Entre evolução e fé.

Se com seu primeiro episódio Ascension levantou perguntas, o segundo capítulo da minissérie tratou de começar a responde-las, mas sem antes nos dar um pouco de antecipação para o final desta saga em busca de algo muito mais valioso que outro planeta, sua própria humanidade. Bem próximos do final, encontramos finalmente aquilo que permeia 50 anos de vídeos e conhecimento levantado, a inabalável fé de que dias melhores virão. E será possível encontrar um futuro para um grupo que ainda está preso ao passado? A resposta é sim, em um momento que tratou de trazer a luz as partes mais interessantes dos personagens e o lado humano de pessoas que se portam como deuses.

Porém, a humanização de Enzmann acabou fazendo dele, um novo tipo de monstro, afastando-a ainda mais das características que o texto propôs para nos aproximar do personagem. Tudo terminou bem estranho e extremamente de mal gosto para uma pessoa que tentou vender sua obsessão como algo puro, gerado na infância. Enzmann se transforma então no menino que queima formigas utilizando uma lupa, achando que seu trabalho, por conter ferramentas refinadas, não o sobrecarrega com a culpa pelas vidas que está tomando. E ele está, não se enganem. Christa pode justificar alguns pontos da ciência que o homem quis desbravar, mas jamais conseguirá iluminar o caminho sombrio que o ventriloquista precisou trilhar.

O mesmo discurso porém, pode ser evidenciado na busca por novas fronteiras. Algo que o homem sempre fez, ao passar por cima da moral e qualquer tipo de sentimento ao se posicionar como conquistador, foi justificar em seu discurso o avanço pelo bem da vida, ou da ideologia, quer seja econômica, ou filosófica. Curiosidade faz parte da evolução, mas é a adaptação que nos faz avançar.

Do lado de fora a sensação que permeia os instintos é a de controle, em alguns casos a falta dele, mas no geral o domínio que apenas uma pessoa sente ter em cima de sua experiência. Mas é lá dentro da Ascension que tudo se torna bem mais interessante. E é por isso que na review anterior eu discorri a respeito da minha insatisfação com a revelação que com certeza trouxe muitos de vocês para a segunda parte da produção. Mas pretendo discorrer sobre nos próximos parágrafos.

Viondra e Denninger são os mais interessantes e competentes dentro de toda a minissérie. É isso que me fez querer enxergar a produção como algo longevo e não apenas momentâneo. A relação tão complexa que ambos tem demonstra uma união que é de dar medo. De Jackie ao conselheiro, tudo o que acontece dentro das relações interpessoais ao redor do casal líder da nave exemplificam o que realmente é necessário para sobreviver e que mesmo sem atos de revolução que o mundo externo vivenciou, a evolução segue seu curso com, ou sem fatores que muitos possam utilizar hoje para justificar, por exemplo, a permissividade sexual da Ascension. Com esse tipo de visão, eu me aproximo da inteligência por trás da crueldade, mas quando chegamos no sobrenatural, eu me perco.

Vejam bem, Viondra é, além de uma excelente manipuladora, uma cafetina de luxo. O sexo é tratado como moeda, já que o dinheiro ali não tem validade algum. Partindo deste pressuposto, eu consigo compreender o real interesse do governo em cima de um projeto mesquinho e egoísta como este. O ruim é que ali, o exemplo acabou sendo outro. É Christa quem importa, e é assim que o direcionamento se dará no próximo e último episódio de Ascension. Mas para nós seria muito mais benéfico acompanhar apenas a nave, sem o Show de Truman/Big Brother. O lado mais ousado da série também se transformou em seu calcanhar de Aquiles, onde nossa diversão é por hora desviada para problemas que eu não quero lidar, ou pensar.

Fora da nave tudo é bem menos do que deveria, já que a proposta seguiu um curso bem menos fantasioso. A investigadora e sua amiga repórter deveriam ajudar, mas dificultam, são clichês que eu não consigo me relacionar, por já terem sido tão batidos em várias outras produções. Faltou então um pouco mais de desenvolvimento de personagens dentro da equipe, se a ideia era mesmo quebrar as sequências tão bem embasadas dentro da nave geração.

Mas o lado de fora não pode carregar sozinho o fardo de ter me deixado descontente. Nora e James não cooperaram em nada para série, que não precisava em tão pouco tempo se preocupar com seu lado Romeu e Julieta. Da mesma maneira funcionou para o lado de Gault, que apesar de funcionar perfeitamente bem, perde o brilho com seu lado romântico e não compreendido sendo forçado. As divisões dentro da nave com os níveis inferiores e o trabalho que ninguém quer, mas que precisa ser feito poderia ter ganhado um tratamento bem mais político e social. O casal jovem que só quer se amar merecia apenas uma menção, lá na primeira noite mesmo. Como eu já disse, o assassinato foi o estopim, sua conclusão poderia ter ocorrido de maneira menos rebuscada e sem tanta atenção assim. Afinal, Ascension precisa sobreviver, nosso interesse também.

É um pena o Syfy ter descreditado Ascension, que antes havia sido anunciada como seis episódios até sua conclusão e depois juntado em três partes. Eu não vejo isso com bons olhos, mas entendo que é possível sim que o material seja futuramente trabalhado, se houver retorno financeiro, que convenhamos é o que importa para qualquer obra que é colocada no ar hoje. Ela não é uma obra prima, mas merece destaque dentro de uma emissora que fez de Battlestar Galactica um culto e que duramente vinha tentando emplacar algo com o potencial de Ascension.

Infelizmente tudo acontece muito rápido e a necessidade de diminuir o ritmo para nos deixar respirar não vem, a série não tem tempo para isso. Toda a informação histórica veio através das investigações da Samantha, dando motivo para sua existência dentro deste mundo utópico. Mas sabem o que teria sido bem melhor? 13 episódios e pelo menos 5 temporadas para desenvolver tudo o que eu tão avidamente quero consumir em Ascension. Não me importaria com as influências negativas do lado de fora, ou o thriller que se instala através da investigadora e suas cenas de busca por compreensão. Toda a razão em Ascension é minada pela fé que existe dentro de cada um dos grupos apresentados, fazendo do experimento algo muito mais do que uma busca por salvação, mas sim um grito bem alto de crença naquilo que poucos hoje em dia são capazes de ver. O caos e a serenidade de se almejar o desconhecido e consequentemente, aprender com ele são os pontos mais fortes de todo o roteiro e é assim que ele deverá permanecer.

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