O Conto das Duas Cidades.
Uma mulher surge diante do espelho com uma expressão ambígua, refletindo cansaço e ira em proporções estranhas, pouco cabíveis de avaliação. Ela está dentro de sua cela, isso é inegável. Do lado de fora está o mundo que a fez uma prisioneira de guerra. Ela foi obrigada a sair de perto dos seus e agora – ciente de que fora enganada – prepara sua vingança. Essa vingança será inicialmente silenciosa, mas logo trancará as portas do “castelo” e condenará todos os que estiverem dentro dele, ao sangue. Essa mulher está dentro de sua cela planejando o rebate, enquanto uma revolução se aproxima. O nome dessa mulher é Juliet e o nome dessa revolução é Oceanic 815.
Existe uma especialização na área de Letras que se chama “Literatura Comparada” e que foi – principalmente para devoradores compulsivos de dramaturgia – um bálsamo para aqueles que queriam estudar a forma como gêneros e referências se cruzavam, dando origem a ramificações surpreendentes, que, muitas vezes, afetaram diretamente a sociedade. É interessante colocar isso em perspectiva quando pensamos no quanto Lost mexeu com a estrutura cultural, dramatúrgica e televisiva, sempre se valendo de toda intertextualidade que pudesse, para se aprofundar em seus mitos. Foi aqui, na Season 3, que ela escreveu seu nome na história, interferindo na nossa rotina de espectadores, interferindo na relação entre produção e produtores, manipulando gêneros e formas, e conseguindo o que nenhuma – nunca – havia conseguido antes.

Quando ouvimos os primeiros acordes da canção “Downtown”, de Petula Clarke, ainda não sabemos quem é aquela mulher estranha, mas já sabemos que assim como não conhecíamos Desmond na primeira temporada, essa mulher deve ter o seu papel. Lost tinha dessas coisas… Esses teasers de abertura que não informavam exatamente o lugar que aquelas cenas tinham na linha temporal das coisas. O teaser desse terceiro ano foi especialmente genial, não só porque ele só seria explicado lá pela metade da temporada, mas porque nos presenteou com várias respostas de uma vez só. E todas elas – TODAS – vistas de ângulos inesperados, desafiadores e cheios de embasamento.
O nome da premiere era A Tale of Two Cities, mesmo nome do famoso livro de Charles Dickens. Só aqui, já estamos estabelecendo uma conexão com a clássica história da família Manette, que precisou fugir para Londres antes que fosse consumida pela Revolução Francesa. O que a primeira sequência do ano 3 de Lost quer, é nos adiantar a convergência de um conflito: Há duas cidades coexistindo na ilha e uma revolução espera por elas logo adiante.
A questão é que apesar de ser homônimo de Dickens, esse episódio nos revela a leitura de outro clássico, menos respeitado, mas igualmente relevante. No clube do livro da simpática Vila dos Outros, a leitura do dia é Carrie, de Stephen King. Carrie, aquele menina ingênua que foi enganada para ir ao baile e acabou humilhada e ferida. Aquela mulher diante do espelho é Juliet, que (descobriremos mais tarde), foi iludida e vilipendiada, e uma hora precisa se vingar de quem a arrastou para aquele “baile” sem fim. Então, quando o vôo da Oceanic corta o céu em pedaços, nós aqui do outro lado sentimos um arrepio na nuca… Lost não veio para brincar com a dramaturgia, Lost veio para mostrar do que a dramaturgia é capaz.
Para compensar um teaser tão complexo e corajoso, Damon Lindelof e Carlton Cuse escreveram uma premiere arrastada, que antecipava os problemas criativos que o grande número de episódios por ano, provocava. Havia muito o que dizer, mas não se poderia dizer cedo demais e então, um primeiro ato foi providenciado para adiar os acontecimentos. Nesse ponto, ficção e realidade se esbarram. Muito do que vimos no comportamento dos Outros foi encenação, o problema é que Lost começou a cometer seus primeiros erros quando passou a encenar também para seu público.
No aspecto mitológico, pouco pudemos ver nesses primeiros episódios. Pilhados e fissurados, passávamos a maior parte do tempo procurando pistas em tudo, quando na verdade, efetivamente, tudo que aconteceu na ilha Hydra foi parte de um engodo, um embuste que fortalecia o medo e o suspense que os sobreviventes (e nós) sentíamos a respeito dos antigos moradores do lugar. No final das contas, a ocupação daquela estação da Iniciativa Dharma era um imenso jogo mental e um esforço para moldar com mais força a personalidade de Ben.
