Há, por acaso, algo que justifique o estupro?

Sassenach, outlander ou forasteiro, não importa a língua sendo usada: há algo universal nesse sentimento. Quem nunca se sentiu o elemento estranho em algum (ou vários) momento(s) da vida? Na escola, universidade, em casa ou na sociedade como um todo. Alargue esse espectro e aplique sobre um todo um gênero sexual. Hoje, em pleno agosto de 2014, você mulher, se for de pijama à padaria da esquina, dificilmente será algo natural. Os olhares reprovadores ou cheios de desejo, os assobios, os comentários preconceituosos ou carregados de assédio fariam com que você sequer cogitasse essa ideia ao sair de casa. Se você mulher falar abertamente o que vier em sua mente (política, gênero, sexo etc), o meio social poderá não receber com braços acolhedores. Afinal, admitamos, em pleno século XXI, o mundo ainda é marcadamente machista. Não é necessário ser de outro lugar para ser forasteiro, basta ser diferente.

Em sua segunda semana, Outlander veio para mostrar que a série não veio para contar uma história de amor perdido, a busca pela reconexão ou o possível despertar de um novo romance. Há uma pretensão maior e Castle Leoch escancarou tudo na face do espectador. Se no primeiro episódio, vimos uma Claire Randall como uma mulher a frente de seu tempo, mas principalmente no pós-Segunda Guerra, ao lado de um marido receptivo a sua personalidade incisiva e cheia de iniciativa, esse segundo capítulo serviu para estabelecer o cenário tenso e sufocante em que a protagonista se encontra. Para tal, os primeiro trinta minutos exibem com detalhes a falta de “praticidade” daquele mundo antigo e, talvez, o maior exemplo seja a cena em que a Senhora Fitzgibbons veste Mrs. Randall. Ao invés de calcinha, sutiã e um vestido leve, ela é coberta por uma verdadeira armadura travestida de roupa de época.

Mas, se Claire se mostra desconfortável nos primeiros momentos usando suas novas vestimentas, ela não hesita por um segundo sequer em abrir a boca e rebater um comentário machista. Que cena linda, primorosa e poderosa foi o primeiro encontro com Master Mackenzie: depois da tensão de começar a mentir sobre suas origens, foi um verdadeiro deleite ver Mrs. Randall altivamente indagar se havia, por acaso, uma boa razão para o estupro. Talvez, no entanto, essa indagação tenha sido uma mensagem para o próprio público da série: Outlander não pretende seguir a linha Crepúsculo de mulher que se apaixona por home e vive unicamente em função da existência dele, ignorando a própria vida. Mas fica o receio: Claire precisa tomar cuidado com o que fala e para quem fala. Nesse cenário de abutres, a única pessoa que realmente sentimos segurança em confiar é Jamie.

Falando nele, essa semana foi a vez de conhecermos mais sobre Senhor Fraser. Depois de toda a bravura exposta na première, foi importante percebemos que ele também é um indivíduo incapaz de sobrepor às tragédias e as violências física e psicológica da época. Que belo flashback foi aquele em que vimos o abuso à sua irmã e o espancamento consequente nele, que o deixou com marcas pesadas nas costas e, principalmente, em sua mente. E aqui vale um elogio à série por perceber que não havia necessidade de violência gráfica para causar impacto (deixa isso para as terras aramaicas de Mel Gibson na Paixão de Cristo): toda a situação gerava uma dor e uma indignação fortes de mais sozinhas e algo explícito poderia deixar tudo gratuito demais.

Mas a cena que mais esperávamos era a do espancamento de Jaime no salão de Colum. Gostamos muito da atriz que assumiu o papel de Laoghaire e de como a cena foi conduzida, não sabemos medir se o comportamento de Jaime pode ser considerado comum para a época, porém todos concordam que foi uma ação altruísta. Até agora sabemos que o jovem é sobrinho de Colum e Dougal, sofreu uma rígida tortura supracitada nas mãos do Capitão Randall, passou fome e dificuldades por um período e mesmo machucado não se aflige em levar uns socos no lugar de outra pessoa. Esse cara é ou não é o estereótipo de um herói? Qualquer um no lugar do rapaz teria tudo para se revoltar e ser um fora da lei da época, mas não, ele prefere viver na humildade se escondendo das acusações mentirosas de um crime que ele não cometeu. Ainda serão reveladas mais camadas da personalidade do personagem que justificarão suas atitudes, mas por enquanto nos resta questionar o que o sobrinho do senhor do castelo está fazendo no cargo de domador de cavalos.

