Mais controversa que o sexo dos anjos.

Há 25 anos, Deus desapareceu. Seus anjos culparam os humanos. O arcanjo Gabriel abriu guerra contra a humanidade na esperança de livrar o mundo dos humanos e declarar domínio sobre ele. Alguns anjos superiores recusaram-se a escolher um lado, mas os inferiores juntaram-se a Gabriel. Miguel resolveu ajudar os homens, após os anjos terem-nos atacado para possuir seus corpos. Os homens e Miguel recuaram e criaram fortalezas para sobreviverem. Logo, se espalhou a notícia que ele teria pegado uma criança, que salvaria o mundo e seria reconhecido pelas marcas do seu corpo.

Resumo da introdução da história.

É nítido o fato de como a série quer ser grande. Quer ser algo notável. Os efeitos, a história, as intrigas levam seus quase setenta minutos de maneira agradável. Não pode ainda se dizer que não há problemas, que as atuações sejam dignas de um Emmy, ou que nada tem o que mexer para melhorá-la. Calma, é apenas o episódio piloto. A crítica americana ficou mais dividida que o próprio público. O público, em maioria, gostou. Na verdade, é fácil agradar com esse tipo de mitologia, desde que seja bem realizada. Pelo menos para mim, esse tipo de trama me atrai. Alguns jornais importantes creditaram ousadia ao fato da Syfy produzir esse tipo de série, destacando as cenas de ação e a maneira de contar a sua história. The Hollywood Reporter, por sua vez, disse que a série é uma das mais ridículas e mal atuadas possível em anos.

Baseado apenas na trama da série, eu acho precipitado dizer isso. E não há como negar que há potencial para uma grande história. Parecia que tudo estava ali na primeira hora do show: tramas de filho abandonado, casamento arranjado, uma disputa pelo poder da cidade (?), casas com costumes diferentes se interligando (que pode render até uma) intriga política, altas doses de religião, fé e esperança, além da suspeita universal de que todos podem ser suspeitos (ou anjos). O recado ao final, nas tatuagens do Escolhido, não me deixa mentir.

Dominion tem estrita ligação com o filme de 2010, Legion, que muitas pessoas não gostaram e já começaram a olhar torto para a série. É uma base, não vi como uma continuação dependente. Até porque nem lembrava muito bem do filme, e entendi a série sem maiores problemas. Muitos disseram que vale a pena assistir Legion novamente, outros disseram que não há necessidade. Fica a escolha de cada um.

A tentativa de ser grandiosa ainda permeia com uma cuidadosa simbologia por todo o episódio. Como, por exemplo, a aula/culto que Claire ensina aos menos favorecidos. Temos a esperança tomando as rédeas de todos os personagens pelo fim da guerra, ou, alguns, pelo começo dela. A figura do “Escolhido” pode render muito, desde que não caia no clichê de outras produções. Há sempre a chance de inovar. Sobre esse tema de anjos e humanos, há diversas histórias em quadrinhos, filmes e – agora – séries, desbravando. O lance é não perder a tensão do espectador sobre o que está por vir, quem que podemos confiar, ou ainda o limite do verossímil (ou aquilo-que-não-precisamos-forçar-muito-para-encarar-e-não-parar-de-assistir), mesmo numa série de fantasia.

Quanto aos personagens, conhecemos praticamente, todos, mesmo que de relance só em algumas cenas. O protagonista Alex, o Escolhido, parece o rebelde da vez, que não vai acreditar nas pessoas ao seu redor e não vai querer ser o que todos acreditam que ele é. Claire e Bixby funcionam junto com o herói, ora para aflorar no soldado seu lado romântico, ora seu lado paternal. Ainda não sabemos da índole, nem da origem destas personagens, que também pode surpreender com um roteiro bem amarrado. David Whele e Edward Riesen devem ter algum histórico mais sombrio e também podem definir novos rumos para a trama política da cidade. Miguel nos parece enigmático demais, pudera é o anjo que negou seus semelhantes para defender a humanidade.

Por fim, a grande expectativa ficou a cargo de William, suspeito, desde a primeira aparição na tela, de grandes traições ao desenrolar da historia por manter-se no alto escalão da política de Veja (antiga, Las Vegas, sim), ter um casamento marcado com Claire, o qual não parece estar disposto a desistir, e ser pactuado secretamente com Gabriel, o anjo-líder, rival dos humanos. Por fim, vale destacar Jeep, personagem vinda do filme, que aparece no episódio, explicando que fora atrás do anjo Gabriel, por isso ficou tantos anos fora e fora dado como morto. Ele surpreende todo mundo com sua aparição, não tanto ao revelar que seu filho é o Escolhido, a quem se acredita que irá salvar a humanidade. Morreu com uma facada de um anjo menino, com forma de humano da casa de Helena, pertencente à classe Power (seria o mesmo que aparece encapuzado no final?).

A série pode até não ter os melhores efeitos, mas eles deram conta do recado, a meu ver. Disse no começo, que a série quer ser grande. E a pergunta final é se vale a pena assistir o segundo episódio? Eu acho que sim, pelo fato de que além de querer ser grande, ela tenta. E isso já é um bom caminho, quando se tem milhares de possibilidades logo no piloto. O lance agora é que elas não caiam na mesmice, que não nos pareça eternos déjà vu de obras com essa temática, e que virem bons argumentos para indicarmos a série aos nossos amigos.

Que venha um satisfatório segundo episódio por aí.

Considerações finais:

– Durante o episódio, tiveram referências à Casa de Helena. Conhecemos Arika, a esposa da Rainha Evelyn. Após a sua prisão, podemos ter aí um bom desenrolar político entre a relação das fortalezas.

– O Jubileu é uma mistura de pão e circo, gladiadores/humanos lutando com anjos e sucessão de “notícias agradáveis”. Foi um ponto alto do episódio. E a constatação que todos ali têm medo, mesmo dentro das fortalezas.

– Os banhos dos soldados são coletivos?

Artigo anteriorTrue Blood 7×01: Jesus Gonna Be Here [Season Premiere]
Próximo artigoPodmaníacos #125 – Game of Thrones, In The Flesh, Orange is The New Black e muito mais