Uma temporada pegando fogo.
É visível a diferença de The Mentalist dos cinco primeiros anos para este. Se a série foi criada por Bruno Heller com o intuito de ser um procedural típico da CBS, com casos da semana mesclados com uma trama principal misteriosa, hoje ela praticamente abandona esse rótulo para se focar apenas no que escondeu de seu espectador por tantos anos. Heller ameaçou construir sua narrativa dessa forma algumas vezes, até que sua criação atingisse a maturidade para engatar diversos episódios com essa proposta. E se os primeiros capítulos de sua sexta (e possivelmente última) temporada ainda traziam elementos de anos anteriores, estes Red Listed e The Red Tattoo cortam cada vez mais o cordão umbilical.
Não é difícil entender por que esses dois episódios são os melhores da temporada, até agora. Ainda que o roteiro dos anteriores fosse feliz em mesclar suas tramas pontuais com o arco principal, o resultado é inevitavelmente melhor quando o foco é em apenas uma direção, permitindo um desenvolvimento ágil e sem percalços. Mais do que isso, essa abordagem permite que os traços dos suspeitos da lista de Jane sejam trabalhados com menor atropelo, tornando-se assim mais críveis e menos artificiais.
É verdade que The Red Tattoo conta com o assassinato de um personagem nada relevante para a trama principal, mas a coincidência do fato do professor de ginástica pertencer à Visualize faz maior sentido do que a desculpa meramente geográfica utilizada por Wedding in Red. Além disso, o caso é todo conduzido de forma diferenciada, pouco se importando com criar uma longa lista de suspeitos, se mostrando rápido e objetivo. Bem como seu desfecho, possivelmente a primeira vez em que um caso termina sem a existência de um culpado, ao menos sem envolver suicídio. Esse final inusitado é suficiente para tornar a história interessante, ao menos.
Já em Red Listed, a história é diferente. Criando uma investigação puramente focada em Red John e no blefe feito por Jane na época que Kirkland invadira seu escritório, o único pecado da trama é demorar a revelar que o agente da Homeland Security é o verdadeiro responsável pelas torturas, já que o espectador já conhece de antemão o fato, ocorrido ainda na quinta temporada. Mesmo assim, ainda que não chegue a agregar muito em relação à trama, é uma história bem conduzida, que aproveita para trazer de volta alguns personagens, como Hightower, que surge irreconhecível (não é o forte de The Mentalist ser coerente com certos personagens).
Mas isso é importante para descartar Kirkland como Red John. O curioso é que, dentre os sete apresentados, ele é o único “flagrado” pelas câmeras exercendo atividades suspeitas, ainda que, na distorcida lógica de The Mentalist, isso somente significasse que as chances de ele ser o serial killer eram mínimas. Nesse aspecto, Heller encontra uma boa solução, tornando-o mais uma figura em busca de vingança contra o assassino. Uma espécie de versão sem escrúpulos de Jane, o que justifica seu desejo para que o consultor termine seu serviço após ser preso. Na verdade, é importante notar como Red Listed não segue a tendência dos três episódios anteriores, e não se esforça para mostrá-lo como um suspeito, apenas dando continuidade à sua personalidade naturalmente dúbia introduzida desde sua primeira aparição.
Aliás, não é apenas com Kirkland que The Mentalist toma tal atitude. Em The Red Tattoo, vemos Haffner agindo exatamente como sempre agira, sem se tornar excessivamente suspeito. Mesmo o momento em que mostra ter terror de aranhas é posicionado de forma natural, ao contrário do que vemos com McAllister em Wedding in Red, por exemplo. Assim, o episódio consegue não descartá-lo como suspeito sem precisar lembrar o espectador a todo momento de que ele é um dos integrantes da lista. Além disso, é inteligente a forma encontrada para explorar Bret Stiles sem mostrá-lo em tela, tornando seu desaparecimento bastante suspeito por conta do momento em que ocorre, mas novamente sem precisar fazê-lo tomar atitudes que sejam exageradamente dignas de desconfiança.
Da mesma forma, The Red Tattoo sempre consegue inserir seus elementos de continuidade de maneira natural. A forma com a qual o assassinato de Kirkland é levantado, por exemplo, é extremamente competente, já que é executada já no meio do episódio, em uma conversa quase casual. Assim como a escuta plantada por Kira Tinsley, cuja existência inicialmente parece ser apenas para encontrar um par romântico para Cho, visivelmente ciumento após o casamento de Rigsby, ainda que essa trama específica seja facilmente o ponto mais fraco de The Red Tattoo, assim como a falta de sexo do novo marido é o ponto baixo de Red Listed.
Já ao final de The Red Tattoo, vemos o assassinato de Kira e a revelação de que Red John supostamente tem uma tatuagem no ombro esquerdo. Confesso não me recordar se algum dos suspeitos da lista de Jane já foi mostrado sem camisa (acho que não), mas a maneira com a qual a detetive particular morre insinua que essa morte pode não ter sido causada especificamente pelo serial killer, que já utilizou fantoches para diversas outras situações. Dessa forma, The Mentalist segue sua mania de criar cliffhangers que podem ou não significar alguma coisa em um momento futuro, um artifício de Heller para se preservar e impedir uma obrigação de que tudo faça sentido em algum ponto.
No que diz respeito às teorias sobre quem é Red John, vejo algumas pessoas depositando suas fichas em Partridge, que não estaria morto. Se for o caso seria um grande tiro no pé pela parte de The Mentalist, já que envolveria a existência de uma série de incompetências das pessoas que cuidaram do corpo do legista. Não costumo opinar sobre teorias por acreditar que, no fim das contas, elas agregam apenas no âmbito da curiosidade, e não em relação à minha opinião sobre a série, que é o propósito desse espaço. Além disso, a série tem um grande costume de tomar decisões aleatórias, o que me dá a impressão que, no fim das contas, Red John será quem Heller decidir que é, sem preocupações com o tamanho do sentido que isso fará.
De toda forma, é inegável que The Mentalist esteja apresentando uma temporada muito bem construída em torno de sua trama principal. O importante é que continue assim até sua apoteose. E tenho a impressão que continuará.















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