Uma das coisas que mais mata os fãs de uma série é ter que aguardar as resoluções de cliffhangers em finais de temporada. Para quem é fã de Sherlock, a coisa consegue ficar ainda pior, afinal, temos que aguentar dois anos de espera para vermos a resolução dos ganchos deixados na temporada anterior. Lógico que nunca houve dúvida de que Sherlock havia sobrevivido à queda, porém o que estava nos matando era saber como o truque foi feito. Inúmeras teorias foram boladas e postadas na internet, algumas muito plausíveis outras nem tanto. Eu mesmo nunca consegui desenvolver alguma teoria própria, mas sempre que possível eu ia lendo teorias alheias. A única coisa que eu tinha certeza, era que Molly teria participado, falsificando seu atestado de óbito.
A coisa mais legal nessa season premiere foi o tanto que Mark Gatiss brincou com essas teorias, principalmente na figura de Anderson, mas algo me diz que a resposta não foi dada. Nem mesmo John acreditou na resolução que o detetive contou ao especialista forense, e francamente, a achei meio fraquinha. Espero que o doctor esteja certo e que essa não seja a versão definitiva. De todas as teorias apresentadas no episódio, a que mais gostei foi a primeira, que abre o episódio, com o corpo de Moriarty com a máscara de Sherlock. Embora pouco verossímil foi a mais bem bolada. Só desconfiei que houvesse algo errado quando Holmes beija a Molly na maior pinta de 007. Essa foi só a primeira sambada que o roteiro de Mycro(so)ft Holmes nos deu. Sério, eu já estava feliz da vida achando que o episódio já começaria nos explicando como o truque foi feito.
Outra teoria que vale a pena ser mencionada foi a que a integrante do clube The Empty Hearse bolou. Foi muito cômico, mostrando que Gatiss e Moffat conseguem fazer piada até onde parecia não ter. Claro que eles devem ter lido milhares de teorias pela internet afora, e imagine o quanto eles devem ter se divertido com algumas delas? Provavelmente por isso eles acharam uma boa ideia colocar pelo menos uma teoria estapafúrdia no meio do episódio. Não bastasse aquele bonecão tosco meio tipo Hermes e Renato, com aquela máscara tosca de algodão doce, ainda havia um suposto conluio entre Moriarty e Sherlock, ambos rindo juntos na “despedida” deste com o John. Mas gente, o que foi aquele beijo?! Nova sambada nas nossas caras, senhoras e senhores. Simplesmente adoro como a série nunca perde a oportunidade de brincar com a sexualidade da dupla Holmes/Watson. O que me faz lembrar a cena do doutor com a Sra. Hudson, em que ele conta que vai casar. A reação da dupla em cena foi hilária, e pelo menos para mim, as piadas com a possível homossexualidade entre eles nunca perdem a graça. Agora, com o casamento de John se aproximando, talvez não haja mais vazão para esse tipo de piada, mas se continuar tendo eu não verei nenhum problema.
Deixando de lado as teorias de como o salto foi feito, vamos falar do episódio em si. O título, como todo bom fã de Sherlock Holmes deve saber, faz alusão ao conto The Adventures of the Empty House (A Casa Vazia, no Brasil). Neste conto, Conan Doyle traz de volta o ilustre detetive, após o conto O Problema Final, revelando como Sherl sobreviveu à queda de Reichenbach Falls. No episódio, quando Sherlock está prestes à contar ao John como ele havia sobrevivido, é citado que havia 13 possíveis cenários, e que uma delas envolvia uma luta japonesa. Trata-se de uma referência ao conto original, pois é utilizando uma técnica de luta japonesa (cujo nome realmente me foge no momento) que Holmes se desvencilha do abraço mortal de Moriarty, sendo assim, apenas este cai no precipício. Além disso, ele finge a própria morte, pois a rede do Professor é muito extensa, e ele tira esse tempo para desmantelá-la. No episódio o motivo se mantém fiel, sendo o mesmo, com a diferença de que se passaram dois anos, enquanto que no conto ele finge sua morte por três, mas isso não é importante.
Uma diferença que muitos podem achar boba, mas que eu acho importante destacar aqui é a reação de John ao descobrir que seu melhor amigo não está morto. Enquanto que no conto ele desmaia, no episódio ele fica puto da cara e bate mais de uma vez no detetive. Para alguém que é um ex-soldado de guerra, que é dito com nervos de aço, acho a reação imaginada pelos criadores da série muito mais condizente com o perfil do personagem. Além disso, as cenas de agressões do John conseguiram trazer uma carga dramática, mas estranhamente funcionou com um ótimo alívio cômico também, o que me faz pensar que neste episódio o humor estava muito mais presente que nos outros das temporadas anteriores. Foi realmente um novo tom que eu não estava acostumado com esta série.
Outra coisa que destaco nessa review é a atuação dos protagonistas, mas, principalmente, de Benedict Cumberbatch. Elogiar a performance deles é chover no molhado, isso todo mundo já faz, cada um com suas devidas razões. Mas realmente Benedict tem se destacado e evoluído cada vez mais. Neste episódio ele demonstrou várias facetas, mas o destaque mesmo vai para a cômica, que do jeito que ele fez neste The Empty Hearse ainda era inédito. Visivelmente, o ator está cada vez mais confiante no papel, e o adjetivo que eu usaria para ele neste episódio é abusadinho. Gente, que foi aquela cena do restaurante, em que ele se revela? O disfarce improvisado, o sotaque, os trejeitos, as indiretas, tudo estava engraçadíssimo. Mas a cereja do bolo mesmo foi para as piadas com o bigode de John. Ninguém curtiu o mustache do doutor (e eu também não, ainda bem que tirou), mas as piadas feitas pelo Sherlock foram todas impagáveis. A melhor foi o contraste com o John fulo da vida, quase avançando no pescoço dele e ele não lavando nada daquilo a sério, mas o mais impagável é a cara do Benedict ao perguntar se o John manteria o bigode. Foi simplesmente hilário.
