Sabe você, que acha que Coven é a pior temporada de American Horror Story? Não clique pra ler esse texto, porque essa review é um tratado da mais pura e completa admiração.
As chamas têm segredos e alguns deles só podem ser conhecidos por quem sucumbe a elas… É como a máxima de que você só conhece a verdadeira força quando passa pelo sofrimento mais profundo. O Sleeping at Last diz em uma de suas canções que “a escuridão existe para a luz valer a pena”. Só estamos de verdade diante do amadurecimento, da evolução, da descoberta do nosso objetivo empírico, quando somos desvirtuados de onde estávamos seja por pressão ou por comodismo. A alma aparece quando está em oposição à rotina.
Não foi só Myrtle que desvendou segredos depois de passar pelas chamas… Vários personagens foram “queimados” e renasceram sobre novas perspectivas. The Head foi mais que um episódio, foi uma fogueirada visceral, que bifurcou trajetórias que pareciam confortáveis, entregando à narrativa de Coven uma verdadeira obra de arte. Foi como distorcer sem compaixão os conceitos de amor, de orgulho, de liberdade… The Head foi o feitiço mais lindo que American Horror Story preparou.
Esse feitiço começou na Grécia Antiga, quando Apolo subverteu as expectativas assassinando a serpente que guardava o oráculo da cidade de Delfos (Delphi). Tida pela Grécia como o “umbigo do mundo”, Delfos era procurada por todos os moradores que desejam uma consulta com as “Sibilas” acerca do futuro. Mas, elas não podiam fazer profecias nos meses de inverno, quando Apollo aparecia entre os hiperbóreos. A mitologia grega é bastante complexa e enquanto em alguns relatos Apollo aparece como o algoz justo da serpente, em outros ele foi punido por isso. A cidade de Delfos pode ser entendida, então, como um símbolo da gênese de bruxaria e Apollo como um Deus que violentou e controlou esse lugar.
Assim, a organização da qual Hank faz parte se desvenda pelo seu nome: Delphi Trust. O episódio escrito por Tim Minear decide começar com um ótimo flashback da infância do caçador, que mostra que seja para caçar alces ou bruxas, os meninos americanos estão sempre precisando se provar com armas. O pai lhe diz “nunca se esqueça quem elas são”, mas de certa forma o episódio vai numa direção oposta. Hank está diante de um grande conflito, entre cumprir seu destino ou se libertar dele em nome do que percebeu sozinho. A fogueira de Hank é o desamor, e esse é o grande segredo que as chamas lhe reservam.
Sua ligação com Delia nunca foi muito presente na série, mas The Head conseguiu estabelecer, pelo menos pra mim, as fragilidades que fizeram com que ele acabasse voltando pra ela. Delia saiu de uma “fogueira”, cega, mas vendo melhor que qualquer um. Agora, depois de ganhar os olhos dos membros do conselho, voltou à escuridão. Porém, a “vingança” de Myrtle é tão fantástica que me deixou extasiado. Um olho de cada um… Arrancados depois de um monólogo quase histérico, coroados com um esquartejamento executado com ares de otimismo. Aos que continuam reclamando de “falta de costura narrativa”, eu sugiro uma boa olhada na sincronia desses eventos: Fiona é a suprema, mata Madison achando que ela é a substituta. O conselho aparece para apurar. Fiona incrimina Myrtle pra se safar e a acusa de cegar Delia, Myrtle é condenada e queimada. Misty a traz de volta e Myrtle leva Misty como candidata a suprema para com isso, aniquilar Fiona. Myrtle se vinga do conselho arrancando-lhes os olhos e os dando à Delia, que antes havia sido o argumento que resultou na fogueira. Se isso não é dramaturgia se entrelaçando, não sei mais o que é.
Pra não dizer que tudo se arranjou corretamente, admito que o plot dos vizinhos ainda parece aleatório. Mas o “ainda” dessa frase é o centro da questão. Mesmo assim, fiquei satisfeitíssimo com a forma como a visita de Nan no hospital, transcorreu. As meninas indo até lá apoiá-la, a mãe fanática reagindo inicialmente com repúdio e depois sendo convencida de que Luke realmente estava falando com ela. Foi bom saber que o roteiro se preocupou em explicar um pouco do passado e da história dos personagens, mas eles ainda parecem desconectados da trama central. Porém, a condução dessa subtrama foi especialmente competente nessa semana, já que a “fogueira” pessoal de Luke foi desvendar a mãe, que inesperadamente, não está disposta a ser dissecada, chegando ao extremo de assassinar o próprio filho. Provavelmente é a partir desse extremo que Joan Ramsey vai se aproximar do núcleo central. E Patti LuPone, que atriz… Sua canção para o filho, embargada, lamentosa, está entre os melhores momentos de toda a série.
