How I Met Your Mother é uma série incrivelmente especial para mim. Também por eu ter passado quase uma década a acompanhando semanalmente, mas principalmente por ser diferente das demais sitcoms. Utilizando um grupo consideravelmente grande de protagonistas, e estabelecendo uma mitologia única e incrivelmente bem amarrada, HIMYM é excepcional em unir drama e comédia, provocando risadas no espectador ao mesmo tempo em que consegue tirar lágrimas, quase sempre em um equilíbrio difícil de ser encontrado na TV aberta. Mais do que isso, Carter Bays e Craig Thomas conseguem trazer o público para junto dos cinco amigos, fazendo com que nos importemos com eles e sintamos as mesmas agonias e angústias que eles. Mas, infelizmente, HIMYM se encerra de forma melancólica e tragicamente conduzida, em um Last Forever que acerta em pouquíssimas coisas.

O argumento que mais será ouvido pelos que detestam este series finale inevitavelmente será “O fato de não terminado do jeito que você queria não torna o final ruim”. De fato, não torna. Aliás, se analisarmos friamente os acontecimentos desta nona temporada, Ted terminar sua vida com Robin faz completo sentido. Mas HIMYM constrói esse desfecho de maneira incrivelmente artificial e apressada, tornando toda a existência deste último ano completamente desnecessária. O curioso é que, pontualmente, a cena em que ele, de cabelos grisalhos, toma exatamente a mesma atitude que havia tomado em 2006, é genuinamente bela e cria uma interessante rima, estabelecendo um ciclo que de fato explica o porquê de Ted insistir tanto em Robin ao contar a história a seus filhos.

Mas nenhuma história é feita de uma só cena, não é mesmo? Mesmo se considerarmos apenas os acontecimentos de Last Forever, HIMYM desenha a todo momento a química entre Ted e a Mother – que a partir daqui será chamada sempre de Tracy – , sempre dando a entender que se trata do amor de sua vida. E se Bays e Thomas buscam incomodar o espectador com a constante ausência de Robin, apenas dá a entender a cada momento o desfecho que a personagem terá, não apenas arruinando qualquer surpresa como criando inevitável desgosto e aflição.

Até o momento em que decide dar vida à teoria formulada já há algum tempo sobre a possibilidade de Tracy estar morta em 2030. Ainda que Last Forever seja um episódio que encerra uma comédia, e portanto não deveria ser povoado de momentos tristes, chega a ser ofensiva a forma como a série decide se livrar da personagem, descartando-a de maneira extremamente repentina apenas para cumprir seu propósito. Em outras palavras, HIMYM abandona toda a aura que cria em torno de Tracy ao longo de toda a temporada, relegando-a a um mero amor de Ted, como tantos outros ao longo dos anos. Mas, diferente de Stella, Jeanette e até Victoria, ela é a única construída para não possuir defeitos aos olhos do narrador não-confiável que é Future Ted, ganhando um fim de personagem secundário quando o próprio episódio a garante tratamento especial.

Obviamente, HIMYM não tenta minimizar o amor de Ted por Tracy, deixando claríssimo que a investida em Robin se dá apenas pelo fato da mãe de seus filhos ter morrido. No entanto, faz com que a personagem caia exatamente no rótulo que a série tentou evitar por nove anos, de que a Mother é apenas um consolo pelo fato de Ted nunca ter conseguido se casar com Robin. Nesse aspecto, o sentimento de trapaça é inevitável, já que Bays e Thomas deliberadamente atiram sua criação nessa direção, destruindo toda a construção que prepararam para todos os envolvidos no processo, apenas para chegar ao final “planejado”.

Do lado de Robin, HIMYM comete os mesmos erros. Aliás, Last Forever começa a desandar exatamente quando ela e Barney anunciam o divórcio, tornando todo o drama de The End of the Aisle desnecessário. A série ainda tenta forçosamente empurrar o discurso de Barney sobre falar sempre a verdade para conferir algum sentido à situação, mas se trai ao trazer o personagem exatamente igual aos anos anteriores, mesmo que dê a esfarrapada desculpa de que só age dessa forma porque “se não deu certo com Robin, não dará com mais ninguém”.

Como se o episódio já não fosse apressado o suficiente, HIMYM ainda tenta conferir a Barney um final catártico, lhe dando o filho que Robin jamais seria capaz de dar. Mas, como tudo em Last Forever, isso acontece tão repentinamente que não temos sequer tempo de se emocionar com o fato, já que logo somos atirados a outro acontecimento que tenta dar um desfecho para os personagens. Por esse motivo, a repetição do mesmo discurso que fora dado a uma garota aleatória no MacClaren’s consegue apenas soar como pieguice, escorregando em algo que a série sempre fora incrivelmente habilidosa em fazer.

É incrível como o episódio consegue soar como se tivesse uma temporada inteira contida nele. HIMYM procura acelerar tanto o ritmo e criar tantas histórias, mesclando infindáveis elementos de sua mitologia, que deixa uma nítida impressão de que toda uma décima temporada seria perfeitamente plausível. Aliás, a série se encerraria de maneira infinitamente mais elegante se conseguisse se dedicar mais aos “grandes momentos” a que Lily tanto se refere, mas que se tornam irremediavelmente pequenos diante de outras prioridades da temporada, como William Zabka ou a viagem de Marshall até o casamento.

O curioso é que, humoristicamente, Last Forever tem seus bons momentos. No meio de tanta pressa, cenas como o high five eterno, Ted pedindo para que a velhinha da estação se acalme, e Barney surtando após uma reunião que aparentemente não acontecia há tempos (de novo, a pressa do episódio impede que tenhamos a mesma sensação de saudade dos personagens), se destacam e conseguem provocar risos com certa facilidade, mostrando uma HIMYM em plena forma no que diz respeito a fazer rir, ainda que escorregue em algumas situações pontuais.

Mais curioso ainda é o fato de a cena que todos esperam desde que HIMYM se iniciou ser construída de forma sublime. Independente de Ted terminar sua vida com Tracy ou com Robin, o diálogo entre ele e a primeira, sob intensa chuva, consegue de maneira inteligente enumerar todos as pistas que Future Ted vinha revelando ao longo dos anos sem soar remotamente apressada, criando uma conversa orgânica e adorável, dando forma aos vai-e-vens do guarda-chuva amarelo e finalmente revelando o nome da Mother. Haveria tantas formas de aproveitá-la de maneira menos atrapalhada (e digo isso sabendo que lerei uma infinidade de comentários com o típico e incrivelmente infantil “faz melhor, então”), que se torna uma pena que existe em uma obra tão problemática como Last Forever.

Assim acaba How I Met Your Mother. O desastroso series finale obviamente não apaga os excelentes momentos da série, assim como algumas temporadas irregulares não o fizeram. Mas não posso negar estar triste por ver nove anos de minha vida terminarem assim.

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