Entre todos os piores hábitos que o ser humano adquire durante a vida, o pior e mais nocivo deles é o de acabar sendo exatamente aquilo que se é.

Existe uma pequena diferença entre hábito e personalidade. O primeiro é o que você faz impulsionado por aquilo que você é. Personalidades inquietas, sempre dependentes da adrenalina, costumam adquirir perigosos hábitos, que sempre flertam com o perigo, com a destruição gradativa. Personalidades introvertidas costumam gerar hábitos apáticos, antissociais ou que permaneçam dentro de limites bem demarcados. Seus hábitos visuais, gastronômicos, sexuais, entorpecentes… Tudo depende das inclinações determinadas pela sua personalidade.

Veronica Mars sempre foi uma escrava de si mesma. Não me estranha que o ótimo roteiro de Rob Thomas tenha se focado nos demônios pessoais da personagem, já que o pior hábito que Veronica pode ter adquirido é o de seguir os instintos que – talvez – a maioria das pessoas não seguiria. Ela aprendeu e se viciou no exercício do escrutínio, e em nome disso, traiu, enganou, mentiu, cometeu pequenos crimes e se indispôs até mesmo com pessoas pelas quais sentia um imenso carinho. Veronica é tão interessante porque ela mesma sabe que uma vez suja de lama, dificilmente haverá uma limpeza definitiva. A questão é: se sujar, às vezes faz bem. 

Eu mal posso expressar como estou feliz com esse longa-metragem. Há alguns dias a última review do flashback de Veronica Mars era um documento agridoce de um final que nunca deveria ter acontecido. Agora, tanto tempo depois, os fãs que fizeram esse filme acontecer (e os que não fizeram) tiveram a chance de apagar o papel de Series Finale daquele episódio 3X20, considerá-lo um capítulo pré-interlúdio, e abraçar esse filme com todo amor. Porque agora sim… Agora, The Bitch is Back. 

Por mais que os realizadores sempre se esforcem muito pra fugir do “episódio de duas horas”, não tem como correr disso. Logo na abertura, o bom e velho “previously”, só que mais elegante, mais enfeitado. O filme até pode funcionar para o público leigo, mas só será uma experiência completa para quem conhece cada um daqueles rostos. 

Agora vamos lá… Se as metáforas usadas o tempo todo no enredo do filme são sempre de vício e hábito, nada mais natural que começar a história com uma vibe “acabei de sair da rehab”. Veronica tem a carreira mais promissora do mundo, com perspectivas profissionais poderosas, mas nunca consegue parar de analisar-se, com tópicos que vão sempre na mesma direção: o passado como uma juvenil investigadora. O melhor da dramaturgia é que ela nunca se privou de tratar a personagem como ela merece. Veronica desmascarava pessoas por justiça, mas também o fazia por dinheiro, por vingança e por orgulho. Somente assim seria possível acreditar quando ela diz que fugiu do passado, para com isso parar de magoar pessoas com seus hábitos distorcidos.

Todo mundo já sabe o que vai acontecer, né? Quase numa mesma sequência, Veronica Logan nos noticiários, acusado de um crime, e na rua, ouve aqueles versos da música de abertura da série, e que aqui nesse contexto, parecem feitas sob encomenda. Voltar para Neptune, rever Logan, resolver um crime… Todos pequenos pedaços tentadores de uma “droga” que ela conhece muito bem e da qual foi muito difícil abrir mão. Dessa vez, entretanto, vidas importantes demais pra ela estão em jogo, e o filme não nos enrola com dúvidas. Veronica retorna, e nos presenteia com uma história bacana demais de ser contada.

Criar essa expectativa é importante, porque quando ela voltar a investigar, a inventar desculpas malucas e ótimas para entrar nas casas das pessoas, a pedir favores para Mac e para Wallace, vamos sofrer uma espécie de catarse. Nossa abstinência é que foi superada dessa vez. Como queríamos ver tudo isso acontecer de novo! E com o plus de nos deliciarmos com todas as piadinhas de “você está de volta” que a protagonista passou o filme inteiro ouvindo.

De todos os personagens mais marcantes da série, quase todos estiveram de volta. Pudemos ver como estavam Weevil, Dick, Gia e até termos um vislumbre de Celeste Kane. Toda a sequência do reencontro de 10 anos do Neptune High School foi um desbunde de humor e deboche. Fomos desde as inesperadas formas como alguns personagens retornaram, até o clássico da humilhação pública, por vídeo, uma espécie de karma cíclico da protagonista. Porém, o mais interessante é perceber que em várias proporções diferentes, todos os personagens mais marcados buscavam uma rehab de si mesmos, e pareciam tão confrontados quanto Veronica, com aquilo que os fazia se sentirem vivos. Não era só ela que estava presa ao hábito, muitos deles estavam.