Também acompanhamos a desconfiança dos Mackenzie sobre Claire e como eles lidam com o fato de ter uma possível espiã em sua casa.  A hospitalidade demonstrada para a então Senhorita Beauchamp parece ser contraditória se considerarmos a suposição de seus anfitriões. Poderia uma espiã ter acesso a áreas do castelo, conversar com seus criados, enfim, vasculhar as particularidades de sua família? Não esqueçamos que temos os “olhos de Dougal” sobre ela. A Sessanach é seguida por onde vai. Mesmo assim, parece perigoso demais deixar uma espiã solta dessa forma. A estratégia de Colum parece tentar iludir a inglesa através de uma falsa liberdade a fim de descobrir o que quer observando seus pequenos erros. Isso gera um cenário estranho na narrativa, já que nós sabemos quem é e de onde veio essa moça. Então vem a pergunta: Por que não contar a verdade? Por mais surreal que possa parecer, quais seriam as chances de que alguém daquela época acreditasse nela? Ei você, é o seguinte, eu vim do futuro através de uma pedra e queria lhe pedir por favor para me levar de volta ao local que eu caí. O que de pior poderia acontecer? O conflito da personagem em não poder contar a verdade só fornece combustível às suspeitas de Colum e Dougal. Claire teve que inventar parentes que não existem em um lugar que não conhece com detalhes que sequer são de seu século. O desconforto da moça só não é maior porque ela lembra um pouco do que aprendeu sobre os costumes da época

E é necessário ressaltar novamente a estratégia visual da série. Na review anterior, comentamos como os anos 1900 eram abordados com uma áurea onírica e isso intensifica nossa relação com as memórias de Claire nesse segundo episódio. Afinal, não eram lembranças de histórias passadas ou de abstrações históricas, mas sim a realidade que ela viveu, algo tão recente, mas tão distante ao mesmo tempo, tornando tudo ainda mais trágico. Mas claro que fotografia também é para ostentar beleza plástica e, MELDELS, Castle Leoch mais parecia uma pintura em movimento. Aqueles campos intensamente verdes, a opressão sobre a protagonista no salão de refeições e a soturnidade do alojamento do Curandeiro foram de cuidado técnico ímpar. E, sabemos que é um clichê, mas de fato dá vontade de tirar print e emoldurar certas imagens da série.

É muito estranho sentir que “estivemos naquele local” ou “passamos pela mesma situação” anteriormente sem saber ao certo quando ou por qual razão. O chamado déjà vu, sempre nos deixa confusos. Aquela sensação no fundo da mente, um pequeno incomodo, persistente como uma incógnita da qual nunca sabemos ao certo qual é a resposta. Ao contrário de nós, que insistimos em permanecer em nosso próprio tempo, Claire sabia bem quando havia visitado o Castelo Leoch. Ou melhor, quando visitaria – mais ou menos 200 anos a frente de seu presente – a casa do clã Mackenzie. A lembrança de dois dias anteriores, quando havia percorrido os mesmos corredores, visto as mesmas passagens em companhia de seu marido; servia apenas para confundi-la. Um retrato de seu passado recente que contradizia o seu agora. E nos resta esperar para ver como nossa protagonista irá lidar com o século XVIII à medida que seu conhecimento sobre o lugar deixa de ser imediato, os fatos e as realidades daquele lugar passam a fugir de seu conhecimento e que, depois de ser iludida por Mackenzie, tornou-se uma prisioneira do mesmo em um local que dias antes tinha tido um dos últimos atos de paixão sexual com o marido.

P.S.: A prova de amor de Claire a Frank é o fato de mesmo o Capitão Randall tendo o mesmo rosto dele, ela nutre a saudade e a dor da separação do marido.

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