Parece que a adição de Mary ao elenco foi uma outra sacada certeira. A personagem de Amanda Abbington mal chegou e já demonstrou uma ótima química com os protagonistas. Não acredito que a inserção da personagem vá mudar a dinâmica entre Watson e Holmes (embora, quase que certamente eles não vão mais dividir o mesmo apartamento), mas também estou curioso para saber como esse novo triângulo vai funcionar. Uma coisa que já me surpreendeu de cara é o fato de Mary e Sherlock parecerem gostar um do outro, pelo menos até aqui. Estava esperando um relacionamento conflituoso entre eles (provavelmente por causa dos filmes recentes com Robert Downey Jr, mesmo sabendo que as duas obras seguem caminhos consideravelmente diferentes).
Para não dizer que tudo foram flores nesse episódio, confesso que achei o caso semanal beeemm fraquinho. O plot do ataque terrorista foi insosso, e o desarme da bomba uma falácia. Embora eu tivesse certeza que era um plano de Sherlock, a resolução de haver um botão de desligar foi ridiculamente pífia. Até mesmo o clichê de “qual fio cortar” teria sido melhor que um botão de desligar. Ainda bem que esse caso não tomou muito tempo de tela, pois o episódio tinha como proposta mesmo apresentar as discussões do “como” já dito mais acima.
O episódio nos trouxe elementos interessantes, principalmente cômicos, mas sem perder a qualidade com a qual estamos acostumados com a série. Da maneira como eu vejo, Sherlock ainda é uma daquelas raras séries que são unanimidade entre crítica e fãs, e tomara que isso não se perca nunca. Apesar de o caso semanal ser completamente irrelevante até aqui (isso só mudaria se fizesse parte de uma trama maior), a série manteve o bom nível apresentado nos anos anteriores. O que eu espero mesmo é que o mistério da queda seja revelado de uma vez, pois até que se prove o contrário, a versão apresentada até aqui não me convenceu.
Observações elementares:
– Na cena do restaurante, Sherlock usa um disfarce para tentar surpreender John. No conto ele também se disfarça, mas é o oposto, ele quer manter sua verdadeira identidade oculta.
– Sambada na cara de quem leu o conto: No livro, Sherlock se disfarça como um velho corcunda, de cabelo e barba postiça, vendedor de livros. Quase exatamente como o paciente de John (que lembrando, tinha um negócio de livros e DVD), que ele pensou ser o detetive disfarçado.
– Na cena em que Sherlock analisa a Mary, podemos ver algumas informações interessantes, tais como: ela é amante de gatos; ela tem uma tatuagem secreta; romântica; desiludida; ela é enfermeira (como já vimos); Sherlock a julga inteligente e muitas outras coisas.
– Mycro(so)ft aprendeu sérvio. Em duas horas.
– Ótima sacada cômica nos cortes de imagem enquanto Sherlock conta à Mrs. Hudson qual foi a reação de John, enquanto este atendia a seus pacientes.
– Lembrando que Amanda Abbington é esposa de Martin Freeman na vida real.
– Já temos mistérios para os próximos episódios: o sequestro de John e o tiozinho de óculos no final (que parece ser o responsável).
– Não sei porque, mas senti que o novo namorado da Molly é treta, mas pensando bem, acho que estou enganado. Lembrando que Moriarty já foi namorado dela, então não acho que os roteiristas seriam tão repetitivos.
– Molly investigando junto com Sherlock: #fail.
– Adorei as provocações da Mary na cena em que John raspa o famigerado bigode. Eita mulherzinha mais afiada que as lâminas daquele Gillette Mach 3 do John. Tem como não amar já de cara essa personagem?
– Na cena final, pouco antes de Sherlock ir para a coletiva, tem-se o seguinte diálogo:
JOHN: Não finja não estar gostando disso. De estar de volta, de ser o herói de novo. […] Teria que ser idiota para não ver. Você adora.
SHERLOCK: O quê?
JOHN: Ser Sherlock Holmes.
Claro que dentro do contexto do episódio, faz todo o sentido por causa da volta dele e tals, mas eu fiquei pensando se isso não serve para o Benedict em si. Ele ficou quase dois anos longe do personagem, seus recentes papeis (pelo menos os principais) foram vilões (em Star Treck: Além da Escuridão e em O Hobbit: A desolação de Smaug), daí o “ser o herói de novo”. Enfim, o que vocês acham? Estou certo ou só viajando na maionese? Também acham que a história da queda não está toda contada ou se contentaram com o colchão de ar? Não esqueçam de comentar mais embaixo, o espaço é de vocês.
Em tempo 1: “Qual o nome dele, então?” Mrs. Hudson ao saber que John vai se casar.
Em tempo 2: “Eu não sou gay!” John pela 13165413132165 vez tentando afirmar sua heterossexualidade.
Em tempo 3: “Espere. Antes que você faça algo que se arrependa, deixe-me fazer uma pergunta: você vai manter isso aí?” Sherlock sobre o mustache de John.















