Rest in peace ou Rest in pieces?

True Blood chega ao fim de sua trajetória televisiva deixando um grande burburinho entre seus telespectadores: um final justo para uma boa série ou um final merda que justificasse uma série decadente?

Se me permitam, pretendo responder a essa pergunta com uma singela, e talvez estapafúrdia, analogia: (aqueles que não quiserem ler (tá grandinho), podem pular a parte em itálico, sem prejuízo do resto do texto).

Há alguns anos, um Sr. chamado Alan Ball resolveu fazer uma plantação de melancias no enorme e rico terreno chamado HBO. Muitos riam do Sr. Ball e diziam-lhe que aquilo era ridículo e que um terreno tão rico quanto aquele não fora feito para plantar melancias, mas apenas frutas mais nobres, longe do paladar do “homem comum”. Mas o Sr. Ball – bastante teimoso, e com bastante experiência com plantação de frutas deliciosas – insistiu e começou sua plantação de melancias. E BOOOOOM. Durante cerca de três anos experimentamos as mais deliciosas melancias que alguém já comeu na vida, vistosas, saborosas, e que não nos dava vontade de parar de comê-las…

Ocorre que o Sr. Ball, sabe-se lá porque, começou a descuidar de sua plantação, e tivemos uma safra com melancias não tão boas quanto antigamente. Durante o quarto ano de sua plantação, a qualidade da melancia já era bem distante da de outrora, mas continuávamos comendo pela nostalgia e pelas lembranças que aquela melancia nos causava. Mas daí chegou o quinto ano da plantação e aquelas melancias tão deliciosas estavam intragáveis. O Sr. Ball abandonou sua plantação e muitos se perguntavam por que a fazenda HBO ainda gastava parte de seu terreno naquele lixo…

Como todos sabem, a fazenda HBO preza muito pela qualidade de seus produtos, mais ainda do que preza pelo seu próprio nome ou pelo preço que tais produtos possam ter, revertendo-se em lucros. Assim, contratou uma nova equipe pra cuidar daquela plantação e finalizar aquele projeto iniciado. Mas a plantação de melancias não tinha mais salvação. Acabou. Simplesmente não nasceria mais nenhuma melancia dali.

A nova equipe por trás da plantação, então, tomou outro rumo. Perceberam que quem se deliciou com aquelas melancias por três anos tinha uma memória afetiva muito forte por aquele pedacinho de terra. Que mais do que boas lembranças sobre as excelentes melancias ali experimentadas, tinham enorme carinho pela experiência de ir ali comer essas melancias, ficar debaixo da árvore, jogar conversa fora… Então era óbvio: se era impossível dar nova vida à plantação de melancia, tentariam então pelo menos encerrar a experiência daquele seleto público em vivenciar aquela experiência… Seria o mesmo local, os mesmos sentimentos, o mesmo tempo livre, mas não seriam melancias… Seriam laranjas!

E assim, por dois anos, toda essa equipe se esforçou em fazer a melhor plantação de laranjas possível, deixando claro que aquilo eram laranjas, mas que todo aquele ambiente nos remeteria para as melancias… Foram dois anos da mais pura honestidade: estamos te dando laranja para que possamos fechar com o mínimo de dignidade nossa plantação… O problema é que muitos não entenderam e continuaram indo lá comer laranjas, mas queriam melancias. E ficou, por dois anos, essa discussão de pessoas que iam até a fazenda querendo melancia, comendo laranja, e reclamando que aquelas laranjas não eram melancias, sem entender que não nos prometiam mais melancias, mas apenas laranjas, com a promessa de nos fazer lembrar dos áureos tempos da melancia…

Diante disso, haviam duas opções: ou você aceitava as laranjas (que eram até bem gostosas) e se deixava levar pela nostalgia das boas épocas de melancias, ou você ficaria eternamente insatisfeito que aquelas laranjas não eram, e nem nunca seriam, melancias novamente…