Assim como fez no segundo ano, os três primeiros episódios se passaram na mesma linha cronológica, mas focando-se em um núcleo por vez. O ruído, entretanto, era provocado pela lentidão do que víamos acontecer na Hydra e a falta de clareza e objetividade do que acontecia no acampamento original. Ben levou Kate e Sawyer como prisioneiros para manipular Jack, mas o público não demorou a demonstrar insatisfação com a grande-eloquência de episódios como Further Instructions, que no final das contas, só faziam revelações mornas, como a Hydra tratar-se de uma segunda ilha.

Além disso, os roteiristas ainda precisavam se livrar de uma certa aresta que deveria ter sido aparada no ano anterior: Ecko. Assim, dois coelhos foram mortos numa cajadada só. O ator que interpretava Ecko (cujo nome é impronunciável) não era muito flexível e para o potencial da história, havia um problema de posições de poder dentro da mitologia. Futuramente, Locke seria precioso para o Monstro de Fumaça, portanto, nada poderia ameaçar aqueles planos de controle. Por isso, a morte de Ecko pelas mãos dele faz todo sentido, já que Ecko vinha numa crescente de dúvida a respeito do que “a ilha queria”. E sim, claro, é preciso estabelecer novamente e definitivamente que, na maioria das vezes, o quadro é esse:

Para despistar ou não, aquele tom de julgamento e redenção também foi insinuado aqui, com a morte do personagem soando como resultado de algum tipo de sentença. Porém, olhando em perspectiva, não poderia haver um Ecko no meio da trajetória de um Locke. Ecko era seguro e impenetrável e o Monstro precisava de vulnerabilidade.

Pela primeira vez vimos o Senhor Fumaça agindo efetivamente. Nesse momento, a série provocava uma série de dúvidas a respeito das justificativas para tantas mortes, sobretudo porque por muito tempo, o Monstro de Fumaça parecia agir sob uma espécie de ética maniqueísta, atraindo “pecadores” para seu julgo. Agora, olhando para o que seria revelado no futuro, sabemos que tudo dizia respeito a um interesse específico daquele por trás da fumaça, que precisava de dois homens para concluir seus planos: Ben e Locke. Os dois, altamente manipuláveis, os dois sofrendo de ilusões de poder que os tornaria “especiais” para eles mesmos. Então, mortes e aparições de mortos visavam apenas uma execução de um xadrez mental que culminaria nos eventos que tornariam a carcaça de Locke disponível para uso.
Mas, apesar de tantas despedidas, tivemos a inserção de Juliet, que descobrimos no ótimo Not in Portland, que é uma pesquisadora de fertilidade. Outra boa tacada. Juliet dialoga com um monte de aspectos da mitologia e resolve várias pontas soltas.

O mundo também se afetou pela exibição de Flash Before Your Eyes porque foi nele, enfim, que começou a ser embutido o plot da alteração na linha temporal, que nos levaria – mesmo que em outra escala – a tudo que vimos nos flashes da temporada 6.
Assim como dito no texto do segundo ano, a série estabeleceu que a ilha sofria de uma latência de energia eletromagnética que por causa do “incidente”, começou a escapar pelas bordas. Quando Desmond vira a chave e explode a escotilha, libera energia e provoca – provavelmente – uma nova mudança de lugar da ilha, uma clara brecha na sua localização (percebida pela equipe de Penny) e por não ter tido essa nova fresta selada definitivamente, torna essa latência extremamente perigosa. Desmond, além de provocar o desnível eletromagnético do lugar, sofre diretamente a ação dessa imensa liberação de energia.
Toda a matéria existente no universo é constituída por átomos (…) A instabilidade dos átomos está associada a um excesso de energia acumulada, que tende a ser liberada sob a forma de radiações (…) Células vivas expostas a essa radiação, por exemplo, podem ser destruídas ou alteradas”
(Fonte: Biodieselbr.com)
Se toda matéria é constituída de átomos e a energia eletromagnética – como dito acima – altera sua frequência, já entendemos porque, então, a série começou a trabalhar, muito lentamente (o que considero fantástico) não só a alteração sistemática da ilha, como também os efeitos transformadores que a exposição à tanta energia, provocou.
