Som, fúria, sexo, drogas, correria e um elenco retumbante.

Aria nº 11 da ópera Die Entführung aus dem Serail (O Rapto do Serralho), de Wolfgang Amadeus Mozart:

“Martern aller Arten

Mögen meiner warten,

Ich verlache Qual und Pein.

Nichts soll mich erschüttern.

Nur dann würd’ ich zittern

Wenn ich untreu könnte sein.

Lass dich bewegen, verschone mich!

Des Himmels Segen belohne dich!

Doch du bist entschlossen,

Willig, unverdrossen,

Wähl ich jede Pein und Not.

Ordne nur, gebiete,

Lärme, tobe, wüte,

Zuletzt befreit mich doch der Tod.”

 

“(Torturas de todos os tipos

Podem esperar por mim,

Eu desprezo a tormenta e a dor.

Nada abalará minha decisão.

Eu tremeria apenas

Se não fosse verdadeira com ele

Ser movida por pena, poupe-me!

As graças do céu hão de recompensá-lo!

Mas tu és determinado,

Voluntarioso, não se estremece,

Eu aceito todo o luto e dor.

Então ordena, comanda,

Vocifera, ruja e te enraiveça,

A morte me libertará ao final.)”

Após o fiasco retumbante que foi a adaptação de Zumbilândia, foi visível o esforço da Amazon para limpar sua imagem. O balaio de pilotos que lançaram variou entre bom e fabuloso. O maior exemplo disso é Transparent, que, num ano no qual boas séries estreantes se destacaram num pântano de porcarias, é talvez a “comédia” mais corajosa em exibição.

Transparent vinha correndo por fora, e a criadora Jill Soloway conseguiu deixar a esperadíssima The After e seu Chris Carter na sombra. Contudo, esse outro piloto, com título curioso o suficiente para chamar a atenção, teria espaço certo nessa nova época da televisão, na qual o meio se tornou muito menos importante que a mensagem, e as fronteiras entre a telona, a telinha e a internet caíram. Fronteiras derrubadas por uma wrecking ball, montada por Glenn Close, Kevin Spacey, Jessica Lange, Matthew McConaughey e outros astros de Hollywood.

Escrito pelo diretor de teatro Alex Timbers e pelos primos Jason Schwartzmann (que estrelou Bored to Death e inúmeros filmes de Wes Anderson) e Roman Coppola (roteirista indicado ao Oscar por Moonrise Kingdom, e filho DAQUELE Coppola, e irmão DAQUELA Coppola) esse piloto poderia dar muito certo, por causa dos nomes por trás, ou muito errado, caso esses nomes por trás não dessem conta.

A série é baseada no livro de memórias Mozart in the Jungle: Sex, Drugs, and Classical Music, escrito pela oboísta Blair Tindall, que conciliava diversos trabalhos para construir a carreira profissional e se manter em Nova Iorque. Para isso, ela tocava na Filarmônica nova-iorquina, e em orquestras de diversas peças da Broadway. E, para adaptar o livro, atores de primeira linha se unem em parcerias que até agora eu não acredito, fazendo com que essa selva na qual Mozart se encontra tenha habitantes improváveis e belíssimos de se ver.

Regente da New York Symphony, o maestro Thomas (Malcolm McDowell) está se aposentando, ou melhor, meio que sendo aposentado e ganhando um cargo de regente ~~~emérito~~~. Adequar-se às novidades e modernizar-se é o motivo da mudança, e o que guia Gloria (Bernadette Peters), a presidente da instituição, a buscar o renome que acabou se esvaecendo. Para isso, ela contrata o concorridíssimo Rodrigo (Gael García Bernal), um maestro que pode ser considerado popstar. Extravagante, incandescente e indubitavelmente brilhante, ele vai de encontro à tradição ao revolucionar, para o bem e para o mal, o método de atingir a perfeição nas apresentações. Nesse ambiente conflitante e intenso, a jovem oboísta Hailey (Lola Kirke) tenta deixar sua marca e fazer seu nome.

