Um certo Capitão Rodrigo.
Jaime Monjardim segue demonstrando um grande conhecimento sobre Érico Veríssimo em sua minissérie e apesar de faltar alguns elementos importantes para certos personagens – como Pedro Missioneiro – a qualidade da obra televisiva continua impressionando. O que havia colocado como o maior desafio – contar uma história tão rica e perspicaz em apenas três capítulos – já não parece mais tão difícil.
Começo falando ainda sobre Ana Terra e as cenas impressionantes de Cléo Pires logo após o estupro – impossível não se render a sua interpretação intensa carregada de horror, dor e tristeza. Neste momento, conseguimos entender de forma ainda mais conclusiva a importância da força feminina na obra de Érico Veríssimo, assim como ele a descreveu: “Eu penso nela como uma espécie de sinônimo de mãe, ventre, terra, raiz, verticalidade, permanência, paciência, espera, perseverança e coragem moral” – um olhar que transpassa a ficção e se torna uma “realidade”.
A determinação desta mulher a levou a ser uma matriarca, responsável pela continuidade de sua família, trazendo à tona a profissão de parteira – uma metáfora da sua vida – pois enquanto a tesoura de sua mãe trazia um novo ser ao mundo, ao seu redor as guerras e as revoluções ganhavam força como um tributo à destruição e à morte. Mas nem mesmo toda esta força foi capaz de transformar o seu destino descrito muito bem por Bibiana: “Ana Terra fiava, a roca e o vento – e o tempo passava assim.” O som da roca que assombraria gerações e gerações destas mesmas mulheres fortes. Seguindo essa linha de pensamento do escritor, ele procurou construir sua obra confrontando a visão das grandes sagas e epopéias, construídas a partir de uma abordagem realista dos fatos, desse modo excluindo a voz feminina do discurso oficial.
É neste contexto que surge um certo Capitão Rodrigo, transformando a até então pacata Santa Fé. Thiago Lacerda nasceu para este papel – como ele mesmo afirmou. Em cada movimento, olhar, sorriso está a essência deste gaudério, símbolo do gaúcho, com seu misto de bravura, fanfarronice, generosidade e pensamento libertário e ao mesmo tempo símbolo do macho alfa, sendo audacioso, mulherengo e sempre metido em revoluções. Thiago é brilhante e fica impossível tirar olhos da tela quando ele aparece – e não estou falando de seu estereotipo de beleza e sim de sua interpretação magistral.
Capitão Rodrigo Cambará é um personagem de uma riqueza extraordinária e única, pois representa o “herói dos pampas” com traços mais humanos e diferentes da idealização romântica. Ele não é somente uma figura hipotética do “herói”, mas uma “pessoa de carne e osso”, com suas qualidades e fraquezas. E Monjardim junto com Lacerda se transportaram para dentro do romance de Érico e decifraram de forma magnífica as linhas descritas para este personagem – da sua glória ao seu total fracasso. A cena final deste capítulo é a tônica da minissérie, é a descrição perfeita do que Érico Veríssimo quis nos dizer.
E Bibiana nesta história toda? Bem, ainda vou falar muito deste personagem amanhã, mas deixo aqui algumas palavras: Bibiana é a reprodução de sua avó, tanto na determinação como nos silêncios, no ódio à guerra, na profissão de parteira e na lembrança dos mortos, dando sequência ao arquétipo feminino da obra. Mas seu amor por Rodrigo sempre foi sua perdição, afirmando “ser um vício”. Mesmo com todas as traições que sofreu, Bibiana seguiu amando Rodrigo até o final de sua vida da mesma forma como da primeira vez que o viu. Foi deste fato que nasceu a ideia de contar a história pelas palavras de Dona Bibiana e precisamos admitir, está sendo encantador.
Como já afirmei no começo deste texto, sabemos que faltam alguns elementos importantes da obra de Érico na minissérie, mas ao mesmo, é preciso parabenizar toda a produção, elenco e direção por captarem a verdadeira essência deste autor inigualável chamado Érico Veríssimo. O Tempo e o Vendo é uma agradável surpresa da TV aberta neste começo de ano novo. Espero que possamos ter ainda mais produções com esta qualidade na telinha. E que venha o capítulo final!
“Em O Tempo e o Vento, o heroísmo não é uma exclusividade masculina, ao contrário, o heroísmo feminino é tão ou mais representativo. A mulher é o tempo que fixa raízes, e o homem é o vento, conquistador e passageiro”.
PS. Frase de Érico: “Eu não conto a vida como ela é e sim como eu queria que fosse”.
PS. Frase da Dona Bibiana: Fiar, chorar e esperar, este é o destino das mulheres da família”.
PS. Curiosidade: A Guerra de 1811 foi na Primeira campanha cisplatina, onde as forças portuguesas ajudaram os espanhóis sitiados em Montevidéu a repelir Artigas e os rebelados argentinos, que permaneceram na região com a prática de guerrilhas. Em 1813, Artigas usou a denominação de “Província Oriental” para a região antes referida genericamente como “Banda Oriental”, referindo-se a estar situada na margem leste ou oriental do Rio da Prata.
PS. Outra curiosidade: As mulheres fortes de Érico tem influência direta com sua história pessoal, pois sofreu com a separação traumática dos pais ainda na adolescência, em uma época em que a separação de casais era inaceitável. Érico narra em suas memórias (Solo de Clarineta) a coragem da mãe em tomar a iniciativa da separação e como o pai abandonara a administração de sua farmácia para viver nos bares e bordéis. A perseverança da mãe, que trabalhava como costureira para sustentar Érico e seu irmão Ênio, foi certamente sua inspiração na criação dessas mulheres fortes.





















