Burocratizando Dracula.
Vampirismo é transgressão, vamos primeiro estabelecer isso? Enquanto as pessoas respeitam as convenções e as leis da natureza, os vampiros desafiam o tempo, confundem elegância com selvageria e furtam das coisas naturais as suas verdadeiras funções. Sem sangue você morre, com sangue eles vivem. O sol nos aquece a eles, queima. A noite é nosso convite à resignação, para eles é a temporada de caça. Ninguém deveria nascer para viver para sempre, e por isso eles não nascem, são transformados com o preço da meia-morte. Os vampiros são fascinantes porque transgridem.
Anne Rice entendeu isso muito bem… Ela é a responsável – depois de Bram Stoker – pela difusão da mitologia dos vampiros na cultura popular e respeitou exatamente essas origens transgressivas, somando a isso uma boa dose de sedução e glamour. Hoje vivemos uma espécie de “crise mitológica”, com obras como a de Stephenie Meyer manipulando as regras de maneira a encaixá-las numa forma mais “certinha” de lidar com as criaturas. A saga Crepúsculo revestiu os vampiros de um excesso de valores e morais que não condizem com sua origem, visando não só o respeito de sua autora à sua religião, como também alcançar o público juvenil sem preocupações com as classificações etárias.
A primeira cena de Dracula nos remete a uma coisa que vemos em quase todo filme que aborda criaturas fantásticas: o pesquisador ou caçador ou herói ou intrometido, que “acorda” o demônio sem ou com intenção de fazê-lo. Isso não foi um bom sinal, eu devo confessar. Diante de um ícone como esse, tantas vezes revisitado, a gente começa sempre achando que alguma coisa nova vai justificar esse remake. Não foi o caso no teaser de abertura, embora o anseio tenha sido mantido no que se desenvolveu em seguida.
Dracula começa em 1881 e pula para 1896, quando o vampiro já está tentando se impor na sociedade londrina pela figura do forasteiro Alexander Grayson. Toda a primeira metade do episódio se dedica à introduzir o personagem não sob a perspectiva do vampiro, mas do homem de negócios, que soa como uma versão masculina e retrógrada de Emily Thorne, agindo sorrateiro entre os poderosos da cidade, querendo atenção e planejando vinganças. Sim senhores, toda a motivação aqui é a boa e velha vingança.
Dracula é uma série que não tem medo de ser referencial. Ou pelo menos não parece ter… Só isso explicaria a obviedade da dramaturgia, que traz um “monstro” com desejos humanos, dificuldade de controle de seus impulsos e com o intuito de vingar a morte de sua amada, que – é claro – tem a mesmíssima cara de uma personagem que circula na sociedade londrina, a cândida Mina. Mina – é claro – tem um namorado e o namorado – é claro – se torna uma espécie de “liga” entre ela e o intruso. Além disso, Graysson luta contra uma sociedade secreta chamada Ordem do Dragão, que possui registros históricos reais e ligações insinuadas com a família do Conde Drácula. Isso é o suficiente para sabermos que olhares misteriosos são trocados entre os membros da Ordem e que alvos são demarcados imediatamente.
Essa burocratização do mito é perigosa, porque mesmo que Jonathan Rhys Meyers (numa interpretação óbvia) apareça dando umas mordidinhas de vez em quando, seu fake profile é um sujeito que busca eliminar a força da Ordem por vias monetárias. Para isso, ele surge com uma fonte de energia alternativa que contradiz os métodos que enriqueceram os tais homens. Por alguns momentos, ele soa realmente como um personagem novelístico da ABC, e dai então tudo escurece, uma paisagem nublada aparece, Dracula sobe num telhado e nos lembramos que esse deveria ser um drama histórico focado numa criatura violenta e instável.
No que diz respeito à estética, fica muito evidente que eles buscam excelência. Há um investimento em ambientação cênica, com a cidade aparecendo em boas tomadas panorâmicas e aquela exploração clássica da antiga Londres cheia de sombras e nuvens. O baile do início do episódio é realmente muito bonito e as cenas de sangue são bem feitas. Eu dispensaria a luta no telhado naquela vibe Matrix, mas não foi nada tão terrível a ponto de estragar totalmente as coisas.
A moda de distorcer relações históricas também chegou aqui e o twist que pretendia garantir os fãs para episódios futuros interligava Dracula e Val Helsing de uma maneira que – aí sim – soa ligeiramente desafiadora. Também há um flerte com uma discussão sobre espécies que talvez possa nos dar algum caldo, e sobretudo esses roteiristas precisam entender que os aspectos mais interessantes dessa história são aqueles que lidam com o vampiro. Em toda essa estreia, o que mais me seduziu foi a cena em que, numa conversa com Jonathan, Graysson faz o que pode para fugir da luz do sol que entra por uma janela que não deveria ter sido aberta. Uma adaptação deve sempre buscar a ousadia, a transformação, mas jamais pode esquecer o ingrediente mais importante de todos: a reverência.
Bite Me: A referência a Jack, O Estripador foi até charmosa.















