Cicatrizes de um passado turbulento.

Somos apenas um monte de corpos…”

– Connie

Em 1994 Ali encontra um homem brincando com um avião motorizado e resolve conversar com ele. Seu nome é Patrick. Ambos bebem, vão até a praia, correm um atrás do outro e caem sobre a areia. Ela diz ter 17 anos, mas na verdade tem 13. Ele é claramente muito mais velho. Então, subitamente, a câmera vai para o lado e revela a Ali de 2014 sentada sobre a areia, olhando para o mar. Patrick se aproxima dela, agacha-se e a beija. A Ali de 94 rasteja até os dois e tenta arrastá-lo para longe de si mesma.

É uma cena poderosa, impactante e enigmática. Qual o seu significado? Estou propenso a acreditar que o que vemos aqui é Ali depois dos acontecimentos do sétimo episódio, escondida em um lugar que frequentava na sua infância e refletindo sobre toda a alucinação que teve com Dale. Por algum motivo ela se lembra desse episódio com Patrick, talvez porque ele fosse o estereótipo real de algo que ela buscou ficcionalmente com Dale e não conseguiu. Segundo Solloway, a cena do último episódio não implicava que Ali estava com alguma doença mental. Ela simplesmente buscava algo que não conseguia encontrar, e acabou fantasiando tudo.

Best New Girl é um tremendo episódio flashback que conecta-se com a trama de 2014 em vários níveis e explica muito bem os problemas da família Pfefferman. Todos os personagem recebem sua pequena história, e quando olhamos para o todo podemos vislumbrar uma conjuntura familiar desorganizada e vacilante. Prestem atenção nas atitudes irresponsáveis de cada um deles: Mort viajando de surpresa para seu retiro, Shelly deixando os filhos sozinhos para visitar uma amiga, Sarah deixando os irmãos mais novos sozinhos para ir a um protesto… O que Josh falou em alguns episódios passados acaba sendo uma verdade dolorosa: seu caso com a babá passou longe das vistas dos pais, e mesmo que ele tenha se lançado nessa aventura Mort e Shelly deveriam estar lá para cumprirem seus deveres para com os filhos.

Todo o cenário desse episódio é libertino. Cada membro da família Pfefferman, sem exceção, acaba indo para onde bem entende sem pensar nas consequências de seus atos. Ali tem 13 anos, ela devia pensar melhor antes de se aproximar de uma pessoa mais velha e desconhecida com intenções sexuais, não? Fiquei com a forte impressão de que Josh, Ali e Sarah cresceram sem restrições físicas ou morais, num ambiente irrestrito e indiferente. Maura disse no primeiro episódio que não sabia como havia criado três pessoas que não conseguiam enxergar além de si mesmas. O triste quadro que se apresenta aqui sugere que talvez ela estivesse longe demais para reparar. Lembram-se das menções no piloto à vida desregrada e cheia de mulheres que Mort possuía?

Mesmo com essa pitada de veneno na história de Maura, temos em Best New Girl uma poderosa exposição de sua experiência como transsexual que acaba instilando ainda mais empatia pela personagem.. Ela embarca no retiro com Marcy e no início tudo parece maravilhoso. Vista-se como quiser, liberte-se, seja você mesma… Mas os ruídos começam a aparecer quando Marcy vai até o telefone e fala para seu filho “virar homem”. O abalo da personagem é interpretado lindamente por Tambor. Depois disso, o verdadeiro golpe: numa conversa animada menciona-se o nome de Ramona, uma transsexual que foi excluída do grupo por ter usado hormônios e mudado de nome. A felicidade de Maura desfalece. São círculos dentro de círculos, preconceitos dentro de preconceitos, e aparentemente nem quem se veste como mulher tolera um homem que efetivamente se transformou numa mulher. Se nem esse grupo aceita o que Maura realmente quer, onde ela se encaixará? Por isso a demora para se revelar, o medo de contar para os filhos, a angústia da rejeição. Ela simplesmente não encontra um lugar onde seja aceita.

Nesse sentido a frase de Connie, a esposa de um dos frequentadores do retiro, é tão poderosa. SOMOS APENAS CORPOS. Com pênis, vagina, ambos, nenhum, o que ela quer dizer é que está cansada dessa segregação, desses rótulos sexuais que excluem e vilanizam. Seja o que você é, mude para o que você quer ser, não importa, desde que seja feliz com o que decidiu.

Já da parte dos três filhos, a narrativa mais contundente é obviamente a de Ali. É extremamente necessário elogiar os incríveis achados que foram os atores mirins que interpretaram Josh, Sarah e Ali. Além de serem parecidos, eram nítidos os trejeitos e comportamentos de cada personagem em relação às suas versões adultas. A atriz que interpretou Ali em 1994 é a mais digna de nota, pois carregou com tranquilidade cenas nada fáceis e mostrou um talento incomum.

Cenas essas que esclarecem uma Ali em 2014 totalmente sem rumo. Ela em nenhum momento da vida recebeu um mapa, uma estrada para trilhar, regras simples ou proibições. Sarah, por sua vez, reflete no passado o coração bem intencionado que ela sempre teve misturado com atitudes míopes e irrefletidas. Já Josh… Será que a adoração de uma mulher mais velha desde cedo o levou a ter uma opinião muito pretensiosa de si mesmo?

Temos em Best New Girl um conceito nada novo de episódio flashback (The Leftovers fez isso há pouquíssimo tempo), mas que funciona de forma tão calibrada a ponto de igualar as melhores cenas do gênero em Lost. É tudo relevante, elucidativo, e saímos dessa experiência com um conhecimento muito maior dos personagens que amamos (ou, compreensivamente, odiamos). Em Symbolic Exemplar Transparent atingiu um ápice, e agora consegue se manter no topo. Faltam só mais dois!

Outras observações importantes: 

– Antes eu estava gostando muito da trilha sonora da série. Agora estou seriamente considerando as possibilidades para um Emmy na categoria. É a primeira vez que vejo essa técnica de usar a mesma abertura com uma música diferente, e para mim foi hipnótico e espetacular. Bob Dylan se sentiria honrado.

– Será que Marcy realmente estava a fim de Maura? Reassistindo o episódio sob essa perspectiva fiquei extremamente inclinado a concordar com a teoria de Connie. Infelizmente o preconceito novamente construiu uma muralha entre essa amizade.

– Em uma entrevista recentemente Jill Solloway disse que pretende seguir com a série por mais 4 temporadas. É um atestado ao poder da série que eu não faço a mínima ideia do que ela poderia desenvolver com todo esse tempo de tela, mas que com certeza irei assistir tudo de “olhos fechados”.

– Shelly é de longe a personagem mais hilária de Transparent. Aquela piada sobre o camelo… vocês sabem… enfim, deixem pra lá.

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