Eu optei por me deliciar com as laranjas e adorei essa experiência, ainda que tivesse consciência de que não eram melancias, mas mais ainda por saber que ante a total impossibilidade de termos melancias, aquelas laranjas eram o melhor que poderiam nos proporcionar… No final, experimentei a melhor laranja da minha vida e saí daquela pequena porção de terra na fazenda HBO apenas com boas lembranças, não das frutas que comi ali, mas de toda a experiência vivida naquele local…

Eu ainda fico com a primeira opção. Não achei um final merda, e nem achei que True Blood, por tudo o que fez nos últimos dois anos, seja uma série decadente. Decadente ela foi em sua quarta e quinta temporadas. Chegou ao fundo do poço criativo. Mas teve a chance de ter um encerramento digno e se agarrou a essa oportunidade, fechou arestas, encerrou os arcos de seus personagens e deu adeus com dignidade.

Muitos reclamaram de um final “de novela”, que fugisse da loucura e ousadia que a série apresentava em seus primeiros anos…

Mas a loucura e ousadia que muitos cobram hoje foi exatamente o que destruiu a série, quando essa se perdeu entre esses dois elementos se esqueceu de seus personagens e trama central. True Blood sempre quis contar a história dos moradores da pequena Bon Temps reagindo à saída dos vampiros da clandestinidade, mas se perdeu entre lobisomens, panteras, bruxas, metamorfose e sabe-se lá mais o quê.

Em seu ano final a série retornou à sua trama central, deu o encerramento possível à questão política e se focou no final de seus personagens. Talvez a maior ousadia de True Blood, enquanto série, foi exatamente dar um final feliz e colorido a seus personagens, enquanto todos esperavam mais morte, mais loucura, mais… Ousadia?

Essa última temporada foi extremamente cuidadosa em encerrar seus arcos. Nada foi jogado na nossa cara, nada foi improvisado de última hora, tudo foi planejado, de forma que chegamos ao penúltimo episódio com o final de quase todos os personagens encaminhado… Faltava um encerramento apenas do trio de protagonistas, nesta Series Finale, e ele veio. Quanto a gostar ou não dele, aí já é outra história… Mas que ele existiu, existiu!

Começando por Eric, o vampiro nórdico que de um personagem com aparições esparsas em seu trono no Fangtasia e um cabelinho ridículo, foi alçado ao posto de protagonista e conquistou seu público pelo seu carisma, pela vibe de bad boy, e por uma excelente composição de seu intérprete, Alexander Skarsgard. De brinde, com a ascensão de Eric, tivemos também a ascensão de Pam e Ginger, que faziam o personagem ser independente de Sookie e ter seu próprio (e excelente) núcleo.

Por algumas vezes já repeti que, mesmo sem nenhum fator sexual, Pam e Eric eram o melhor casal que True Blood já tinha nos apresentado, além de ser um dos amores mais puros e verdadeiro que vimos nos sete anos da série. Então, até por isso, adorei o final de ambos… JUNTOS!

ERIC NORTHMAN não é do tipo que se apaixona e busca um grande amor na vida. Na verdade, Eric só se apaixonou uma única vez e, diante da impossibilidade de terminar com Sookie, era óbvio que o melhor final do personagem seria aquele, em seu trono, no Fangtasia, com a sempre leal Pamela ao seu lado. E assim, Pam e Eric, que ficaram riquíssimos com a criação da New Blood, encerram sua trajetória em True Blood da mesma forma como apareceram a primeira vez… Com a diferença de que, se antes eram completos desconhecidos, agora dão adeus como dois dos personagens mais queridos da série, sobre quem sabemos toda a história por detrás daquelas poses que fazem naquele reino chamado Fangtasia.

E ainda, além de encerrar dessa forma poética e extremamente fechada a trama de Eric e Pam, tivemos de brinde um final para Sarah que, ainda que não tivesse pensado nele, não tenho nada a reclamar. Sarah Newlin, no fim, terminou sua trajetória sendo usada por vampiros, para vampiros, e acompanhada do fantasma do ex-marido que era vampiro. Um bom final para uma personagem, de diversas maneiras, maravilhosa. E uma despedida justa para o trabalho fantástico de Anna Camp.

