Não foi dessa vez, gordita.

Pode parecer um pouco estranho, mas From Dusk Till Dawn me conquistou. Não sei se é a promessa de que a série chegue perto da loucura e frenesi que o filme chegou, ou se sou só eu loucamente desesperado para dar uma grande chance ao canal El Rey, pelos colhões. Todo mundo sabe que adaptar um filme em uma série não é um trabalho fácil, menos fácil ainda quando esse filme é obra de duas mentes perturbadas (no bom sentido) como Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Mas como não amar uma série que coloca o Robert Patrick (eterno T-1000 de Exterminador do Futuro 2) para ser um ex-pastor alcoólatra pai de dois filhos e completamente desajustado?

Gostei do segundo episódio e tudo isso foi graças ao sentido de crescimento do piloto para cá. Achei interessante que aos poucos os caminhos dos personagens começam a se entrelaçar, mesmo que indiretamente. Esses personagens não estão aqui meramente por uma conveniência do texto, eles terão sim alguma relação com o que irá acontecer mais a frente na série. Chame de força superior, semideusa da serpente, ou Deus, alguém está guiando todos esses grupos de pessoas para um determinado local e para uma determinada atividade. Qual o interesse nessas pessoas nós ainda não sabemos e isso me instiga a continuar com a série.

Pode ser um pouco vazio, continuar só pela vontade de saber o que vai acontecer a longo prazo. Mas é esse o trabalho de From Dusk Till Dawn, te prender da mesma forma que os personagens estão presos. Esse sentimento de destino, em que não importa o que você faça você não pode fugir é interessante, mas só por que os próprios personagens por enquanto ainda desempenham essa função.

Os irmãos Gecko são a joia da série, isso não dá para negar. O destaque é deles e precisa permanecer lá, mesmo com as eventuais trocas de dinâmica que a família no trailer traz. Richie já foi normal, pasmem. O ator que interpreta o irmão louco é muito bom no que faz, por que sinceramente eu nunca imaginaria que Richie já foi uma vez na vida qualificado como tal.

Outro ponto importante é ver que Carlos pode acabar não sendo o tipo básico de vampiro que nós estamos acostumados. Ao que tudo indica a origem dessas criaturas não vem do morcego, mas sim das serpentes. Remetendo a cena do primeiro episódio com a moça sendo atacada pelos animais. É até interessante essa reinvenção, mas eu prefiro que ele seja apenas uma ramificação e que os vampiros básicos acabem aparecendo. Tenho um sério problema com séries que pegam criaturas já estabelecidas e a mudam completamente. Uma cobra vampiro não me chama a atenção, nem um pouco. Até por que, quais seriam as justificativas para uma cobra não sair na luz do dia e viver de sangue? Se vamos ter uma criatura completamente diferente que ela desenvolva sua própria mitologia, que é o que a série vem fazendo, mas sem esbarrar na mitologia de outras.

Logo, esse segundo episódio é bom. Consegue introduzir tramas paralelas a dos irmãos e ao mesmo tempo ligadas a eles sem que fique confuso ou cansativo. Gosto bastante da forma com que os flashbacks vem sendo utilizados, hora para dar um background a nossos personagens, hora para amarrar a presença deles em vários lugares diferentes e interagindo com os outros personagens. Porém, quero que parem logo. Já estou profundamente cansado dessa forma de lidar com a história desses indivíduos, antes que esse recurso seja drenado completamente tirando toda a graça no mistério por trás dessas pessoas, a série precisa colocar o pé no freio.

Partindo para o terceiro episódio, Mistress, vejo que a série decide focar bem no desenvolvimento da mitologia por trás de tudo de estranho e bizarro que vem acontecendo, especialmente com nosso irmão aluado Richie. Para começar, ficamos sabendo que Carlos está por trás das ações dos dois desde o começo, com sua promessa de um paraíso na terra. É justificável que Seth tenha se entregado com tanta facilidade nessa proposta, o sangue corre mais grosso que a água e se o episódio anterior tinha esse nome, só no terceiro é que nós vamos ver o quanto o amor entre esses dois irmãos é o sustentáculo da série.