Em Flash Before Your Eyes, a consciência (e guardem bem essa palavra “consciência) de Desmond viaja no tempo e volta até o momento em que ele tomou decisões que o levaram até sua experiência na ilha. EXATAMENTE como acontece nos flashes da sexta temporada, o personagem não se lembra dos eventos da ilha e é levado a eles através de encontros aparentemente casuais com pessoas ou itens que remetem a ela. A partir do momento em que ele passa a lembrar-se da ilha, sua consciência é imediatamente trazida de volta. Também não podemos esquecer, que esse episódio inaugura a storyline da morte de Charlie, que foi uma forma fantástica de segurar um pouco mais um personagem que, claramente, não tinha mais relevância.
O único problema desse plot é Heloise. Quando ela aparece e interfere, age perigosamente contra a coerência dos fatos. A partir daqui fica a pergunta: os personagens passam a agir como deveriam ou são forçadas pela consciência do que PRECISA acontecer? Mas enfim, vamos falar mais sobre ela nos próximos textos.
Em Strange in a Strangeland, o terceiro ano de Lost começa sua sequência de episódios questionáveis. Em sua maioria, não são ruins, mas oscilam entre desimportância e falta de ritmo. Esse mesmo, já mencionado, é até citado pelos roteiristas como uma das piores coisas que eles já fizeram. A história do significado da tatuagem de Jack é completamente inútil e ainda aproveitam esse episódio para estrear a fase gritante e revoltada do personagem. Cindy deu as caras, colocaram uma “Outra” chamada Isabelle que é a única sem nenhuma função na mitologia do grupo e vimos aqui, também, o nome de Jacob surgindo pela boca do namoradinho de Alex.
Logo depois, em Tricia Tanaka is Dead, apesar de mitologicamente não darmos muitos passos, temos um roteiro divertido, leve e catártico, fazendo com que os momentos entre Hurley, Jim, Charlie e Sawyer, sejam daqueles mais inesquecíveis que a série já produziu.
É importante dizer que mesmo que passássemos um episódio inteiro sem nos movermos para novas descobertas, havia sempre um detalhe, por menor que fosse, que ilustrava com mais riqueza o universo que o programa construiu. O esqueleto dentro da kombi, é um exemplo disso. Mais tarde, descobriríamos que se tratava de ninguém menos que o pai de Ben. Em Par Avion, recebemos a confirmação de que Claire era irmã de Jack, e por aí vai. Coisas assim sempre ajudaram a fortalecer, muito justamente, a fama de bem cuidada e bem planejada que a série construiu.

Conhecemos Mikhail no episódio Enter 77, quando a estação de comunicação com o mundo externo é apresentada. Mesmo que rodeada de expectativas (até pra vaca queriam encontrar referências), ela era aquilo mesmo: uma estação de comunicação que poderia arruinar os planos de manipulação de Ben. Por isso, quando Locke a manda pelos ares, acaba fazendo um favor a ele. Mikhail também é o primeiro a se referir “à lista de Jacob” com certa solenidade, também falando “dele” como um homem especial que trazia pessoas para a ilha. Aqui, Mikhail dá uma pista grande de que Ben nunca teve nenhuma espécie de poder. De fato, Jacob jamais falara com ele e durante o terceiro ano, em vários momentos vimos isso praticamente escrito em seus olhos: a cada momento em que parecia que quem tinha verdadeiro acesso ao misterioso homem, era Locke.
Ben, inclusive, traz o pai de Locke para a ilha e com isso, leva John ao seu novo momento manipulado preferido. O pai o fez de gato e sapato por anos. Agora, mesmo achando que é mais especial que Ben (porque ele foi curado e Ben não), ele continua sendo manipulado, só que por uma pessoa diferente. No episódio The Brig, por exemplo, Ben leva Locke junto com os Outros para um novo acampamento, fazendo-o se sentir especial. Mas, logo depois, desafia-o a assassinar o próprio pai, o que sabe que John não vai fazer, conseguindo assim, ter a aprovação de todos para livrar-se dele. A coisa é mais viciosa do que parece, porque Ben manipula Locke, que joga com a vaidade de Ben, que por ventura é manipulado pelo Monstro de Fumaça, fingindo que trata-se de Jacob. Nada disso seria possível sem que houvesse no centro dos acontecimentos, duas personalidades inseguras como as de Mr. Linus e Mr. Locke.
