O potencial de originalidade de uma ficção científica preocupada em fecundar mistérios encontra-se na fuga de suas referências.

Em busca de uma nova “Under the Dome” a CBS resolve apostar em outro drama que foge do convencional para a summer season. Imagino que a temática espacial que rendeu sucesso ao filme Gravidade em 2013, deve ter influenciado na decisão da emissora ao encomendar os 13 episódios dessa nova produção que conta com o envolvimento de dois nomes de peso: Halle Berry e Steven Spielberg. Referências a obras obrigatórias de ficção científica serão inevitáveis, como 2001 e Alien, por exemplo.

A história da astronauta que volta pra casa depois de uma missão solitária no espaço ganha ares de Ripley da franquia Alien ao envolver a inédita concepção do estrangeiro. Molly Woods é uma personagem interessante por estar no centro do mistério, mas até o filho andróide percebeu que ela retornou diferente depois de passar mais de um ano no espaço. Assim, a maquinação que a rodeia torna-se o ponto de partida para a trama envolvendo uma grande corporação que manipula suas cobaias contratadas.

Os questionamentos morais ficam evidentes no desenvolvimento da relação familiar que envolve o filho do casal Woods, o Humânico Ethan se torna um dos melhores acertos da série. Muito bem interpretado pelo menino que roubou para si as atenções em Looper, Pierce Gagnon é a escolha perfeita para representar o andróide que busca a demonstração contraditória dos sentimentos humanos. O amor surge como uma estreita viés que nos enfraquece e torna sensível a busca por uma tecnologia que preencha a carência existente na vida solitária das pessoas. O uso da inteligência artificial com requintes de humor e raiva geram empatia automática, mesmo não sendo original é um recurso bem utilizado. Sem perder a razão a vida encontra um jeito.

A direção do piloto acerta ao se aproveitar de um elenco competente e aplicando bem os recursos visuais, transformando cada cena em questionamentos. Em meio a isso, o mistério torna-se o personagem principal por ser o elemento gerador do suspense e tensão destes primeiros 42 minutos.

O constante conflito entre realidade e ilusão na mente de Molly pode ser visto como seu principal ponto fraco. Daí a importância de sua amiga médica e a psiquiatra nada sigilosa para orientá-la em meio às novas descobertas. Se seguir o conselho de seu amigo “suicida”, Molly não irá confiar em mais ninguém mesmo dentro de seu lar. Ainda mais agora que seu marido será mais uma marionete de Yasumoto.

A importância da erupção solar e do que aconteceu a Molly foi suficiente para descongelarem o comandante dessa iniciativa. Imagine só a magnitude dos experimentos realizados por sua Corporação, o espaço não deve ter limites.

Extant consegue prender a atenção do telespectador sem explorar o potencial de atuação de Halle Berry, mesmo sendo uma boa performance em seu retorno às telinhas. E mesmo sabendo que no decorrer da carruagem, perguntas serão respondidas com novos mistérios, ficamos atentos ao que vem a seguir, pois pouco foi revelado sobre os personagens secundários.

Já fiz parte daqueles que defendiam o fato de que Extant funcionaria melhor como filme, mas com este piloto é possível vislumbrar para a temporada uma direção rebuscada com a utilização sensata da simplicidade futurística e dos flashbacks encaixados no roteiro. Extant corre, no entanto, o risco de emaranhar-se nos próprios mistérios e cansar o telespectador. Os próximos passos determinarão a sobrevivência ou a extinção, saberemos então se a vida encontrou um caminho.

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