Engolidos pelo século XXI.
Não se trata de mim, Nick!”
– Frank Sobotka
Ziggy exibe sua nova câmera digital no bar frequentado pelos estivadores de Baltimore. Nick fica curioso com a nova tecnologia e pergunta como funciona. Não é necessário revelar as fotos, afinal. Apenas as descarregue no computador. Com uma simples nova tecnologia todas as lojas que fazem revelação estão fadadas ao fracasso, engolidas pelo progresso da ciência. Mas as pessoas irão se adaptar, não?
O trabalho no porto também está ficando cada vez mais escasso. Nick afirma que trabalha 5 ou 6 dias durante um mês inteiro, os barcos não vão mais para Baltimore e quase todos os estivadores falam desregradamente sobre como as coisas eram antigamente porque, adivinhe, agora elas estão uma merda. O que a inanição estrutural da cidade em promover obras de infraestrutura não corroer, a inovação tecnológica irá. Sem trabalho ou substituídos por máquinas, os estivadores terão que se adaptar a um mundo onde seu trabalho não é mais necessário.
Infelizmente, ninguém avisou Nick e Ziggy sobre isso. Ambos cresceram fazendo o que os pais costumavam fazer, e os pais não perceberam (ou não quiseram perceber) que seu ramo de trabalho não trazia consigo um prospecto agradável para o futuro. Presos nos negócios de seus pais, os membros da nova geração têm que se virar para conseguir pagar as contas de algum outro modo. Que tal contrabandear contêineres do porto para Vondas e The Greek?
Na cena inicial do episódio Frank Sobotka encosta Nick na parede e lhe dá um sermão sobre os negócios do porto e a dificuldade de realizá-los com a insegurança propiciada pelo contrabando do sobrinho. Considerando que ele faz exatamente a mesma coisa, parece ser uma hipocrisia tremenda, não? Entretanto, Frank tem objetivos bem definidos: ele quer remar contra a maré e trazer o porto de volta para os holofotes, com investimento público e modernização. Se preciso ele irá contrabandear, sim.
Isso traz nuances incríveis ao personagem interpretado por Chris Bauer. Ameaçado por todos os lados, ele se tranca no banheiro e desaba. Treze mulheres mortas em um contêiner, uma flutuando perto do porto e duas investigações em separado (ainda) mordendo seus calcanhares. Frank dirige um caminhão desgovernado que possui um destino fixo, mas sem rota definida, causando uma avalanche de efeitos colaterais por onde passa. Ele não pode abandonar seus colegas do sindicato que dependem do trabalho no porto para sustentar suas famílias. Ele não possui outro meio de levantar dinheiro suficiente para influenciar uma rede de políticos gananciosos a liberar os investimentos necessários ao desenvolvimento do porto. E mesmo assim, a perversidade dos seus atos o atinge com força. Frank é um dos personagens mais trágicos de uma série que está cheia deles.
Passamos do investigado para o investigador. O nome do episódio indica tudo que precisamos saber: Bunk e Lester vagueiam pelo porto sem uma única potencial informação sobre as garotas mortas no contêiner enquanto que o destacamento de Valchek sequer começou a trabalhar. Ambos estão investigando o mesmo caso, de certa forma, e logo ficarão sabendo disso. Não sei se ficaram com o mesmo sentimento, mas ao final do episódio eu estava quase roendo as unhas para que a investigação começasse logo. David Simon parece brincar com esse desejo, já que estamos no quarto episódio e nada aconteceu. Mas se cheguei ao ponto de querer que as falcatruas de um personagem que gosto muito sejam investigadas, é porque The Wire é extremamente competente no que faz.
No meio de todos esses conflitos, McNulty flutua desapercebido. Isso é muito comum na série, como se às vezes o personagem não tivesse mais importância nas plots principais da temporada e fosse deixado de lado para fazer o que bem entendesse. Nesse caso é recuperar contato com Omar por causa do julgamento de Gant, um eco da temporada passada, e terminar sua cruzada expiatória para identificar uma das vítimas do contêiner. Rawls deixou bem claro que não irá tirar o irlandês bêbado do trabalho no barco de jeito nenhum, e nesse ponto fica um tanto vago a utilidade do personagem no restante da temporada. Pelo menos serviu para nos mostrar Bubbles! Parecia até que tinham se esquecido dele…
A temporada continua e agora temos a promessa de que o trabalho irá realmente começar. As peças estão todas devidamente preparadas no tabuleiro, e as primeiras logo começarão a cair. Prepare-se!
Outras observações importantes:
– Nossos amigos traficantes da temporada passada continuam aqui, dessa vez colhendo os frutos do plano arquitetado no último episódio. D’Angelo, entretanto, se recusa a receber a recompensa junto de Avon. Ele pode ter ido para a cadeia em virtude de sua lealdade, mas está cansado de viver à custa dos negócios de sua família. A decisão que ele toma é corajosa e dignificante, mas como será que Stringer e companhia irão reagir?
– Stringer, a propósito, teve seu momento badass/tenebroso nesse episódio ao fazer pouco caso da pena de morte aplicada ao funcionário da penitenciária (Tilghman). Não há espaço para sentimentos pessoais em seu negócio, e o modo com o qual Idris Elba transmite a frieza do personagem é digna de aplausos.
– The Wire gosta de traçar paralelos, mas dessa vez creio que exagerou um pouco na dose. A cena na qual Greggs e Daniels jantam com seus cônjuges após lhes informarem de que ficarão na polícia de Baltimore é hilária, mas a série normalmente é mais sutil com suas comparações.
– É claro que eu iria falar um pouquinho mais de Bubbs, meu personagem favorito. Sempre me impressiono com o figurino e as locações que arrumam para o personagem. É tudo tão genuinamente nojento e dilapidado… A barba irregular, a saliva pingando e o dente podre são características cruas e repulsivas que nunca vi registradas em qualquer outra série na minha vida. Você pode assistir outras séries sobre viciados em drogas e achar que tudo é realista e representa “a vida como ela é”, mas The Wire extrapola todos os limites e consegue te chocar mesmo assim.
– Ziggy é uma tragédia ambulante. Quando Nick lhe diz para manter as aparências e não sair torrando dinheiro, é visível na cara do seu primo que ele irá fazer o contrário. Em outras circunstâncias poderia parecer forçado, mas Ziggy transmite uma aura tão poderosa de idiotice e imprudência que acreditamos em qualquer coisa.