E então…

A história condenada de Paulo e Nikki acabou se tornando aquilo que a gente chama de “engano viável”. Tudo na presença deles gritava erro, mas as coisas acabaram indo numa direção curiosa, fazendo com que o resultado dessa participação se tornasse um traço interessante da nossa cultura pop e da própria mitologia do show. Paulo e Nikki entraram como resultado da boa ideia de explorar sobreviventes que nunca tinham uma voz, mas no meio da necessária arrumação de casa que virou a primeira metade do terceiro ano, eles acabaram sendo sacrificados.
http://youtu.be/RmU96mHWiW4
Me lembro perfeitamente da minha reação quando soube que Rodrigo Santoro estaria em Lost. Eu fiquei MARAVILHADO. Era como se eu conhecesse ele, tamanho o orgulho que senti. Claro que minha perspectiva era a de um garoto que vê a possibilidade de entrar na televisão no meio de um filme que ama, mas ainda assim, mesmo sabendo que Santoro não estaria tão excitado quanto, eu estava eufórico. No entanto, Lost sempre teve o hábito de introduzir novos personagens de maneira forte, agressiva, e isso não aconteceu no caso de Paulo e Nikki. O público teve dificuldade de aceitar a ideia de dois sobreviventes que ninguém nunca tinha visto. Além disso, da perspectiva do roteiro, era impossível introduzir duas pessoas no meio daquela rotina já estabelecida, se fosse pra fingir que eles sempre estiveram ali.
Damon e Carlton devem ter percebido muito cedo que tinham cometido um erro. Santoro e Kiele demonstraram uma imensa capacidade de segurar aqueles personagens, mas eles não tinham um lugar naquela história. Então, o mais certo seria matá-los. Pra isso, um episódio foi dedicado aos dois e acabou entrando, inesperadamente, no ranking de melhores episódios do show.
Exposé deu uma AULA de roteiro, uma AULA de montagem e mostrou como aqueles produtores estavam comprometidos com a qualidade. Atores já afastados voltaram ao Havaí para gravar pontas de segundos no imenso flashback interno que foi esse episódio. Parte do acidente foi trazido de volta e tudo foi feito de forma absolutamente crível. Ao final, uma sequência ÓTIMA, cheia de catarse, que fez os dois se despedirem do programa de uma forma surpreendente e cheia de respeito e dignidade.
A partir daí, entramos na contagem matadora que nos levaria ao histórico season finale. Com os flashbacks não servindo pra muita coisa nesse ano (o que seria corrigido de forma brilhante no ano seguinte), os eventos da ilha precisavam compensar. Elizabeth Mitchell teve mais sorte que muitos novos atores do casting e Juliet não demorou a se tornar uma peça importante do show. Em One of Us eles começaram a trabalhar a storyline da inclusão da personagem no acampamento dos sobreviventes e conseguiram muito da atenção perdida, de volta.

Também é em One of Us que vemos o Monstro de Fumaça sendo barrado pela cerca sônica que protege a Vila Dharma. Como todos devem saber, a energia ultra-sônica é muito usada como repulsor, já que algumas altas frequências não são audíveis para o homem. Porém, o que esse episódio mais estabelece é que o Monstro não pode pular a cerca como os outros personagens fizeram. Ele pode crescer verticalmente, mas não pode pular. Esse é um aviso para o público levar em consideração o que impede o Monstro de fugir da ilha, algo que foi muito comentado no ano 6. Dentro de sua sistemática, ele precisa da aproximação com o solo e por isso também não pode atravessar os círculos de cinzas que também o repelem.
A série insistiu bastante na ambiguidade de Juliet, mas, no fim das contas, ela sempre foi uma vítima. Ela foi levada num embuste e sempre teve pelo que voltar. Ben usou o nome de Jacob com ela para manipulá-la e fazê-la ficar, já que ficamos sabendo mais tarde que Jacob nunca falou com ele. A irmã de Juliet curou-se sozinha e não com a ajuda dessa entidade desconhecida. De certa forma, o ruído da relação de Ben com Juliet também se dá pelo fato de que a doença dele desmentia sua ligação com Jacob, que poderia facilmente tê-lo curado. One of Us foi outra pérola dessa temporada e soa tremendamente competente quando nos dá – perto do final – o fechamento dos eventos que culminam no teaser da premiere. Não se pode dizer nada menos que isso para os roteiristas de Lost: No que diz respeito ao controle que tinham de sua história, eles eram imbatíveis.