Já sobre o final de Sookie, para falar dele preciso antes falar do final de Bill, já que a moça jamais teria a dignidade de escrever sua própria história sem antes dar adeus ao vampiro que foi o grande estopim inicial da série… E de certa forma, essa Finale foi bem mais de “Sookie e Bill” do que de Sookie, e de Bill.

BILL COMPTON foi um personagem que nem sempre me agradou, e as variações na personalidade do vampiro só fizeram aumentar minha antipatia para com ele… Mas desde a trama da Autoridade/Lilith, Bill soube encontrar uma maturidade e foi me conquistando aos poucos até essa Finale… E aqui, acho que não há ninguém que possa negar que Bill teve o melhor arco dentre todos os personagens de True Blood.

Muito além da dignidade e honra de escolher morrer, mesmo quando pode ser imortal, o final de Bill me emocionou porque, com uma mesma ação, resolveu encerrar sua vida e dar início a uma vida para Sookie.

Gosto de Bill e gosto de Sookie, mas não gosto dos dois como um casal, pois esse romance sempre foi destrutivo para ambos, mais ainda para a garçonete. Não posso me esquecer como Bill se aproximou da moça, a mando de Sophie Ann, e como utilizou-se do fato de ser um vampiro para obrigar um laço com ela.

O problema é que por mais que tenha tentado nos anos seguintes, esse laço não se quebrou. Mas não em razão do seu sangue, e sim porque a própria Sookie não se permitia viver sem Bill. Portanto, ao decidir morrer, Bill encerra sua trajetória naquele mundo, uma trajetória de dor, de sofrimento, de solidão… De alguém que perdeu seus ideais, sua família, sua vida… E, além disso, tudo, ao encerrar sua trajetória, também deu a oportunidade para que Sookie desse início à sua própria.

Por isso, apesar daquela cena no cemitério ser arrebatadora em todos os sentidos possíveis, e encerrar de maneira majestosa um dos casais mais marcantes da história da televisão, e de trazer uma Anna Paquin e um Stephen Moyer no auge de personagens que viveram por sete anos, ainda assim, mesmo arrebatado por aqueles minutos no cemitério, não considero aquela despedida como o melhor momento de Bill no Series Finale.

Para mim, nenhum outro momento encerrou melhor a trajetória de Bill Compton do que o casamento de Jessica e Hoyt. Ainda que de última hora e motivado apenas pela doença do vampiro, foi aquele último laço de criador e cria, que sempre teve contornos muito fortes de pai e filha, que mostrou quem Bill Compton realmente era e como o vampiro, no fundo, nunca desejou sua vida de vampiro. Jess é a filha que Bill não pode levar ao altar e, mesmo que sendo em um casamento improvisado, foi emocionante aqueles momentos, sobretudo por atuações absolutamente irretocáveis de Moyer e Deborah Ann Woll.

Encerrada a trama de Bill e selada sua morte verdadeira, sobrou para Sookie fazer aquilo que o vampiro esperava dela: dar início a sua vida, que havia sido pausada quando os dois se encontraram em frente ao Merlotte’s anos antes.

SOOKIE STACKHOUSE é uma das mocinhas mais fortes que já vi em toda minha vida e, certamente, já é uma das mais memoráveis protagonistas da televisão. Uma personagem de uma força, uma inteligência e uma independência inigualáveis, sem, contudo deixar de ser feminina, sexy e dócil. É uma composição magistral de uma Anna Paquin em seu melhor papel, que se torna ainda mais marcante por dar vida a uma grande protagonista feminina em um canal como a HBO que, até então, sempre teve dramas focados em grandes personagens masculinos.

Já disse em outras oportunidades e volto a repetir após essa Finale: Sookie jamais precisou de um homem para ser feliz. Sempre foi muito forte e determinada, sempre foi dona de sua própria vida… Isso não fica apenas evidente, mas também é pronunciado por sua avó no pequeno flashback que a moça teve no episódio: Sookie, ao final, foi criada pela avó para acreditar que era capaz de tudo, e era a dona de sua própria história.

