Talvez seja muito extremo afirmar que um dia existiu de fato uma hegemonia da HBO quando o assunto é qualidade audiovisual, porque isso automaticamente rejeitaria tantas outras obras de tantos outros canais. Mas também não se pode desmerecer uma emissora que arriscou grande, e que colheu frutos que mereceu. A HBO não é a única a produzir boas séries, talvez nunca tenha sido, mas se hoje vivemos uma época sólida de televisão, foi porque na segunda metade dos anos 90 um pequeno canal resolveu quebrar paradigmas que habitavam a televisão por um longo tempo.

Logo após a morte de James Gandolfini, os showrunners Matthew Weiner (Mad Men) e Vince Gilligan (Breaking Bad) afirmaram que as duas séries e seus respectivos protagonistas jamais existiriam sem a preexistência de Tony Soprano. Bom, The Sopranos pode ser uma das séries mais importantes da história, pois conseguiu criar um universo que não seguia um padrão industrializado que afirmava tal personagem como do bem, e outro como do mal. Essa dinâmica “bem e mal” funcionava na televisão, e essa inovação pode ter sido considerada arriscada, afinal, não se mexe em time que está ganhando. Mas esse novo rumo da HBO nos anos 90 pode estar associado a inúmeros motivos: por exemplo, o canal poderia estar procurando uma segmentação de mercado mais madura e disposta a abraçar narrativas complexas e profundas. The Sopranos acontece logo após Oz e depois vem The Wire, outras séries cruas, brutais e reais, que inspiraram tantos dramas que conhecemos e inspirarão outros que ainda conheceremos.

Em um mundo onde comparações entre séries são facilmente feitas na internet, onde todos temos voz para nos expressarmos, concordarmos e (principalmente) discordarmos, considero essa “atividade” crítica que exercemos quase sem perceber, de extrema importância para o público e para as emissoras. É preciso criticar, é preciso expor o que o público sente, porque no fim, televisão é um negócio, e consumidores insatisfeitos dificilmente compram o produto novamente. Aqui existe uma questão extremamente difícil e que aflige tantos roteiristas no mundo da televisão. Deve-se ou não mudar rumos narrativos de acordo com os sentimentos do público? Essa dúvida parece nunca ter atingido as séries da HBO (e até mesmo a televisão americana em geral), diferente da teledramaturgia brasileira, por exemplo. O advento da internet aproximou showrunners de seu público e a sensibilidade do criador ao compreender a opinião pública (principalmente da crítica) pode ajudar na construção e execução de uma série. A HBO sempre abraçou a internet, pois sabe que grande parte de seu público também navega por outras mídias, mas o canal nunca se deixou influenciar, apenas procurou ouvir, pois isso acaba aproximando espectador e emissora, e relacionamento é tudo no mundo dos negócios. Aqui já se trata a HBO como business e analisar a emissora de maneira mais abrangente serve para compreender o sucesso de suas atitudes, que reflete em suas séries.

Ainda existe o crucial fato de que a emissora concede liberdade criativa aos seus empregados. Criativos afirmam que não existe melhor lugar para se trabalhar, pois as possibilidades de criação em um mundo sem censura são infinitamente maiores, a liberdade é essencial para Girls, Game of Thrones e Looking, por exemplo. Essas séries, caso feitas e exibidas por redes de televisão aberta, estariam fadadas ao fracasso.

Mesmo a HBO sendo essa maravilha toda, ainda existe espaço para os canais “menores”, nesse caso, os mais censurados e menos ricos. Não se pode negar que canais como FX, SundanceTV, Comedy Central (e tantos outros) são exibidores de séries influentes e importantes no mundo da televisão: Louie e sua dramédia que beira a perfeição, Justified e a representação fiel do interior dos Estados Unidos, Rectify e a abordagem intimista de um homem perdido no mundo, o The Daily Show e a crítica forte à política americana, Broad City e a comédia da desgraça na vida em New York. Nota-se que mesmo em canais de menos “conceito”, existem ótimas séries, pois no fim, onde existe criatividade, existe qualidade. Ainda temos o maior fenômeno dos últimos anos: Hannibal, sendo exibida pela NBC. Fica claro que o canal tem fé em uma série que não traz grande audiência, mas que é reconhecida pela crítica e adorada e defendida por fãs muito fiéis. É utópico falar isso, mas, quem sabe esteja em movimento uma mudança na maneira como a televisão aberta é tratada? Se a NBC trata Hannibal dessa maneira, é que um dia ficou claro que boa televisão gera prêmios, e isso atraí reconhecimento, e consequentemente, dinheiro.

Se até o momento trato a HBO como a oitava maravilha do mundo, é porque talvez, ela seja. Mas isso não significa que seja também intocável, como uma Deusa. A ameaça existe, e ela apresenta-se (além de outros canais já citados acima) como “a nova mídia”, ou a “mídia não tradicional”. Se o jornalismo já sofre com a pressão causada pela internet e pelas novas maneiras e meios de propagação de notícias, quanto tempo até esse novo “modelo” alcançar o mundo da TV? Netflix, Hulu, Amazon, e tantos mais. Esses sites de streaming e empresas de tecnologia viram na televisão (e na narrativa televisiva) um enorme potencial financeiro. Se o Netflix começou transmitindo filmes antigos e esquecidos, hoje possui produções originais que disputam de igual para igual prêmios com séries da “televisão tradicional”. A Amazon investe em pilotos e de forma inteligente permite ao público “votar” nas produções que mais gostam, para evitar desperdício de dinheiro e tempo em algo que ninguém se interessa. O Hulu exibe episódios da televisão tradicional com pouquíssimo atraso, possibilitando que usuários de TV on demand possam usufruir do vasto mundo das séries. Yahoo e Microsoft já se mostram interessadas em produzir suas próprias séries originais, sem contar com produções independentes do Youtube, e obviamente, canais “normais” que apresentam a ameaça mais sólida no momento. É por isso que fica difícil afirmar uma hegemonia da HBO, pois apesar de ser um canal louvável, tem concorrentes de nível altíssimo, e isso é bom, porque estimula cada vez mais a inovação e a alta qualidade.

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