Logo depois, voltamos as atenções para Desmond e seus flashes. No futuro compreenderíamos melhor que ele sempre foi o centro nuclear de tudo que aconteceu no quarto ano, já que mesmo que o objetivo não fosse resgatá-lo, ele estava ligado à Charles Widmore. Assim, faz todo sentido que ele tenha sido aquele a encontrar Naomi. O personagem sempre aparecia com um longo histórico de fugas e covardias, mas de certa forma, os salvamentos de Charlie exigiam dele certa noção de sacrifício, o que seria valioso para o crescimento mais adiante. Já Naomi trouxe outro grande cliffhanger, que causou muito barulho na época: a informação de que, para o mundo exterior, o avião havia sido encontrado e estavam todos mortos. Constantemente, mesmo não havendo NENHUMA CHANCE de estarmos numa espécie de purgatório, os produtores gostavam de provocar a audiência com essa ideia.

Em completo êxtase, o público assistiu ao episódio The Man Behind The Curtain com o queixo na mão. Não só porque ele começa com o nascimento de Ben FORA da ilha (o que já nos adianta que ele sempre mentiu), mas porque nos conta como a Vila Dharma foi extinta, tudo numa ótima analogia com o Mágico de Oz. O “homem por trás da cortina” tem todo o aparato possível para fazer o viajante acreditar na mágica, mas, enfim, ele não é o mágico. O quão sensacional isso parece? A linha temporada de Linus é maravilhosa nesse sentido, porque sua história é a menos especial do mundo e o torna mais semelhante a Locke que nunca. A diferença é que Ben tem as ferramentas necessárias para brincar de Oz.
Dá pra entender bem quanto colocamos as coisas assim:
Ben – Fase Um: Completamente infeliz e louco por um pouco da sensação de importância que tantos compartilham, Ben, assim como Locke seria no futuro, era a vítima perfeita para manipulação emocional. Então, o Monstro de Fumaça o recruta, do mesmo jeito que faria com Locke, fazendo-o acreditar que ele era essencial para a ilha. A aparição da mãe dele na mata era apenas isso, recrutamento. A questão é que Richard sabe disso e começa, então, a agir na direção contrária. De certa forma, a presença da Dharma era um problema tanto para os planos de Jacob quanto para os do Homem de Preto, e isso acabou tornando Ben bastante valioso.
Ben – Fase Dois: Assim que fica mais velho e se torna capaz de agir, Ben faz com as pessoas da Vila a mesma coisa que Locke faria com seus amigos, no futuro: ele os repele. Ele acha que precisa deixar tudo pra trás para ser “alguém especial” ao lado dos Outros. Sua vida patética ganha algum sentido e ele começa o trabalho atrás da cortina onde quem tem verdadeiro conhecimento é Richard.
Ben – Fase Três: Estabelecemos que Ben apenas finge que tem acesso a Jacob e que é desse jeito que ele manipula Locke. Então, ele o leva até a cabana no meio da floresta, onde ele SABE que Jacob não estará. Ben está literalmente encenando aquela conversa com o nada. Mas aí algo acontece… Uma verdadeira manifestação acontece e “alguém” fala com Locke. Isso pega Ben completamente de surpresa e o faz sentir seriamente ameaçado. A energia eletromagnética cura alguns enfermos (descobrimos que Jin, por exemplo, teria tido sua infertilidade curada na ilha), mas Ben tem dificuldades de aceitar isso porque sua doença não foi curada. De certa forma, a cura da paralisia de Locke faz com que Linus realmente tenha medo de que ele seja um tipo de “escolhido”. Assim, quando aquela manifestação na cabana acontece, Ben fica desesperado. Tudo aquilo é obra do Monstro, que precisa que Locke acredite no próprio potencial, mas Ben não sabe disso. Ben acha que foi mesmo Jacob quem falou… Então, ele toma a decisão de matar Locke. Tudo COMPLETAMENTE amarrado e coeso.
