E você aí achando que mamilos eram polêmicos.

Era o penúltimo episódio da série, Will foi libertado da prisão, um dos personagens mais queridos de The Newsroom morreu, mas Sorkin desviou a atenção de tudo isso ao som dos Raimundos cantando “Eu quero é ver o oco”.

Sou mulher, o assunto estupro obviamente me fere e indignação não resume minha reação ao discurso de Don. O assunto dessa semana foi limite e liberdade, costurando desde o plot do encarceramento (e o fim dele) de Will, à maravilhosa entrevista de Sloan que aniquilou app e criador, o quanto o coração de Charlie aguentava e, claro, a fatídica entrevista de Don com a filha de Selina Meyer.

Sorkin tem a mania de usar suas criações e personagens para expor suas opiniões, tornando assim seu trabalho extremamente pessoal e por isso a crítica lhe dói tanto. Quando você fala mal de Newsroom ou outro trabalho de sua autoria, você não está falando apenas do seriado. Mas a grande pergunta é: até onde é ficção, provocação e até onde é a voz do escritor? Porque olha, meus amigos se tem uma coisa que eu dou valor nesse mundo é uma boa discussão, daquelas entre pessoas educadas, que sabem falar sem gritar ou ofender, que respeitam uma mentalidade oposta a sua. Que sabem que “certo” e “errado” são definições só suas. E foi isso que vimos na entrevista de Don, não importa a insalubridade do discurso dele. Dois errados não fazem um certo, uma acusação falsa não invalida a verdadeira e não, não se compara um site de denúncia de estupradores que não foram levados à justiça com um derevenge porn. Porra, Don!

Sabe o que me incomoda? Admitir que nem tudo que ele disse é um completo absurdo. Por exemplo, eu concordo que a moça tinha mais a perder do que a ganhar com o circo que seria aquela entrevista, MAS no fim do dia, a escolha é DELA. Ele não foi nenhum herói tirando esse poder de suas mãos. Incomoda também que foi justo o Don, aquele moço que aprendemos a gostar tão recentemente quanto intensamente. Você quer que o personagem tenha razão, você quer que ele escolha o lado certo, mas ele caga e isso te fode, porque você tava torcendo por ele. Poooorra, Don!

Esse delicado tema e o posicionamento de Don me remetem inevitavelmente às constantes acusações de machismo por parte de Sorkin. Acho que já disse aqui, mas vou me posicionar de novo dizendo que acho um tanto quanto exagero, acho mais sensacionalismo do que fato. Ele é machista, sim. Mas não é tão gritante nem ofensivo como retratam. Minha opinião. Durante a maior parte dessas 3 temporadas, vimos nossos Don-Quixote-wannabes lutando contra os – claramente – bad guys. Mas para acompanhar o texto – seja pela rapidez ou conteúdo – de Sorkin, é preciso que haja vida inteligente e crítica na sua massa cinzenta. Se alguém concorda com os parâmetros de Don, eu sugiro que procure ajuda, seu senso crítico (ora, seu bom senso) está perigosamente desregulado. Há toda uma polêmica em terras americanas, como se Sorkin estivesse fazendo apologia ao estupro. Como se ele estivesse mais uma vez usando os personagens para exprimir suas opiniões. E como Mary criou um site para se defender e dar voz a outras vítimas anônimas, automaticamente ela foi lançada ao grupo de mulheres pseudo-odiadas de Sorkin, pior ainda, uma praticante do tão criticado citizen journalism. Acho isso de uma forçação de barra tremenda. Não foi isso que vi.

Na cena da entrevista em questão, não acho que o diálogo te coloque contra a vítima, muito pelo contrário. Os argumentos de Mary são claramente mais dignos e relacionáveis do que os de Don. Diria até mais racionais, mesmo em meio a necessária emotividade da personagem. Por sinal, a linhagem Sutherland fez bonito em sua terceira geração, achei excelente a atuação da atriz.

Antes de encerrar esse assunto, eu TENHO QUE parabenizar Sorkin, porque uma mente brilhante como a dele sabia o quanto isso ia desviar a atenção do resto do episódio, o penúltimo episódio, mas ainda assim ele usou seus preciosos minutos para incitar uma discussão. Sorkin cutuca como ninguém e isso pra mim é televisão inteligente, a que te incomoda, que te arranca do sofá e te joga na roda da discussão já pegando fogo. Ele cria um desconforto tamanho que te obriga a reagir. Se você quer ficar confortável e passivamente na frente da TV, The Newsroom não é pra você. Ora, Sorkin, não é pra você.

Mas né, outras coisas aconteceram nesse episódio. Apesar do guarda ter cantado a dica no começo do episódio e às claras referências ao pai de Will (um bêbado que batia na mulher), eu caí que nem um patinho nessa alucinação. Mais uma vez no episódio temos um diálogo em que duas pessoas discordam e ambas tem razão em algum momento. Will é um arrogante que se sente melhor que os outros? Ô se é. Você não se sente superior a um alcóolatra que abusa fisicamente da esposa? Deveria. Nada é preto no branco e Sorkin coloriu lindamente isso em “Oh Shenandoah”.

Sloan MITOU.

(Tanto, que merecia um parágrafo dizendo apenas isso).

Maggie e Jim finalmente ficaram juntos na cena menos emocionante de toda história televisiva. Faltam sinônimos de “decepção” para expressar meus sentimentos. Sei que muita gente perdeu a paciência com os dois, não gostava dos personagens individualmente, quem dirá juntos, mas eu era uma MAGGIM aficionada e merecia mais depois de quase 3 temporadas de bad timing.

E Charlie, minha gente. Aquele bêbado maravilhoso que limpava armas com whisky, o muso da gravata borboleta, o alívio cômico da série, o que invariavelmente brilhava e agregava em suas aparições, o front de toda briga comprada, o homem que reconhecia suas limitações e sabia que não poderia vencer a briga com Pruitt. Ele não aguentou. Morreu a morte mais nobre de um quixoteano: lutando. O coração de Charlie não resistiu a tamanho desgosto e desconstrução. Will é a voz, mas Charlie era o coração da ACN. E você sabe que sem um coração, a morte é certa, assim como o Series Finale semana que vem.

Artigo anteriorGracepoint 1×09: Episode Nine
Próximo artigoSurvivor San Juan Del Sur 29×13: Let’s Make a Move