Malcolm McDowell, que teve o papel da carreira em um filme no qual Beethoven era quase um personagem na história, agora interpreta alguém que domina a música clássica, ao invés de apenas admirá-la e depois temê-la, como Alex DeLarge. É, portanto, uma espécie de metapersonagem, nada mais benigno para a carreira de um ator que vive injustamente à sombra de um personagem (vide o favorito ao Oscar Michael Keaton no filme Birdman).

Interpretando Gloria, a presidente da New York Symphony, Bernadette Peters está afetadíssima como nunca (e isso quer dizer muito quando falamos de Peters). Apesar de sempre resplandecer em cena, ainda mais no auge de seus inacreditáveis 66 a pronúncia lânguida e musicada se sobrepôs ao roteiro em suas poucas cenas, embora não tenha como não ficar mesmerizado ao ouvi-la, tão doce, tão delicada, tão sensual. Peters é adequadíssima para a ideia da série, que, como supracitado, terá muito som e muita fúria (e muito conteúdo). Para isso, uma diva da Broadway é até necessária.

Gael García Bernal, o nome mais surpreendente do elenco, não teve espaço o suficiente para mostrar a que veio nesse episódio. E, nesse pouco espaço que teve, alternou entre o adequadamente bombástico e o exagerado. Espero que, caso a série prossiga, Bernal consiga encontrar o rumo da sua atuação e de seu personagem, para o bem da série e para me tirar um grande peso dos ombros, que é criticar esse ator genial. Não me entendam mal: Bernal estava ótimo, mas ele pode ser muito melhor. Rodrigo, uma clara ficcionalização do maestro popstar venezuelano Gustavo Dudamel, é uma síntese do que se tornou a música clássica para novos públicos hoje em dia: é preciso ser espetacular. Não só a música, mas também o maestro. E interpretar um personagem assim seria impossível para muitos atores. Bernal pode não ter encontrado o ritmo, mas a capacidade para isso ele tem.

Com um elenco tão impressionante, é admirável colocar a anônima Lola Kirke como centro do episódio. A atriz segura muito bem o papel de protagonista, e teve uma ótima química com todos os atores com os quais dividiu suas cenas. Como Cynthia, a violoncelista que age involuntariamente como guia profissional e espiritual de Hailey, Saffron Burrows reluz como sempre. Ela não deixou de lutar, mas chegou longe equilibrando vários empregos e affairs ardentes. Ou seja, ela já foi uma Hailey. O que, não necessariamente, deixa a jovem oboísta com a ilusão de que tudo vai melhorar. E Burrows tem o dom de deixar essa enrolação toda que fiz acima claro como o som de uma harpa para nós, mesmo em poucos minutos de cena.

O piloto de Mozart in the Jungle, além de deixar na cabeça um conotativo gosto de quero mais, muito, muito, muito mais, foi efetivo em nos apresentar de cara o que cada personagem é, como pensam, do que se alimentam, o que os rege na vida além do maestro.

E, de antemão, aviso para vocês: minhas reviews terão doses absurdas de devoção ao tema. Sou apaixonado por música clássica, sou fã do elenco inteiro, admiro muito o trabalho dos criadores e roteiristas, a série faz meu estilo do começo ao fim.

O meu colega de mesa Cléverton Bezerra (a gente senta lado a lado na redação do Série Maníacos) disse uma vez que Mozart in the Jungle era hipster demais para o seu próprio bem. Talvez ele esteja certo, mas creio que a própria série vai se mostrar superior a isso. Afinal, com a base que a série tem, não há como ser hipster por muito tempo. Aqui é Gael García Bernal e não Joseph Gordon-Levitt, Bernadette Peters e não Zooey Deschanel, Malcolm McDowell e não seu personagem Alex DeLarge, e Mozart e não Arctic Monkeys. Querem assistir algo hipster? Não vão encontrar nos furiosos, estrondosos, exaustivos e sem paciência para quem tá começando bastidores da música clássica nova-iorquina. Esperem sentados (ou não, nunca se sabe) uma série sobre os bastidores do Coachella.

Para quem topa a aventura, bem-vindo à selva. Espero que goste do som ambiente.

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