Enfim, antes dos eventos da finale, a série – e nós – fazemos uma pausa para nos despedir de Charlie, que encontra sua redenção no ótimo e cativante Greatest Hits. Foram muitos os momentos especiais que me deixaram com lágrimas nos olhos… Desde o momento em que ele lembra da noite que conheceu Claire (elegendo-o o número um da lista) ao adeus para Hurley, que realmente, é de cortar o coração.
Tudo armado, possibilidade de resgate à vista, problemas e conflitos estabelecidos, e precisamos deixar o acampamento mais uma vez. O momento que tornou Lost um marco na televisão mundial estava chegando.
A cena abre e Jack está num avião… Se Lost trabalha com ciclos coincidentes (outro nome pro destino), podemos esperar que alguns dos signos da série serão repetidos incessantemente. A expressão de Jack é infeliz, mas nenhum de nós estranha isso, já que estamos há três anos vendo a vida do personagem ser relembrada com cores terríveis e cheias de rancor. Quando vem a tentativa de suicídio, ela pode ser por qualquer razão: o pai negligente, o casamento destruído, o testemunho de traição ou a simples inclinação de Shephard para o drama. Porém, mais tarde saberíamos de uma coisa: antes de terem seus assuntos resolvidos com a ilha, NINGUÉM pode morrer. Jack, então, é salvo.
Enquanto parece que estamos diante de apenas mais um flashback, na ilha a iminência do resgate separa os grupos novamente e arruma a ação de uma forma que nos deixa completamente rendidos. É curioso, porque tudo nesse Season Finale quer nos conduzir para aquilo que pode parecer um engano, uma “surpresa fingida”. JAMAIS, nem nos nossos maiores devaneios, íamos pensar na possibilidade de ver qualquer ação fora da ilha, dentro do pós-ilha. Por isso, aquele clima todo de “vamos sair daqui” só podia ser pura enganação. A coisa toda tornava os sorrisos e esperanças ainda mais tristes porque o mais esperado era que, no fim das contas, todos tivessem suas expectativas frustradas.
Agora, olhando panoramicamente para esses acontecimentos, sabemos que o estado emocional de Jack no futuro, partia de uma compreensão devastadora de que ele não tomou as decisões certas. O barco de Naomi realmente não era um resgate e Ben falava a verdade sobre eles serem uma ameaça. O problema é que quando um mentiroso fala a verdade, ninguém acredita. Aquela porta aberta para o grupo de Naomi resultaria em muita dor e Jack levaria aquilo junto com ele quando saísse da ilha. Mesmo que Locke também não estivesse certo, o desespero para cumprir seu papel de salvador fez Jack fechar os olhos para as pontas soltas. Infelizmente, o aviso de Charlie veio tarde demais, no fechamento de um ciclo que foi, sem dúvida, uma forma linda de livrar-se de um personagem querido, mas que não tinha nada mais a oferecer.

No início desse texto falei sobre a “revolução” chamada Oceanic 815 e nessa finale vimos essa revolução explodir bem na cara do grupo dos Outros. Foi um verdadeiro massacre, no melhor estilo “passei por cima sem dó”, e o grupo que não se salvou indo para o Templo (mencionado por Ben aqui, pela primeira vez), sofreu o peso da própria arrogância, subestimando não só as ações de Locke, quanto as ações do grupo liderado por Jack, que conseguiu chegar na torre, destruir a estação sub-aquática e ainda eliminar soldados relevantes do exército inimigo. Aqui se configuram definitivamente as bases da imensa guerra que viria a seguir, na quarta temporada.
Enfim, chegamos ao ponto em que as duas narrativas se encontram. O clima de otimismo pelo resgate iminente, que enchia a chacina da ilha de uma certa esperança, e o clima soturno e negativo que vinha das imagens dos flashbacks. Até o minuto final, não tínhamos a menor ideia do porque da finale estar perdendo tanto tempo com informações passadas que não pareciam ter uma função correlacionada com os eventos da ilha. Então, estávamos nós pensando: “Estão felizes à toa. Ninguém vai sair da ilha antes do final da série”. E eis que, de súbito, somos rasgados por essa pequena sequência aqui:
Queria poder ter filmado minha expressão diante dessa cena. Fiquei catatônico, depois pulei pela sala, depois chorei e depois passei a madrugada teorizando com um amigo. Eram muitas informações numa sequência só… Como saíram? Quantos saíram? Por que precisavam voltar? E meses e mais meses pela frente até termos qualquer uma dessas respostas.
