No final, ficamos com o óbvio… Mas executado com uma maestria ímpar!
Iniciamos essa trajetória em O Rebu com uma trama básica: a descoberta do corpo de Bruno Ferraz boiando na piscina, durante uma megafesta na casa da magnata Angela Mahler, dá início ao “Quem matou?” já bem enraizado na cultura dramatúrgica brasileira…
Mas além da resposta a esta pergunta que, afinal, era o grande mote da (agora velha) novela das 23h da Globo, o que O Rebu nos deu foi muito maior do que poderíamos imaginar… Da ressaca da festa e da descoberta do corpo, iniciou a fase de investigação e, com ela, fomos apresentados a um dos grupos mais heterogêneos na história da televisão, um verdadeiro desfile de personagens fantásticos, com as mais variadas motivações e que só tinham em comum a relação com o poder e o dinheiro.
E assim conhecemos Oswaldo Pamplona e a linda e triste história que este compunha com sua esposa, Camila. Conhecemos também o extremo oposto de um relacionamento, com Bernardo, Gilda e seus respectivos amantes. Vic Garcez e Maria Angélica traziam uma vivacidade a alegria que contratava com o clima pesado daquela Mansão, da mesma forma como não encaravam nada “pesado” em suas próprias vidas. Kiko se perdeu cada vez mais em sua ambição. E Alain não era apenas um penetra na festa, mas também um penetra naquele grupo de personagens, a vazão de um roteiro que pouco abordava os menos favorecidos.
E por fim tínhamos Angela, Duda e Braga, os três maiores personagens de uma trama em que o principal personagem estava morto. E o grande destaque desses três nomes existia exatamente em razão da relação destes com a vítima.
Aliás, é necessário destacar que Bruno Ferraz era uma figura a parte, um nome que dava estabilidade e vida à trama, já que sendo um homem tão ambicioso e com tantos inimigos, tornava fácil o trabalho do roteiro em fazer de todos os personagens da festa suspeitos em potencial, afinal, poucos ali NÃO QUERIAM matar Bruno.
Mas certamente, os que mais queriam matar Bruno eram, de fato, Angela, Braga e Duda. A primeira para proteger a filha (e sua herança), o segundo por vingança de um homem poderoso prestes a perder tudo e a última por amor, ou melhor, por ter seu amor traído. E eu, sempre, em todas as reviews que fiz, tentei fugir do óbvio… Tentei não apostar tanto em nenhum desses três nomes (embora Angela e Duda apareçam no topo do meu ranking de suspeitos da última review que fiz).
Mas se o final da novela abraçou o óbvio ao dar um nome para o seu assassino, o mesmo não ocorreu como as arestas se apararam… Ou seja, tivemos um assassino óbvio, em um final surpreendente, na medida do possível.
Mas antes de falar do final em si, vamos a um aspecto da obra, em geral: a exploração de sua trama.
A ideia de uma novela desenvolvida em apenas 36 capítulos é genial, pois apesar de ser um tipo de dramaturgia genuinamente brasileiro, a telenovela sofre de um desgaste natural de uma era tecnológica em que tudo é imediato. Então, O Rebu pode ser considerada uma novela, desenvolvendo toda sua trama em torno de 36 capítulos? Não diria bem isso…
O Rebu foi sim uma ótima novela, com um elenco espetacular e com o melhor texto dentre todas as quatro novelas em exibição na Rede Globo, isso sem falar, é óbvio em todos os aspectos técnicos de uma direção competente (capitaneada por José Luiz Villamarin), uma fotografia fantástica e uma trilha sonora inovadora…
Mas, por incrível que pareça, mesmo tendo apenas 36 capítulos, a novela mostrou perda de fôlego em determinado momento… Ou seja, por mais que seja louvável uma trama dessas desenvolvida em apenas 36 capítulos, no caso específico de O Rebu, a impressão que fica é que dava pra trabalhar em menos capítulos.
E quanto a este ponto em específico, não há o que culpar George Moura, que depois de duas minisséries de sucesso (O Canto da Sereia e Amores Roubados) estreia com o pé direito como autor de novelas, já que a questão da (pequena) perda de fôlego da trama se deu em razão da própria trama, que era bem simples. Para segurar a investigação sobre a morte de Bruno, outros elementos foram introduzidos, como o atirador e a morte do Chef Pierre. Mas se por um lado a história do atirador foi utilizada no encerramento de personagens centrais, por outro, a morte do chefe de cozinha foi pura enrolação para retardar a investigação de Pedroso e Rosa.
Tivemos assim, entre os capítulos 22 e 30, um período em que a trama pouco evoluiu e se segurou basicamente em razão de seu elenco irretocável e de personagens que, a esta altura, já tinham nos conquistado o suficiente para assistirmos suas tramas pessoais (o que justifica, por exemplo, o tempo “perdido” com os filhos de Gilda e Bernardo a esta altura da trama).
Mas quando a trama voltou a engrenar, tivemos uma sequência final que provou a força que a novela já tinha mostrado em sua estreia: ritmo, consistência e equilíbrio fecharam a última semana e meia da novela. Isso sem falar, obviamente, a preocupação com o encerramento da trama dos principais personagens.
E o primeiro encerramento que tivemos foi o de Carlos Braga. A disputa do empresário com sua sócia Angela Mahler deu o tom de grande parte da trama e a relação de ambos com Bruno fazia com que se tornassem os principais suspeitos. E ainda que tenha flertado com uma trama de redenção do personagem de Tony Ramos, ao nos mostrar o seu câncer fatal na cabeça, o roteiro foi firme em passar a mensagem de que um homem como Braga não teria como escapar impune…
E assim, dois capítulos antes do grande final temos a prisão de Braga, por tentar subornar o Delegado Pedroso, mas principalmente por ter contratado Severino (a partir de suas conexões com o Major Fred) para matar Angela Mahler. E assim, Severino estava selando o destino do primeiro dos principais personagens de O Rebu.
