2014 começando à toda velocidade.

Ao longo dos anos, séries policiais começaram a atrair certo preconceito da parte de uma boa parcela do público. Muito por conta da forma como emissoras da TV aberta passaram a tratar o gênero, de uma maneira excessivamente esquemática e voltada principalmente à tentativa de gerar surpresa. Por conta disso, são raras as situações em que os olhos de quem de fato vive uma investigação policial são mais importantes do que o crime em si, e isso faz com que muito desse processo se perca. Mas True Detective, nova série da HBO, tenta dar essa visão diferenciada, e, a julgar pelo piloto, é muitíssimo bem-sucedida.

Criada por Nic Pizzolatto, a série já se inicia em um distante ponto do futuro, mostrando um engravatado Marty Hart (Woody Harrelson) contando o que se lembra de seu antigo parceiro, Rust Cohle (Matthew McConaughey), em um início que logo distancia de maneira evidente os dois, revelando um Cohle acabado e maltratado pela vida, enquanto Hart parece viver em condição melhor (e o verbo “parecer” é importantíssimo nessa altura). Ambos relembram um assassinato investigado em 1995, quando Dore Lange, uma prostituta, fora brutalmente morta. A partir daí, todo o caso construído há dezessete anos é recontado a terceiros frente a câmeras.

Note como, em True Detective, a investigação jamais é tratada como protagonista da trama, sendo utilizada como recurso para exploração intensa de uma dupla de personagens diametralmente opostos, tanto em personalidade, como em situação de vida. O desfecho aparente da vida dos dois é a maneira que a bela direção de Cary Fukunuga encontra de causar no espectador esse imediato impacto, para logo em seguida aproximar os dois no que diz respeito a vestimentas, mas jamais espiritualmente.

É nesse ponto que o excelente trabalho de McConaughey é importante. Compondo um personagem frio e distante, ele é capaz de imprimir diferentes ritmos ao seu Rust Cohle, mas sempre se mantendo dentro da esfera construída para ele. Perceba como, em diálogos como o que ele mantém com Hart no carro, sua constante irritação pelas insistentes perguntas do parceiro são logo substituídas por um discurso desenfreado sobre suas obviamente pessimistas visões sobre a vida e a humanidade, mas nunca chegando a de fato se aproximar de Marty, evitando até mesmo que seus olhares se encontrem a todo custo.

Exceto quando está bêbado. Nesse momento há o único diálogo sincero entre os dois, e Fukunuga é extremamente feliz em finalmente aproximar suas cabeças. E o fato de conseguir manter uma certa conversa com a mulher do colega, Maggie (Michelle Monaghan), quando sequer consegue se dar bom em seu ambiente de trabalho, revela que Cohle só é de fato aberto quando está alcoolizado, o que certamente explica o fato de ter problemas com bebidas.

Aliás, Fukunuga é perfeito em todas as suas tentativas de revelar através de imagens a personalidade de seu protagonista. Na imagem que ilustra esse texto, por exemplo, note a maneira relaxada com a qual Cohle se porta, enquanto Marty parece rígido e centrado, como o policial tradicional que é. Além disso, no momento em que o Reverendo Tuttle insinua a existência de práticas anticristãs, repare como o diretor cria um plano em que Rust surge oposto ao reverendo, praticamente de costas para ele. É um tipo de linguagem não muito usual para TV, mas inteligente por não necessitar de diálogos expositivos para revelar intenções ou opiniões.

Assim como o roteiro de Pizzolatto, que constrói uma narrativa densa e muitíssimo bem conduzida. Adotando uma estrutura não-linear condizente com o aspecto de lembrança que a história assume, o texto jamais deixa o espectador sem compreender os fatos, tornando a ordem dos acontecimentos praticamente irrelevante, já que é a sequência perfeita para construirmos a relação entre Marty e Rust e sermos capazes de entender as motivações de cada um, bem como suas evidentes diferenças, que sabidamente levarão a um grande desentendimento. Da mesma forma com a qual destaca certas características dos personagens, como a morte da filha de Rust, que não necessita de um diálogo que diga “minha filha morreu” imediatamente, ainda que, eventualmente, esse momento ocorra.

E ainda que Rust seja de fato o protagonista de True Detective, Marty também é um personagem muitíssimo bem construído. Embora ele seja, na essência, o estereótipo de um detetive, é interessante como a série o aborda sempre de forma a se opor ao parceiro, criando para ele uma família bem estruturada, duas filhas (vivas), e um projeto de carreira por ser o típico funcionário bem comportado que jamais precisou disparar um tiro (e o interesse de suas filhas por isso é prova da inversão de valores provocada). O único problema é a maneira bastante batida com a qual a série introduz Lisa Tragnetti (Alessandra Daddario), tornando óbvia a existência de um caso entre ela e Marty, o que é mostrado de forma bastante abrupta.

Por falar em clichês, Rust também é a distorção do típico detetive que é extremamente solitário, mas é ótimo por conta disso. O que vemos aqui é na verdade o contrário. Ele tem uma mentalidade assustadoramente realista, e por isso sua vida vive em derrocada. Exatamente por isso, True Detective guarda certas semelhanças com Hannibal, embora a forma como os protagonistas são tratados siga direções diferentes.

E isso evidentemente cria um enorme mistério em relação ao destino de Rust, cuja entrevista evasiva confere um certo tom de curiosidade à trama, além de deixar no ar até mesmo a possibilidade dele próprio estar envolvido nos crimes, ou qualquer outra solução planejada por Pizzolatto. Todo o desenvolvimento do caso é pouquíssimo pautado em esclarecimentos, e mais em semear alguns elementos a serem desenvolvidos mais tarde. O que é uma excelente ideia, já que permite que o caso não se sobressaia à competente introdução dos personagens.

Do ponto de vista técnico, True Detective traz uma beleza comum a séries da HBO. Com uma fotografia que consegue capitalizar os sentimentos de cada personagem, como a confortável casa dos Hart ou o opressivo local onde Cohle se encontra com as prostitutas, a série além disso consegue através desse recurso evitar com que o espectador se perca nas idas e vindas temporais da série, já que cada “bloco” tem seu aspecto visual único, o que também é uma característica louvável.

Diante de tudo isso, é inegável que True Detective traga um piloto intrigante e atraente. Ainda que não pareça ter fôlego para se tornar duradoura, é uma série que merece ser conferida, certamente.

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