Hora de arregaçar as mangas e mostrar serviço.

 Essa merda não está certa”

– Bubbles

No fim do último episódio algo deveras catastrófico ocorreu, e The Hunt se dedica quase que inteiramente a mostrar as repercussões desse acontecimento. Entretanto, no meio de todo o alvoroço que abordarei mais adiante, uma história particular do personagem que sempre se destaca para mim me comoveu: Bubbles novamente rouba o centro das atenções.

A sua decisão no último episódio de largar o vício é corajosa e madura, mas não importa o que o seu conselheiro diga sobre a vida após as drogas ser mais difícil do que efetivamente deixá-las, bem, ainda é difícil pra caramba. Numa entrevista alguns anos atrás Simon e Burns, as duas mentes por trás de The Wire, afirmaram que quando um viciado decide deixar as drogas ele cria um plano, e que quando qualquer um dos elementos de seu plano não se concretizam ele rapidamente desiste. Por quê? Simples, é difícil. Dificílimo, aliás. Decidir abandonar sua maior fonte de prazer é o maior de todos os obstáculos, e deveria ser o único.

Mas para Bubbs não é. Ele decide mudar, mas todos os elementos de seu plano começam a se evaporar de forma medonha quando Greggs é baleada. Quando não recebe informações dela, liga para seu pager e acaba numa sala de interrogatório sendo espancado por Crutchfield. E por fim é usado por McNulty, que de tão centrado no seu mundo ignora o que Bubbs tem a dizer e o usa para obter informações sobre os atiradores, colocando-o a contragosto no último lugar em que ele deveria estar e, de quebra, lhe dando 20 dólares para cheirar um pouco.

Da mesma forma que Wallace deveria ter alguém ao seu lado para guiá-lo, Bubbs também deveria ter apoio. Os dois caminham sozinhos num mundo em que ninguém deveria estar sozinho, e não está certo mesmo. A violência policial, a falta de suporte para um viciado que quer mudar de vida, o descaso total… Tudo se soma para tirar o personagem do caminho que ele deveria trilhar.

Enquanto a história particular de Bubbles se desenrola, entretanto, a merda atinge o ventilador quando Greggs é baleada, tanto que vemos pela primeira vez o Comissário de Polícia de Baltimore (Frazier, aquele que da forma mais racista possível confunde o Tenente por assumir que ele deve ser um cara branco) aparecendo na área. Como várias outras profissões, a polícia também é muito corporativista e reage muito mal a ter alguém de suas fileiras quase assassinado. O grupo dos Barksdale pisou feio na jaca, e a vingança se aproxima. Mas não do jeito que esperávamos…

A alternativa escolhida por Frazier e Burrell é simples: fazer o que eles “sabem fazer melhor”. Bater em portas, cabeças e montar o teatro de sempre com apreensões em quantidade. Mostrar para os criminosos de Baltimore quem é que manda. Às custas mais uma vez, é claro, da investigação e da escuta.

Já vimos muitas vezes pela televisão cenas parecidas com essa montada pela alta cúpula da polícia para atrair a atenção da imprensa: uma mesa abarrotada de dinheiro, armas e drogas para passar a impressão de “serviço cumprido”. Será que, como em The Wire, na vida real é tudo falso? A possibilidade existe. Depois de acompanhar mais de dez episódios mostrando o funcionamento de uma rede de comércio de drogas, começamos a perceber que perder equipamento, produto ou lucro não é um golpe tão fatal. Tudo se recupera com o tempo se você tiver a mão de obra necessária, e é justamente esse elemento do negócio que a escuta pretende atingir. Desmantelar a cadeia de comando e jogar todo mundo na cadeia é o modo certo de destruir uma rede de tráfico. O modo com que a polícia de Baltimore age sempre atinge o tijolo, mas não a mão que o arremessa.

Interessante é que quando o Comissário realmente decide agir e se esforçar para obter resultados esse resultado é o contrário do imaginado: Daniels e sua equipe estavam indo muito bem sem a interferência de cima, e agora com todo o circo montado para responder ao atentado contra Greggs é que eles realmente se deram mal e provavelmente perderam a escuta. Mesmo assim, a genialidade empregada por Lester na resolução do caso é para se aplaudir de pé. Combinando informações da escuta com evidências da cena do crime ele consegue identificar todos os envolvidos na morte de Orlando. Infelizmente Stringer é tão esperto quanto ele. Usa Savino para tomar as acusações, mata Little Man, envia Wee-Bey para longe da cidade e queima os 30 mil reais tão caros aos investigadores do DEA.

No saldo total, a polícia saiu perdendo. O problema é que as pessoas que realmente deveriam se importar com isso acham que a polícia está ganhando. Como mudar sem antes reconhecer os próprios erros?

Em The Hunt vemos uma burrada atrás da outra, mas The Wire guarda para o final aquela que talvez seja a mais grave e, paradoxalmente, a mais justificável. Prez vigia os últimos resquícios da escuta e capta uma ligação de Wallace para Poot no orelhão. O garoto parece querer voltar para Baltimore, e isso obviamente é uma PÉSSIMA IDEIA, mas ele não tem ninguém para lhe dizer o contrário, tem? McNulty e Daniels esqueceram completamente do garoto por alguns dias, e agora a principal testemunha do caso está saindo de seu esconderijo. Podemos culpá-lo por se sentir sozinho com pessoas que mal conhece e por desejar voltar para a companhia dos únicos amigos que conhece?

Outras observações importantes: 

– McNulty expressa novamente seu complexo de superioridade ao lançar a culpa do atentado a Kima sobre seus próprios ombros. É claro que foi culpa dele, de quem mais seria? Felizmente Rawls, demonstrando uma humanidade que estava escondida de nós, tirou-o dessa paranoia. The Wire sempre consegue dar contornos humanos aos seus personagens, seja com Rawls dando um bom conselho a uma pessoa que odeia, seja com Wee-Bey alimentando seus queridos peixes.

– Na onda de mostrar lados insuspeitos de alguns personagens, The Hunt nos presenteia com um momento em que Stringer não age com cautela. Como Avon bem aponta, Bell deveria ter suspeitado de Orlando quando ele surgiu com 30 mil dólares no bolso, não?

– O rosto de Phelan ao recusar o pedido de McNulty que acarretou a implosão da escuta é cheio de facetas. É a face de uma pessoa que deixou seus princípios morais de lado para ascender financeiramente. Ele sabe que fez algo errado, mas não se importa mais com isso. Mas ao mesmo tempo há uma pontinha de culpa, como se Phelan se sentisse chateado por não poder usar mais a frase “Who’s your daddy now?” ao garantir a sobrevivência da investigação por mais algumas semanas.

– Larry Gilliard Jr. é um ator surpreendente. Conheci-o assistindo The Walking Dead e, como qualquer outro ator da série, tive uma má impressão sobre ele. Mas acabei descobrindo em The Wire que seu talento foi totalmente subutilizado pela famigerada série de zumbis. Ele, afinal, atua muito bem e prova isso ao acompanhar um Wee-Bey totalmente desatento até o seu esconderijo de aquários. Uma cena que diz muita coisa sobre o modo de funcionamento da operação Barksdale, não? Um dia você está vivo, no outro seu tio pode ter ordenado sua morte. No fundo não há confiança nem amizade nesse ramo de negócio.

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