Mas o encerramento da trama do Braga àquela altura também mostrava que dificilmente o empresário teria matado também o Bruno, o que trazia novamente os holofotes para Angela e Duda, e se a primeira se tornou absolutamente suspeita pelo envolvimento completamente incabível com o delegado, sua filha também havia se tornado ainda mais suspeita em razão de seu comportamento arisco desde que retornou à Mansão, após sua saída misteriosa para “visitar a tia” de Bruno.
Assim, mantendo sempre o ritmo frenético em sua reta final, o que inclui a descoberta de que Bruno havia morrido de frio e falta de ar, e a descoberta da verdadeira cena do crime, no freezer da casa da piscina, chegamos ao bombástico penúltimo capítulo, que nos trouxe a revelação de que teria sido Duda quem matou o rapaz.
A história, que já havia sido montada por Pedroso e Rosa, incluía a descoberta (pelo rapaz) que a moça desviava dinheiro da empresa de Angela, o que levou à discussão entre os dois e, num arroubo de raiva, o ataque com o souvenir na cabeça de Bruno. Vimos ainda Duda colocar o corpo do rapaz no refrigerador e sua tentativa de fuga interrompida por Pedroso e Rosa.
Tudo estava resolvido então, correto? Nada disso.
Ocorre que ainda que em choque e tendo a certeza de ter matado o amado, não podemos nos esquecer que Bruno morreu de frio e não da pancada na cabeça (tanto é que, dentro do freezer, ainda teve tempo de digitar a mensagem que colocou Pedroso na cola de Duda) e ainda tivemos a revelação de que a temperatura do freezer foi diminuída após colocarem o corpo da rapaz lá dentro e, a essa altura, bastava somar um mais um para descobrirmos que a verdadeira responsável pela morte de Bruno era uma das maiores suspeitas, desde o princípio: ANGELA MAHLER.

Neste momento, achei um toque genial voltarmos ao momento em que mãe e filha jogaram o corpo na piscina e, logo em seguida, emendarmos no plano-sequência de abertura da novela… Se àquela altura tudo o que víamos era uma festa que não demoraria a desandar, rever novamente aquela sequência nos trazia muito mais significado agora, principalmente ao notar a completa ausência de culpa de Angela, que se manteve nessa pose durante toda a investigação.
E a frieza com que Angela Mahler lidou com toda a situação foi o grande trunfo de uma trama que tinha em uma Patricia Pillar (inspiradíssima, como de costume) estruturada toda sua narrativa. Enquanto Duda foi se entregando a cada momento (e aqui vale lembrar da primeira cena da moça, já descontrolada, cantando para Bruno), Angela se manteve no controle da situação o tempo todo. Ela sabia que teria Alain par assumir a culpa em nome da filha e que, na pior das hipóteses, a própria Duda achava que, afinal, teria sido a grande responsável pelo seu amado.
Tivemos ainda dois momentos belíssimos, o primeiro de Angela e Duda, na delegacia, onde as máscaras de boa filha e de boa mãe caíram e fomos coroados com atuações irretocáveis de duas atrizes que foram as grandes responsáveis pelo sucesso de O Rebu: a já consagrada Patrícia Pillar, e Sophie Charlotte, que com esse trabalho marcou seu nome entre as atrizes de sua geração que merecem mais atenção.
E a segunda cena, também impactante, mas que serviu, sobretudo para limpar a barra do delegado Pedroso (que ao final teria seu “felizes para sempre” ao lado de Rosa, como era merecido para ambos) foi o embate entre o delegado e a empresária, que mostrou que apesar de apaixonado pela poderosa mulher, não se deixou levar (tanto) pelo emocional e não permitiu que sua visão se fechasse completamente a possibilidade dela ter algo a ver com a morte do Bruno.
No final das contas, Pedroso foi o único que sabia da culpa verdadeira de Angela Mahler e o único que se preocupava em arranjar alguma justiça para a morte de Bruno… O que não chegou a ser necessário, já que no fechar das cortinas apareceu Severino para, com um único tiro (aquele que ele errou no primeiro capítulo, mas não errou agora) selar definitivamente o ciclo vicioso que conhecemos ao redor da história de Bruno Ferraz… Assim, Severino selava o destino de um segundo personagem do trio principal e, com Duda presa, O Rebu se despedia com graciosidade da televisão…
A festa acabou, a música cessou, as pessoas já foram embora… O Corpo da piscina? Já foi retirado… A culpada já foi presa (embora não seja a verdadeira culpada), e a investigação terminou…
O Rebu se despede da TV como a melhor produção dramatúrgica nacional do ano de 2014, e o que fica é a excelente impressão da estreia de George Moura como autor de novelas, a fotografia sempre irretocável de Walter Carvalho, a direção competente (e já aguardada) de José Luiz Villamarin e um elenco que, nossa… Digamos que pra ter sempre um elenco desse na minha TV eu iria sempre querer ter um rebu desses…
No final das contas, O Rebu fez jus ao que dela se esperava: foi um tremendo de um rebu!

Gostaria de agradecer a todos que acompanhou essa semi-cobertura da novela aqui no SM e pedir desculpas por não ter coberto os episódios finais… Problemas pessoais realmente sérios (e que nem o Delegado Pedroso poderia me ajudar) me impediram de continuar e como não tinha mais ninguém na equipe que assistia a novela, a cobertura acabou sendo abandonada mesmo.
Mas ainda assim quero deixar esta mensagem de agradecimento a todos que correspondem bem às nossas coberturas nacionais, que estão cada vez mais aumentando e ganhando destaque no site. Grande abraço!






















