O fim que não justifica os meios.

Ao terminar de assistir a conclusão de Ascension, o gosto amargo que ficou na boca acabou minando quase tudo que aconteceu de bom nesse evento de 3 noites do canal Syfy. Para mim, o lado perdido que a série adotou ao se aproximar de Lost e suas infusões sobrenaturais me deixaram com a impressão de que a maneira que os roteiristas encontraram para concluir a série, foi uma forma bem diferente e ao mesmo tempo igual do utilizado na conclusão de seu primeiro capítulo. Porém, se com a sua primeira noite, o choque foi a crueldade da realidade, no terceiro foi a violência do surreal.

Ao se deparar com a conclusão de Ascension eu entendo que o principal alvo foi nos fazer querer mais, mas com uma conclusão se baseando nas maneiras erradas. Para quem esperava uma ficção cientifica nos moldes de Star Trek, o momento Heroes não deverá agradar. Porém, para quem queria um entretenimento fácil, tudo estará resolvido, mesmo que no fundo, não tenhamos ficado sabendo do futuro derradeiro de ninguém.

Mais uma vez foi Viondra e seu marido que roubaram tudo para si. Não me cansaria de elogiar Tricia nunca, sua maneira de atuar, passando do vulnerável pelo forte, da mulher atingida para a manipuladora, transformaram qualquer cena extremamente confusa e desnecessária em um detalhe ínfimo perante o desenvolvimento de uma personagem fundamental para Ascension, em todos os sentidos. Da sua coroa de deusa da fertilidade a escolha de não engravidar, visando manter o poder para si e para o homem que ama, toda a poesia por trás dessa mulher me fez querer uma série só para ela. Como não se lembrar de BSG quando Viondra está no comando da nave? E como não idolatrar todo o caminho (curto, mas interessante) que ela trilhou?

Ostara, o festival que celebra o momento em que a máquina faz os pares geneticamente mais adequados para procriação, também age como a quebra de várias barreiras. A raça humana dentro da nave quebrou paradigmas necessários a sua evolução e eu queria muito que ela realmente estivesse se dirigindo a Próxima Centauri. Eu queria ter a noção e poder conhecer esse novo tipo de mundo, em que as próprias ramificações que nós levaremos ainda mais tempo para desvendar, já estariam, até lá, em processo de fermentação e crescimento.

A cena com o conselho, além de exemplificar bem como funciona a cadeia de comando e política dentro da nave, passa a mensagem bem clara de que aquele casal não deverá ser provocado levianamente. Era tudo o que eu queria, saber mais a respeito da vida e de como as coisas funcionam dentro da Ascencion. Me perdoem, não quero ser negativo, até por que gostei muito do que aconteceu nessa esfera, mas se tudo tivesse sido bem mais centralizado nos aspectos citados, a experiência teria sido bem melhor. No final, o que importa são os humanos, são eles que movem a série, as interações são as mais valiosas. Mas não os humanos do lado de fora, os que estão dentro da nave que tem real importância.

Se no episódio anterior eu me senti traído pela presença e quebra de narrativa de Enzmann, dessa vez a humanização que ele não consegui lá, apareceu. Sua preocupação com a tripulação, com Christa e com a ilusão que precisa ser mantida, passou pela primeira vez o cuidado que ele dizia ter. O lado ruim é ter que aceitar a corporação, disposta a destruir tudo e a matar a todos pela pequena garotinha e suas habilidades estranhas. Elas sugam para dentro de si, como um buraco negro, toda a diversão e fluência do roteiro, que estava funcionando muito bem, obrigado, até o surgimento deles. Foi legal ver Enzmann levando uns tapas? Foi. Mas foi necessário para que Ascension continuasse andando? Não.

O mesmo vale para Krueger e Eva, que tirando o belo tiro no olho, não agregaram lá essas coisas. Stokes sim, esse conseguiu minha atenção e conseguiria arcos bem mais interessantes caso a minissérie se tornasse uma produção completa. Eu compraria Stokes fugindo e trabalhando para trazer a luz os acontecimentos de Ascension. Krueger? Não muito, ela cumpriu bem seu papel de ser nosso guia de história do passado dos cientistas que toparam fazer parte do projeto Ascension. Poucos personagens realmente morrem quando precisam, ela foi um dos casos de acerto.

Agora preciso comentar a respeito de Christa. Eu sou um profundo fã de ficção cientifica, adoro produções ousadas como Ascension, mas ao mesmo tempo não consegui compreender nada do que estava sendo feito com a personagem. Uma menina com código genético perfeito? Aceito. Uma menina sensitiva, com poderes psiônicos, capaz de teletransportar Gault da terra para outro planeta anos luz? Não. Mas um momento, não se engane, fosse Ascencion uma proposta de entregar o bizarro, eu estaria aplaudindo de pé a cena nonsense. Com o esquema adotado, a estrutura trabalhada e as histórias desenvolvidas, não dá.

A mudança foi tão brusca, que o começo do episódio me fez querer parar tudo. Pedi imensamente que fosse um sonho, mas quando o próprio Gaul, afetado pela onda de energia viu a já morta Lorelei, o descarrilamento do trem foi eminente. E é neste momento que eu vejo o que a falta de tempo para desenvolver melhor essa abordagem, fez com que Ascension caísse na confusão extrema. Mas talvez o problema seja eu, que estava disposto a comprar uma série de exploração espacial e acabei não percebendo que desde sua concepção, ela era bem mais do que eu estava querendo abraçar. Para mim, os fins não justificaram os meios.

Mesmo sendo ousada e dando um final de explodir cabeças. Ascension merecia bem mais do que um fim sem final derradeiro. Muitos personagens terminaram sem conclusão, muitos nem ao menos mereciam o tempo em tela. Emily e Duke não precisavam mais aparecer, ou interagir depois de Ostara. Eles só surgem para que Christa pudesse desencadear a cadeia de eventos que nos levaram ao final da minissérie.

Sendo assim, apesar de não ter conseguido ver com entusiasmo o desfecho final, o brilho da produção não poderá ser desmerecido apenas pelo teletransporte. A estrutura social, o conceito sociológico e personagens como Viondra me fizeram gostar muito de Ascencion. Eu estava disposto a mais, muito mais, aquele negócio de 13 episódios e mais 5 temporadas acabou indo por água abaixo, já que dificilmente eu conseguiria lidar com conceitos científicos que se justificam mais pelo sobrenatural, a não ser que eles recebessem explicações dignas de Fringe. De qualquer forma, eu prefiro minhas ficções cientificas com os pés mais no chão, mesmo que orbitando no espaço, ou a caminho de outros planetas. Para quem cresceu ouvindo “Scotty, beam me up”, engolir uma menininha decorrente de apenas uma geração de aperfeiçoamento teletransportando um homem adulto para outra galáxia, foi uma viagem que eu não estava preparado para ter.

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