrocada viria e não estaria acompanhada de um momento de brilhantismo ou bandeiras de comemoração.

Vejam como é engraçado, apesar de diminuir um pouco a discussão feminista nos últimos dois episódios, AC não se esqueceu em momento algum os conflitos do período que a série retrata. Mulheres espiãs e armadas? Confabulando e infiltrando? Impossível. É o que todos dizem, ou pensavam até Peggy mostrar todo seu potencial. De secretária para algemada por precaução. Tudo o que ela queria, de uma forma totalmente devastadora e nem um pouco digna de orgulho. E é essa a ironia do roteiro que brincou e muito bem com nossa tensão desde que uma certa Dottie apareceu na janela, armada.

Eu desconfiei do psiquiatra, já estou me acostumando com o padrão Marvel de surpresas e com a ameaça da Hydra ainda fresca na memória, é fácil esperar traição de qualquer personagem, especialmente quando ele se mostra muito solicito e compreensível. E olhem que lindo, o que seria mais crível do que um psiquiatra manipulando agentes? É uma das coisas que eu gosto na série, essa facilidade que ela tem em utilizar os underdogs como ferramenta de desenvolvimento dos seus plots. Todo mundo acha que mulheres não apresentam riscos? Vamos colocar a formação da Academia de viúvas negras na série. Um velhinho médico, fragilizado, resgatado e potencialmente aliado é na verdade uma das grandes mentes (se não a maior) por trás de Leviathan. Como eu já disse antes, AC veio para desconstruir alguns clichês, mesmo que se valendo de vários no processo.

Infelizmente, esses clichês que a série poderia se desprender ainda estão bem fortes. E sim, estou me referindo a Angie. Bom, a Angie está lá só para isso mesmo, servir de apoio para Peggy e a conectar ao mundo “real”, fora do lado da espionagem e das investigações. Suas cenas de atuação serviram apenas para dar alguma utilidade a moça, Peggy poderia muito bem ter permanecido no lado de fora e ter se encontrado com Dottie ao voltar para o prédio. Categorizo como desnecessária a cena com o choro, ou o humor que tentaram empurrar para Thompson ao revelar o apelido de sua avó. Então, vejam que a amiga que não para de falar, tem um sonho potencialmente inatingível e que ajuda a mocinha em tempos de necessidade demonstram características fortes dos quadrinhos da Era de Ouro, foi exatamente assim que o Soldado Invernal apareceu, quando ainda era retratado como um garotinho. Mas, convenhamos, apesar de não estragar a série, ou desvalorizar as cenas, conseguiríamos viver bem sem Angie. Mas digo isso apenas enquanto ela for a amiga preocupada, a partir do momento que derem a menina uma motivação maior, eu estarei aqui para comentar sua real utilidade.

Dottie é uma vilã que eu gostaria de ter por perto por mais tempo. Imaginem o quanto ela não poderia cooperar para a criação do mundo de Agent Carter? A louca que beija a mocinha para fazer uso do batom, demonstrando certo reconhecimento ao inutilizar um dos traços mais fortes de Peggy, a luta. Tudo bem, a cena com a arma foi só para nos despistar e passar um pouco de mistério na possibilidade dela assassinar o até então indefeso médico, mas valeu, poderiam ter utilizado um binóculo, um telescópio, só a luneta, mas preferiram brincar um pouco conosco e eu jamais irei reclamar de um pouco de enganação benéfica. Resumindo, apesar de ter quase certeza de que Dottie não passa da primeira temporada, eu acho que seria bem melhor tê-la por um pouco mais de tempo, com falas, confrontando Peggy, dando mais trabalho. Adoro uma bandida louca e psicopata, faz eu me recordar dos momentos assistindo Buffy, ou Angel, com uma Drusilla maníaca. E se o nome da vampira é novidade para você, vá fazer sua tarefa e venha comigo para o clube dos amantes de vilãs mentalmente instáveis.

Agora conversando a respeito dos homens na vida de Peggy, eu fico feliz pelo retorno de Jarvis, que pagou com o corpo pelas indiscrições de seu chefe, o nada relacionável Howard Stark. Vejam como tudo o que eu disse a respeito do planejamento da série para ter mais do que uma temporada se torna real. Ao analisar Howard, eu vejo que tudo o que estão fazendo é tentar construir um personagem que futuramente irá pagar pelos seus crimes. Não se esqueçam, em determinado momento Howard irá se apaixonar e ter um filho, Tony, herdeiro das empresas Stark, do legado de seu pai como armamentista e Vingador do planeta Terra. Então, enquanto estiverem passando a imagem nada compreensível e totalmente superficial de Howard, com apenas Peggy e Jarvis para defende-lo (sabe-se lá o motivo) eu permanecerei fiel ao meu instinto de não gostar do personagem e aguardar ansiosamente pelo seu desenvolvimento verdadeiro.

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Já Thompson e Sousa demonstram exatamente o quão instável é o solo dos possíveis relacionamentos amorosos dentro da série. Um dos pontos mais positivos até agora é a não obrigatoriedade de juntar a personagem principal com um homem para um romance. Peggy não precisa de alguém a seu lado, a não ser que esse alguém seja um frasco de sangue do Steve Rogers (estranho, eu sei). Logo, ao dar uns tapas no Thompson e sair andando casualmente por ter certeza de que Sousa não atiraria nela, Peggy deixou bem claro que Sousa é apenas a imagem que não oferece riscos, que é passivo e todos nós entendemos a real importância dele, ser o amigo apaixonado que nunca consegue nada. Thompson, por outro lado já aprendeu a reconhecer os perigos que Peggy oferece, logo, em termos de compreensão futura é ele que poderá dar um mix a mais, isso se a série pretender ir por este caminho. Por mim, que Peggy continue sozinha e chutando bundas, com a presença de apenas um homem, seu sidekick, Jarvis.

Logo, com tensão na medida certa, boas cenas e interações entre personagens, ‘A Sin to Err’ entra na lista dos melhores episódios que eu assisti este ano (que só começou em termos de séries). O nível foi elevado e imagino, pelo histórico, que as coisas só irão melhorar daqui para frente. AC tem potencial para muito mais e isso não é mais especulação, já é realidade. Por isso, que venham os dois últimos, que venha mais uma temporada e vida longa para Agent Carter.

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