Piz apareceu no papel de namorado-medicamento, exatamente como no final da série. Para tentar uma cura dos próprios maus hábitos, Veronica recorre a ele. Eu disse certa vez que “Logan não é o certo, mas é o sol”. O reencontro dos dois era extremamente esperado pelos fãs e aconteceu da melhor maneira possível: com ele sendo a representação de tudo que deixa claro pra ela que sua vida não pode existir sem o medo e o perigo. Se ele cede ao impulso na hora de defendê-la, ela cede ao desejo quando vislumbra o menor sinal do caráter e da generosidade nele. O atentado contra Keith foi providencial nesse sentido. Quando ela se abala, ele literalmente a carrega no colo. Nós nos derretemos, e ela também. 

Quase que para se redimir daquele series finale inacabado, a ação final do filme foi todo centrada em Veronica e nas habilidades dela de descobrir a verdade e lutar pela própria vida. Sozinha, foi enfrentar a identidade do verdadeiro assassino de Carrie Bishop. Carrie (assim como Susan Knight), foi um personagem marcante em um episódio tenso da primeira temporada da série, quando encobriu o “crime” sexual da melhor amiga. Na série, foi feita por Leighton Meester (a Blair, de Gossip Girl) que por conflitos de agenda não conseguiu aparecer, tornando a identificação imediata da personagem um pouco difícil. Khristen Ritter (a saudosa “vadia do 23”), felizmente estava disponível, e deu ao filme uma credibilidade imensa ao poder voltar para reviver Gia. Como prêmio, ganhou ótimos momentos em cena. 

Daquele jeito que nós todos amamos, a publicamente elogiada forma como a série lida com tecnologia, veio desvendar o crime que sepultou Carrie. Veronica se viu em maus lençóis por um momento, mas 10 anos depois, ela está mais escorregadia que nunca e levou a ação final com muita dignidade. Ali, definitivamente, ficou claro que seus sentimentos com relação ao passado não são só de tristeza, mas de familiaridade também. Inteligentemente, o roteiro a coloca e Weevil se dando conta disso num mesmo instante. Ele tentou seguir contra a correnteza, e não deu. Ela tentou usar a geografia como arma, mas o hábito pode ser o maior dos argumentos. 

Sonhar com uma sequência é pedir demais? Acho que sim… O filme terá um circuito pequeno mesmo nos EUA e vê-lo em cinemas aqui no Brasil, nem pensar. Sem público, nada de sobrevida. Foi assim que o universo da personagem foi tratado e é assim que continuará sendo. Entretanto, mesmo que nunca mais vejamos outra aventura da personagem, tivemos o fim que estávamos esperando, tivemos o desfecho certo, justo. Tivemos a narrativa que respeitou a personagem, finalmente, que representou tudo que ela merece no cenário pop-cultural do mundo. Veronica Mars é inteligência a serviço do entretenimento, coisa rara nos dias de hoje, e que nos faz lamentar eternamente o seu fim. 

Esse filme aconteceu por determinação da paixão e foi a paixão que fez com que cada minuto dele fosse realizado. Não poderia haver recompensa maior para um fã, do que saber que aqueles que fazem a série que ele ama, amam-na tanto quanto. E era isso que estava nos olhos de Kristen Bell o tempo todo… Essa atriz linda, sensível, esperta, sagaz, que toma as rédeas dessa personagem como se nunca tivesse se despedido dela. Veronica existe como é por causa dela, e por nossa causa ela está de volta ao ar. Nós… Os maiores viciados desse contexto, rejeitando qualquer tipo de reabilitação, nos deleitando com o torpor da verdade. Nós, os maiores apaixonados… Nós, os maníacos. 

Rastros Reencontrados: Logo depois do final da terceira temporada da série, Rob Thomas tentou vender para o estúdio uma temporada onde Veronica trabalhava no FBI. Uma cópia desse projeto (que foi filmado), vazou para a internet, mas ele nunca foi pra frente. Foi engraçado ver Veronica dizer no filme que a história do FBI só poderia ter acontecido “em outra vida”… Sim, numa vida que foi cancelada. 

Rastros Reencontrados 2: O quão bacanérrima foi a participação de James Franco, como ele mesmo, todo excêntrico? E com o plus da Eden Sher, de The Middle, que faz qualquer um que a reconheça, abrir o maior sorrisão. 

Rastros Reencontrados 3: Além de ser reconhecida por saber lançar mão da tecnologia muito bem,  a atmosfera da personagem sempre esteve ligada e antenada no cenário midiático. No filme não foi diferente, com o blog de Perez Hilton e o TMZ sendo incluídos na trama de maneira espertíssima. Só alegrias, senhores… Só alegrias. 

By the way… Quando começam as doações pro segundo longa?

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