E enfim, chegamos ao apogeu desse episódio impressionante… Ri alto quando vi a cabeça de LaLaurie apoiadinha na mobília de Laveau. Ri mais ainda quando ela reclamou que estava com fome e Quennie fez a piada do “Vai comer e cagar pelo pescoço?”. Só isso de ter a cabeça de Kathy Bates falando por cotovelos inexistentes, já é sensacional. Se antes era, agora é uma heresia ainda maior dizer que American Horror Story parou de ousar e surpreender. LaLaurie continua lindamente oscilando entre a ternura e a maldade, fechando os olhos para não ver a maratona de cinema preparado por sua acidental “amiga”.
Não sabemos ainda se o clã de Fiona sabe sobre a Delphi Trust, mas ela se apressou em pedir ajuda para Laveau, que prontamente (e infelizmente), recusou. Pressionado pelo pai, Hank foi buscar entendimentos com Delia. Rejeitado, ainda teve que sofrer as pressões de Laveau, numa ótima sequência de execução do vooddo. Era esperado que uma explosão viria, e na forma dele de entender as coisas, aliviar o lado Laveau seria mais fácil do que livrar-se do pai. Ainda havia uma chance de ele ser o orgulho tão sonhado.
E então, numa convergência de fatos impressionante, LaLaurie precisa resistir ao apelo emocional da canção Oh Freddom, com imagens da grande passeata dos direitos civis dos negros, enquanto no salão de Laveau, Hank alcança o que ele entende como sua “liberdade”, da maneira mais brutal e sangrenta possível. Eu não tenho nem medo e nem vergonha nenhuma de dizer que eu chorei… A cada tiro entrecortado pela belíssima canção, com a cabeça de LaLaurie aos prantos sendo centralizada, com a dimensão do que tudo aquilo representava, era como se todas as maravilhas de American Horror Story explodissem em mim.
Quennie pode ter ido embora e se for o caso, terá sido uma saída muito digna. Desde o minuto em que ela foi colocada diante de LaLaurie, tudo se conduziu nessa direção. Ela era a “fogueira” pela qual a monstra precisava passar e essa mesma monstra era o impulso para que Quennie fosse atrás de seu verdadeiro clã. Uma pena que isso pode ter durado tão pouco, porque a forma com que Laveau chega à escola de Fiona é mais um indício de que a boneca-vooddo pode ter se despedido mesmo da série. Mover Laveau para fora de seu orgulho intocável também foi uma manobra feita do jeito certo: atingir os seus é muito mais eficiente do que atingir ela mesma.
Coven só volta dia 08 de Janeiro e nesse quase um mês de hiato, a guerra se anuncia como o resultado final de todo esse enredo. Ainda faltam quatro episódios e conhecendo bem a natureza digressiva da série, muito pode mudar. Mesmo assim, é como se The Head fosse um tratado de exploração conciso e lúdico de tudo a que se propõe esse projeto: cultura pop, referência literária, abordagem social e filosófica, horror, tudo sendo conduzido com identidade, estética marcada e beleza. Pode parecer absurdo dizer isso de uma série com imagens tão violentas, mas American Horror Story é bela. É a “fogueira” que precisamos enfrentar se quisermos vislumbrar com clareza o paradoxo do mundo: através da fantasia, surge voraz e subitamente, um pedaço da verdade.
“A escuridão existe para fazer a luz valer a pena”. Os clãs foram iluminados, enfim… Coven reinventa a ordem da dramaturgia e me leva junto com ela para lugares onde eu jamais achei que poderia estar. A promiscuidade conceitual de American Horror Story me deleita, e sinceramente, me sinto muito privilegiado por isso.
Potion Number One: Misty precisou chegar na “Academia” para vermos uma aula finalmente acontecer. Momento fofura do dia.
Potion Number Two: Kyle e Fiona… O que pensar?
