Para começar com a tal profecia de que os dois irmãos seriam responsáveis pela zoada com a cara dos deuses. Ainda fica meio incerto se são mesmo os irmãos Gecko, não se esqueçam de que temos outros dois irmãos na jogada também, bem menos perturbados e com um passado mais simples, mas temos. Além de tudo isso, os dois estão protegidos por um padre, que os guia para um lugar desconhecido para testar sua fé. Ou seja, até segunda chamada é bom não assumir nada a respeito dessas relações fraternais.

Imaginem o dilema moral de Seth, tendo que deixar o irmão com a refém enquanto sai para comprar comida, e dar uma comida também (com o perdão do trocadilho). Ele está literalmente carregando uma bomba ambulante e não importa o que o moço faça, ele sempre precisará lidar com esse dilema, deixar o irmão sozinho e arriscar tudo, levar o irmão com ele e arriscar tudo e mais um pouco. Não restam dúvidas, o amor que ambos sentem um por outro é mesmo muito forte, superior até a influência da vampira mulher cobra.

Só que a querida Gordita acabou percebendo tarde demais que Richie de louco não tem nada. O cara é uma alusão aos oráculos de todas as fantasias e mitologias existentes. Manter uma linha direta com o divino não é fácil e o produto só poderia ser aquele mesmo, a loucura. Ao que tudo indica essa loucura chegou ao fim com o cumprimento do sacrifício. Gordita terminou rasgada e com os olhos nas mãos. Pobrezinha, isso que dá confortar o maluco ao invés de sair correndo pela porcaria da porta e gritar por socorro.

Até o Seth, que por enquanto só vinha desempenhando a função de manter o irmão e a ele vivos ganhou um pouco mais. Quando o episódio começou com seu flashback já imaginei que o foco seria nele. Porém, ao chegar à lanchonete e testemunhar seu encontro no maior exemplo “linha banheirão” tudo ficou mais claro. Existirá mais conflito pelo caminho. Quero muito que exista a integração de uma personagem feminina (desculpa Kate, você ainda é muito novinha pro que tenho em mente) e depois das interações entre Richie e a Gordita, penso que isso acrescentaria um viés mais interessante aos dois. E isso é algo que realmente precisa acontecer, enquanto Richie está louco, Seth cumpre um papel de guardião e isso justifica não colocar ninguém ao lado dos dois (seria perigoso demais), se realmente ele tiver encontrado uma forma de manter sua conexão com a semideusa sem babar na camisa, alguém precisara fazer companhia a eles.

Partindo para o outro lado menos louco da série, temos o policial Gonzales consultando (clichê da vida gente, aceita que dói menos) um professor especializado na história da mitologia que está ligada intimamente aos crimes do cartel. Nem vou me dar ao trabalho de reclamar disso, já que a série tem pouquíssimo tempo para trabalhar seus mitos. Segundo o professor a faca é um símbolo que exemplifica o “Para ver e tomar ação”, o que responde a pergunta que eu vinha me fazendo desde o piloto, “libertar quem?”. Richie já estava vendo, mas ainda não tinha tomado ação. Agora que a tomou creio que o elo esteja completo.

Os outros dois irmãos estão no mesmo dilema, só que de uma forma menos complexa. Ambos estão em uma missão de fé, junto com o pai. Eles em conjunto seguem para o lugar nenhum, apesar de todos os problemas existentes e de todos os sinais indicando que o mais certo seria voltar, ou sair correndo pelo deserto sem rumo mesmo.

Achei que esse terceiro episódio, por ser focado na mitologia e na busca pelas respostas levantadas, foi bem mais lentinho e alguns momentos até um pouco tedioso. É uma derrapada, lógico, mas ainda continuo na estrada e querendo saber aonde ela vai nos levar. Obviamente seremos conduzidos ao clímax que o filme nos deu, porém, em que situação ninguém sabe. A série já foi renovada para sua segunda temporada o que nos deve dar bastante tempo para nos habituar a essas famílias tão fora de órbita. Vou continuar com ela até o final dessa temporada e querendo bem mais, muito mais.

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