Num dos extras do Blu-Ray da temporada, vemos o momento em que Damon Lindelof conta à parte de sua equipe o que pretende fazer no season finale. Animado, ele circula pelos corredores da ABC dizendo: “Ficou sabendo do final? Eles saíram da ilha. Não é incrível dizermos isso pro público tão cedo?”. Sim, era INCRÍVEL, era inesperado, era desafiador, era corajoso, era tudo que a televisão sempre tinha medo de ser.
A partir daqui o mito estava consagrado. A mídia se assustou, os fãs enlouqueceram, a transgressão era tanta que confundia as consciências tão treinadas pela rotina. Lost não se contentava com mistérios sobrenaturais e científicos, ela queria provar, também, que a execução de uma trama pode levar a roteiros profundamente comprometidos com a inteligência do espectador e completamente determinados a saírem do lugar comum. Se não fosse isso, um canal como a ABC jamais teria concordado em fechar um acordo de mais 3 anos apenas, com 16 episódios em cada um, garantindo, com isso, a segurança dos roteiristas e protegendo a trama de excessos desnecessários. Ouviram bem? P-R-O-T-E-G-E´N-D-O. Aceitar esse acordo de só mais três anos e com episódios a menos que o normal, foi – por baixo de toda a ambição natural das grandes redes – um ato de proteção. Sim senhores, eu acredito nisso, e eu tenho um puta de um orgulho disso, também. Aquela história era muito amada, muito antes de ser uma mina de ouro.
Por fim, estava encerrado o Conto das Duas Cidades. O quarto ano acabaria sendo totalmente focado nos Oceanic Six, e creio que a greve dos roteiristas provocou não só diminuição dos episódios-já-diminuídos, como também uma reformulação de planejamento. Mas, esse é um assunto para o próximo texto. Por hora, nos deleitemos com o apogeu de um fenômeno, que fez por mim como espectador, muito mais do que qualquer outra obra de ficção já tinha feito.

Relatórios Transitórios 1: Sawyer foi campeão da trivialidade nesse ano 3. Era o Coringa do tempo ócio. Tivemos tantos momentos engraçados e emocionais dele, que fica até difícil listar. Vou tentar mesmo assim:
1.Sawyer voltando pro acampamento e sendo recebido por um comovido Hurley.
2.Sawyer ensinando inglês pra Jin.
3.Sawyer segurando Aaron pela primeira vez.
4.Sawyer tentando convencer Kate a ficar na Vila Dharma para que pudessem ser felizes. O que ele conseguiria com Juliet, depois.
5.Sawyer cumprimentando Jack, meio sem jeito, depois que ele retorna ao acampamento.
Relatórios Transitórios 2: A aparição de Walt para Locke depois que ele leva um tiro mantém o garoto nesse limbo de analogias impossíveis. É realmente muito difícil encontrar um padrão para explicar tudo que envolve esse personagem. Mas, acho curioso que Walt tenha conseguido se manter longe da ilha… De certa forma, essa é uma permissão que pode nos dizer muita coisa.
Relatórios Transitórios 3: Carrie Preston, essa linda, numa ponta como a mãe de Ben. Lana Parrila, essa outra linda, fazendo uma participação no finale, dizendo duas frases e depois levando um tiro. Mas, acredito que foi conhecer os futuros criadores de Once Upon a Time aqui, que mudou sua vida.
Relatórios Transitórios 4: Uma atenção especial ao fato do código que Charlie precisaria digitar, ser em notas musicais. Isso justificava, ao menos um pouco, seu papel nesse fim.
Relatórios Transitórios 5: Russeau e Alex se reencontraram aqui nessa temporada. Infelizmente, a exploração dessa relação sempre foi uma negligência lamentável da série.
Relatórios Transitórios 6: Assisti a Exposé ouvindo os comentários, mas nada é dito sobre nosso querido Santoro. Nos extras, ele também não aparece muito, a não ser numa boa cena deletada (que já coei nesse post). E preciso comentar uma coisa sobre a sensação de assistir aos bastidores do show: Aquelas pessoas eram as pessoas mais sortudas do mundo, que tinham o melhor trabalho do mundo e que – o que é melhor – sabiam disso.
See you in fourth season Brothá…















