Quem não tem um Eugene encolhido em si que atire a primeira pedra.
Sabe quando a gente assiste pela TV um grande desastre ou situação de perigo acontecendo? Eu sofro de uma empatia crônica, então estou sempre me colocando no lugar das pessoas. É praticamente inevitável… Enquanto acompanho aquelas imagens, eu mergulho de verdade na suposição do que seria capaz de fazer ou não fazer se vivesse tal circunstância. Será que eu seria uma daquelas pessoas que se veem fracas, mas se descobrem fortes? Será que eu entraria em pânico? Será que eu não seria escolhido para compor um quadro de sobrevivência justamente porque não me sinto capaz disso?
Matar walkers não seria fácil pra mim… Minha política sempre foi de fuga e não de confronto. Acho que costuma acontecer com pessoas que foram muito acuadas desde a infância, que perderam um senso de autoconfiança, sendo a autoconfiança a responsável por nos convencer de que somos capazes de fazer coisas que o bom senso nos impediria de levar adiante. Da mesma forma que o medo paralisa, a coragem nos torna imprudentes. A maioria dos que morrem afogados são exímios nadadores e os que se consideram ótimos motoristas são os que primeiro batem.
Assim fica fácil entender o que moveu Eugene até esse momento da trama. The Walking Dead fez um episódio que eu vou pedir licença aqui pra chamar de chato, mas não porque tivesse pouca ação ou conteúdo, mas apenas porque a questão do ritmo é como um detalhe sensorial, tal qual o timing de comédia: a piada existe, está ali, com forma e substância, mas se não tiver o tempo certo, a inflexão certa, não funciona. Self Help foi um episódio com conteúdo válido, mas que nos trouxe de volta aquela morosidade já bem conhecida dos fãs, e que já vou atribuir ao que considero o grande problema da série: a divisão de núcleos.
Jamais entenderei porque precisamos gastar 43 minutos num só grupo de personagens, que por uma questão de enquadramento dramatúrgico, não pode fazer nada que não seja andar, entrar em casas vazias e matar walkers. Se a rotina pós-apocalíptica é essa, que ao menos os roteiros passeiem por todas as possibilidades promovidas pela edição de núcleos. Dava pra ver tudo isso que vimos em Self Help ser resumido em um bloco, mas dá pra ver tudo isso também ser espaçado em cortes que se encaixem com o que está acontecendo com o resto dos grupos. Assim, entre uma cena e outra de verdadeira importância, não precisa haver irrelevância, mas sim a abordagem de um outro espaço e circunstância.
Mas, dito isso vamos encarar os fatos… E o fato é que Eugene e Abraham foram as estrelas da semana. E eles são complementares. Eugene precisa de alguém para protegê-lo e Abraham acha que vai superar suas perdas protegendo com violência. Eugene tem um medo paralisador e Abraham prefere a morte à hesitação. Esses paralelos foram adornados com pequenos – mas pequenos mesmo – flashbacks do passado de Abraham, que substanciaram o personagem homeopaticamente, apenas com o intuito de revelar a forma como essas duas figuras se encontraram.
Os leitores dos quadrinhos já sabiam que Eugene era um grande mentiroso e esse episódio aproveitou pra acabar com as esperanças de haver qualquer explicação para o apocalipse (pelo menos por enquanto). Acho que no que diz respeito ao personagem, Self Help foi mais eficiente com ele que com Abraham. O medo ao ter que matar os walkers, a confissão para Tara, o diálogo (mesmo que frouxo) com Maggie e a certeza de que chegar ao seu destino seria o mesmo que precisar lidar com a verdade. A surra de Abraham acabou funcionando, porque por mais que a atitude de Eugene tenha sido covarde, ele só estava fazendo o mesmo que os outros: sobrevivendo a qualquer custo. Por isso, aquela violência soava profundamente egoísta e hipócrita. Abraham teria coragem de dispor da vida de qualquer pessoa para fazer o que lhe trouxesse algum tipo de alívio moral. O episódio tomou sua ferida nos punhos como uma metáfora para tudo aquilo que não cicatriza nele desde que assustou sua esposa e filhos com sua violência. Assim que a verdade sobre Eugene aparece, tudo volta a sangrar na mesma proporção, afinal, ele está de novo, sem nenhum propósito.
A partir de agora, entramos num impasse. Deveríamos saber o que vai acontecer depois que a ida a Washington se torna obsoleta, mas nesse sistema de abordagem de núcleos, é bem possível que semana que vem voltemos ao hospital ou encontremos o pessoal de Rick. Nos quadrinhos há uma convergência importante que levará a um destino inesperado, mas não se pode contar que a quinta temporada vai lançar mão disso. Acredito que até o episódio 8 ou 9 (quando deve ocorrer o hiato), vamos ficar nesse rodízio, para somente no momento de fazer esse intervalo, descobrirmos o que ocupa o lugar de Washington no foco dessa temporada.
Estamos aqui, estamos levemente redispostos pelo que acontecera até a semana passada, não seria justo reclamar ainda. The Walking Dead se protege em eventuais episódios fortes para se manter viva, tendo dentro de si muito mais de Eugene que de Abraham… Mas, quem pode dizer que nunca parasitou a força? Se a série se comporta assim e nunca a deixamos, é porque somos tão oportunistas quanto ela.
Wrong Bite: Maggie fala de culpa, hipotetiza um futuro positivo, filosofa ridiculamente sobre cabelos, mas falar de Beth, nada.
Wrong Bite 2: Um jato de água desintegrando zumbis, que tem força suficiente para ainda andarem, pressionarem coisas e vítimas. Inseguro sobre isso. Dissertem.
Right Bite: Abraham pega Rosita sem nenhum romance (com direito a Eugene fazendo o voyer), mas ainda usa a aliança.
Right Bite 2: Eugene está lendo The Shape of Things To Come, de HG Wells, no diálogo com Maggie. Além de já ter sido o nome de um importante episódio de Lost, o livro foi usado tanto lá quanto aqui, como uma espécie de arauto de uma sociedade futurística e hipotética, que perdeu seus aspectos habituais, é dominada por uma ordem de características abstratas e transgride o conceito de utopia.
Random Bite: O cabelo do Abraham está mais vermelho ou é impressão minha?
Random Bite 2: Alguém finalmente lembrou que existem bicicletas naquele mundo.















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