No século XIX quando se falava de celebridade não se poderia ignorar a figura de Harry Houdini (1874-1926), o maior ilusionista que o mundo já conheceu. Esqueça David Blane, David Copperfield, Criss Angel… Nenhum deles conseguiu a repercussão de seu trabalho como Ehrich Weiss, nome de batismo de Houdini, nascido na Hungria tendo imigrado com seus pais para os Estados Unidos quando tinha quatro anos de idade. A maior característica do trabalho do ilusionista era desafiar a morte ou mesmo, se você preferir esta leitura, convidá-la para um espetáculo. O canal History, ainda iniciando em produções de séries e minisséries da TV resolveu homenagear o “Great Houdini”, como assim mesmo ele se homenageava.
Com muito cuidado, leveza e uma produção que apurou detalhes fundamentais para uma empreitada de época, Houdini apresenta em singelos dois capítulos uma proposta quase didática ao fazer com que o mundo contemporâneo conheça os bastidores de um artista que morreu precocemente aos 52 anos após ser desafiado por um estudante de medicina no Canadá.
Contando com o excelente Adrien Brody (que é filho de húngaros como Houdini) no papel do mágico superstar, Houdini traz textos muito simples e deixa para a narrativa dramática de Brody a abordagem menos superficial da série. Incomodado pelo tratamento que recebeu do pai ainda muito novo, Ehrich parece que a cada truque quer mostrar ao pai que é capaz de “enganar” a morte quantas vezes preciso for e se houver público para assistir tal cilada, melhor ainda.
Brody não reina sozinho. Ao seu lado a belíssima e talentosa Kristen Connolly, fazendo o papel de Bess Houdini, aquela que dá suporte a todas as invenções estapafúrdias do marido, que conta ainda com seu fiel (e fã) escudeiro, Jim, vivido pelo ator Evan Jones, correto em sua submissão e criatividade; é dele algumas das traquitanas cedidas à Houdini para que seu espetáculo fique mais vistoso e impressionante. Os três ocupam bem o espaço das cenas sem que seja necessária uma competição por território. Em um equilíbrio pouca visto em shows para TV, Brody, Jones e Connolly estão sintonizados.
No roteiro adaptado do livro “Houdini: A Mind In Chains: a Psychoanalytic Portrait” de Bernard C. Meyer, o diretor Uli Edel (“As Brumas de Avalon”) optou por não criar muitos mistérios sobre a personagem retratada bem como sobre seus truques. Revela a história que o próprio Harry Houdini viajou o mundo ensinando (incluindo um livro) muito dos seus segredos. Essa ausência de pretensão de querer inventar a roda contribui para uma minissérie que desperta interesse na audiência pela vida peculiar do genial mágico, sem que seja um dramalhão que tenha cores intensas nas mazelas que a vida de milionário lhe trouxe.
Outro ponto positivo para minissérie é a fotografia e edição de imagens. Mesmo um take que retrata Bess fumando “unzinho” não consegue ser ofensiva na medida em que é possível identificar a queda moral da mulher do mágico que passa a sentir ciúmes do egocentrismo do marido, que utiliza boa parte do seu próprio tempo em busca de maiores desafios mesmo quando deixa o papel de protagonista para a invenção mais espetacular da época até então: o cinema.
Bacana também ver uma trilha sonora moderna que acompanhe a dinâmica de cada cena, crescendo com a tensão e com as escapadas de Houdini. Seria um lugar comum – aceitável – se a cada novo desafio, um naipe de cellos e violinos rasgassem as cenas. O que ouvimos por vezes são samplers e harmonizações eletrônicas distantes do período musical barroco vigente naquele momento. Uma ótima contraposição entre o atual e o antigo.
O canal History Channel já havia dado provas de sua competência com a minissérie “The Bible”, que bateu vários recordes de audiência nos Estados Unidos e “Hatfield & McCoys” (detentora de vários prêmios), além de produzir “Vikings” (que está em sua terceira temporada) e de inúmeros realitys dos mais diversos temas. Desta vez o canal optou em investir em um assunto distante da geração atual, mas que desperta interesse e curiosidade naqueles que de alguma forma já ouviram falar de Harry Houdini.
Ao optar por apenas dois capítulos acerta na aposta de passar menos informação inútil e mais entretenimento. O público de uma maneira geral está impaciente para atrações que andam em círculos e depois chegam ao fim com mais pontos de interrogações do que pontos finais.
Se você quer ter a oportunidade de deixar o lado ‘over’ das atrações de TV, Houdini pode levar você a lugares obscuros que o passado não conheceu. Com algemas ou sem elas.






















