A grande metalinguagem.
Dentro da minha própria família (minha mesmo, deste que vos escreve) reconheço várias referências ao programa. Sim, me limito às menos particulares e peculiares para tantas mil pessoas poderem ler, mas aqui trago algumas. Minha madrinha lembra (e muito) a figura de Marieta Severo, seus cabelos negros e encaracolados deram o apelido de Nenê para os mais inspirados da família, e sempre ressaltamos a sua semelhança em almoços e comemorações. Ela é a mãezona de todos e é ao redor de suas mesas que ocorrem a maioria dos cafés-da-tarde. Em outro causo, também perdi um avô ao longo desses catorze anos de história do programa. Mas ele é sempre lembrado nas reuniões de família, revivemos o que ele gostava de fazer ou não, tal como o saudoso Floriano. Por enquanto, diferimos um pouco, porque ainda, por aqui, nenhum neto se chama Agenor. Brigamos, discutimos, mas sempre querendo o bem de todos ao nosso redor. Tudo isso, em volta de uma mesa com uma jarra de abacaxi a adornando. De verdade, a gente tem uma réplica dessas.
Claro que para um programa que durou tanto tempo, com audiências dignas de um horário nobre na mais importante emissora de tevê brasileira, e, que apesar parecer um pouco desgastado com seu formato e com seus roteiros nos últimos anos, ainda mostrava força a ponto de causar burburinho nas quintas-feiras à noite, ele precisava acompanhar o tempo e o espaço do homem brasileiro. Tal como a minha família, nesses poucos flashes que compartilho com vocês, em algum momento tenho certeza de que você também já se identificou com a família Silva. Ela acompanhou as crises, as eleições, a necessidade de se ter dois empregos, a necessidade de se ter pelo menos um emprego, a malandragem, a superação da morte, a ascensão social. Tudo passou por ali no programa mais longo da televisão brasileira, em alguma quinta-feira.
E no último episódio, alguém também (sim, “alguém” é uma palavra fraca para uma pessoa do porte de Daniel Filho) identificou na família uma forma de fazer tevê. Identificaram a família Silva lá na ficção para estar lá em um programa. A tal família é tão importante, que se não existisse, ela deveria ser criada. Mas, criada ela nunca foi. Mesmo que seja um remake, essa grande família existe em cada casa de cada quarteirão das cidades brasileiras. Da classe média ao nouveau riche. Da favela ao condomínio fechado de luxo. Da família do estudante que come miojo todo dia à família de dois pais. Ou a de duas mães ou do genitor solteiro. E existe na minha casa de origem italiana, com todo mundo falando com a mão e limpando a boca na própria toalha. A Grande Família durou até hoje porque se fazia presente nas histórias do cotidiano. Nas roupas do Agostinho. Nos pastéis do Beiçola. Nas chatices de Lineu.
A gente é tão comum”
– Nenê.
Lineu queria um relatório sobre o programa antes de aceitar. Agostinho queria vantagem. Paulão não sabia o queria. E o Daniel Filho queria camarão dentro do pastel. Os atores da série dentro da série estavam impagáveis. Em catorze anos, os tipos já não eram mais tão caricatos como percebemos neste episódio. Imaginei quem interpretaria meus familiares na telinha, e como eles seriam interpretados. Ali era Tony Ramos imitando Lineu, a quem nós bem conhecíamos, e não Marco Nanini. Deborah Secco mandando Agostinho vazar. Foi incrível. Magistralmente igual, foram as imitações de Lázaro e Adnet imitando os seus novos personagens. E passando por Sílvio Santos e Lula.
A interpretação da mãe por Marieta e Glória foi sensacional. Aquela leveza da interpretação de Nenê – da real/fictícia e da fictícia/fictícia – foi tocante. Um dos pontos altos do episódio o truque de “que quando ela fala do Lineu o coração bate mais forte”. Ali não há quem não tenha reconhecido uma verdadeira mãe de família, que luta e batalha pelos seus. Como a minha, a sua, a nossa Nenê. E claro que o último episódio não poderia deixar de fora uma atrapalhada de Agostinho, que dessa vez, fora cortado da versão global por ser muito negativo. Mas, depois percebemos que a gente não consegue ficar sem ele. Mas, pô, Rede Globo, ele não é tão “violão” da história assim, não.
Outro ponto alto foram as homenagens feitas. O programa todo, em si, foi uma homenagem, mas o reencontro de Marilda e Nenê, pela sabida amizade de Marieta e Andréa Beltrão fora de cena, foi tocante. Tonico Pereira contracenando com seu Mendonça foi bacana em vista ao porte do ator que segurou o papel de coadjuvante por toda a série com seu brilho próprio. E no fim, uma homenagem a todos os atores, inclusive Rogério Cardoso, com a música original tocando ao fundo.
“Essa família é muito unida e também muito ouriçada. Brigam por qualquer razão, mas acabam sempre pedindo perdão.”
Por fim, o episódio não tinha um melhor nome como o que teve: “Episódio 1”. As famílias não vão deixar de acabar nunca. Principalmente, as grandes. E se a gente se via tanto no Lineu e Nenê e companhia bela na televisão, eles – os ficcionais – não poderiam deixar a sua existência sem provar dessa experiência. Eles se viram na televisão, como nós nos vimos há catorze anos.
Não, Nenê, vocês não eram comuns, vocês conseguiram ser únicos.
Como a minha grande família também é.



