Portanto, não seria apenas injusto, mas também inverídico com a trajetória da heroína que seu arco se encerrasse como Bill quisesse. Como disse, Sookie nunca precisou de homem nenhum, mas usou o vampiro como desculpa para não ir procurar sua felicidade, no fundo por não acreditar que merecesse ser feliz…

Não cabia a Bill decidir o fim do arco de Sookie. Cabia apenas à ela. Sempre coube a ela… E foi necessário ver que Bill escolheu morrer para perceber que, naquele momento no cemitério, ela também deveria assumir o rumo de sua vida… Sua desculpa estava indo embora em uma poça de sangue ali, diante de seus olhos…

Toda essa questão de Sookie assumir o comando de sua vida foi concretizada através de sua luz… Enquanto alguns sempre imaginaram que sua luz fosse o grande fardo que a moça carregava, o que levou a Bill pedir para que o matasse com ela, fazendo com que a moça se livrasse daquele fardo, na verdade era algo que só cabia unicamente à própria Sookie entender.

A conversa da moça com o Reverendo foi belíssima por diversos motivos, por nos remeter aos primórdios da série… Por usar a Igreja e noções religiosas de maneira respeitosa e nem um pouco didática… Por nos mostrar uma Sookie no seu auge criativo e, sobretudo, por nos mostrar o embrião da decisão que aflorou no túmulo de Bill.

Ao decidir não utilizar sua luz para matar o vampiro, Sookie demonstrou que não caberia ao vampiro, mesmo depois de sua morte, decidir o que Sookie seria… Sookie seria o que Sookie quisesse ser, como sua própria avó já tinha lhe falado. Nenhum homem tomaria essa decisão por ela e ser metade fada, no fundo, era ser 100% Sookie. Era um fardo que, além de moldar sua personalidade, a tornou aquela mulher forte, independente, e altamente admirada.

Percebam que ao mesmo tempo em que Bill toma o controle de sua vida e decide encerrá-la, Sookie também toma o controle da sua e decide parar de usar Bill como desculpa… Isso é notável quando, ao decidir não usar sua luz, não o fez para tentar fazer o vampiro mudar de ideia – afinal, acabou matando ele de maneira “tradicional” – mas apenas como um gesto de que aquela decisão era dela e apenas dela.

Sobre a cena final, com o jantar de ação de graça e todo o clima Manoel Carlos de ser, com a fatídica cena do marido misterioso de Sookie? Não me interessa nem um pouco…

No final das contas, só precisava saber que Sookie Stackhouse estava feliz, era dona de sua própria vida e não precisa de homem nenhum para que isso acontecesse… No final, mostrar ou não o marido não faz diferença, pois a história de Sookie nunca se resumiu em descobrir com qual dos homens de sua vida ela terminaria, mas sim quando ela descobriria que era uma pessoa que não precisaria de nenhum deles pra ser feliz, mas apenas de sua fé em si mesmo…

Sookie não terminou com Bill, nem com Eric… Não precisaria. Como ela mesma disse ao vampiro, o importante é que ela jamais se esqueceria dele. Deles. Sookie Stackhouse teve o melhor final que uma personagem poderia ter: descobrir-se feliz consigo mesma… O marido é um detalhe.

True Blood encerra assim sua trajetória, com um final feliz e, mesmo sem tentar ser, polêmica como sempre foi…

Rest in Peace, True Blood!

Foi bom fazer coisas ruins com você…

P.S.: Como assim, HBO, não mostraram Ginger poderosíssima sentada ao lado do trono de Eric, pisando com seu salto em dois vampiros?

P.S. 2: Willa, no final das contas, teve uma ceninha de despedida.

P.S. 3: Ainda tivemos Eric dançandinho no carro como qualquer um faria com aquela batida que nos impede de não balançar a cabeça.

P.S. 4: Alguém mais notou a geladeira de Sookie cheia de New Blood e achou isso estranho? Seria para as visitas do jantar ou algum vampiro que frequente a casa da moça com frequência?

No final das contas, eu optei por me deliciar com essa laranja, me apegar às boas memórias, e dar adeus com um sorriso na boca…

E vocês?

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