Porque Rachel é muito mais do que uma Lea Michele.
A fé é a propulsão interior mais linda da humanidade, porque ao contrário da fácil crença em tudo aquilo que se vê e se toca, a fé exige uma confiança extrema, porque por conceito estabelecido, ela existe por coisas que são tão abstratas quanto o ar. Pode parecer absurdo, mas o criador da série Glee e um dos maiores nomes do teatro contemporâneo, tem uma grande coisa em comum: a busca pela “fé cênica”, pela “verdade da ficção”.
Durante a exibição do reality The Glee Project, Ryan Muprhy ficou conhecido por suas estranhas exigências de inspiração. Procurava por atores que se encaixassem nas expectativas que ele tinha para as próximas temporadas, e fazia isso reafirmando o tempo todo que cada um dos personagens da série nasceu de uma vertente social muito específica. Cada um deles falava para um tipo, para um medo… Para uma verdade.
No teatro, a gente aprende muito cedo a lidar com um moço chamado Constantin Stanislavski, que após se tornar fundador do Teatro de Arte de Moscou, lançou livros que ensinavam técnicas curiosas para a preparação do ator e a criação de seus personagens. A maior técnica acerca de Stanislavski é evitar a técnica, ironicamente. O diretor não acreditava em representações da emoção, e sim no reconhecimento dos impulsos físicos e mentais que levavam a ela. Ele acreditava em fé, em verdade. Ainda que apoiada na interpretação, que é por definição, uma mentira.
Grandes artistas estão sempre assim: contornando a base definitiva da fantasia (mentira) para torná-la realidade. Porém, não através do fato e sim do tato. Importa mais fazer o espectador sentir como se revivesse uma perda, do que obrigá-lo efetivamente a perder algo. Stanislavski dizia que “uma verdade artística é difícil de desencavar, mas nunca perde o interesse. Vai se tornando cada vez mais aprazível, penetrando cada vez mais fundo, até envolver totalmente o artista e também o seu público”. A maneira como Glee escolhe seus personagens e seus atores, não passa da mais pura e honesta tentativa de alcançar os estágios mais próximos da verdade.
Não pensem que ao bater o pé para que seus candidatos vestissem estereótipos, Ryan Murphy estava sendo só preguiçoso. Tudo, absolutamente tudo na sociedade, se constrói a partir de modelos. E ele sabe disso. Ninguém é 100% original, ainda que se tenha epifanias de originalidade baseadas nas referências que constituem o que você é. Na juventude, principalmente, e por menos que os jovens queiram admitir, as personalidades estão longe de serem autênticas, e procuram desesperadas por focos de identificação. Tio Ryan não construiu um império sendo apenas um comerciante de entretenimento. Ele sabe sobre o ser humano, e sabe como falar com ele.
A partir dessa teoria, poderíamos falar sobre qualquer ator ou personagem de Glee. Todos eles foram procurados por suas semelhanças com a verdade. Todo ator, procura antes dentro de si mesmo por aspectos que lhe ajudem na sua construção. O que fica faltando, ele vai buscar do lado de fora. Falaremos sobre Rachel porque ela é o caso mais absoluto de verdade pessoal e verdade cênica, e é sobre ela que recaem todas as piores conclusões acerca dessas semelhanças. O trabalho de Lea vem sendo desmerecido temporada após temporada, simplesmente porque se encara sua maior força, como sua maior deficiência.
No vídeo acima vemos Lea ainda criança, falando sobre sua rotina insana de pequena estrela da Broadway. Aos oito anos ela fez uma audição por acaso e ganhou um papel importante na indústria dos musicais. Ela imediatamente se apaixonou. No vídeo vemos uma Lea infantil, que se aproxima muito do que Rachel mostrou nos primeiros anos de Glee. Uma menina prolixa, ansiosa por ser ouvida, por ser elogiada… Quem não é artista não sabe, mas a arte é uma angústia exigindo constantemente a liberdade, a exposição. Lea se atrapalha porque se sufoca pela própria noção de suas capacidades. Ela é uma criança com um prodígio artístico e inevitavelmente, se torna estranha e irritante.
Mais tarde, depois que Glee já tinha estreado, Lea disse numa entrevista com Ellen que muito de sua versão infante se refletiu em Rachel. É uma colocação totalmente coerente. Foi como já disse: olhar primeiro pra dentro e colher. No entanto, havia outros aspectos de Rachel que não faziam parte da história pessoal de Lea, e então ela precisou entender o que ficou faltando, e olhar pra fora. Rachel morava em Ohio e nunca, nunca mesmo, tinha conseguido exercer sua arte de modo pleno. Ou mesmo se apresentar para grandes plateias. Ela não era reconhecida e nem recebia atenções. Essa “verdade”, não era parte do que Lea era. Essa “verdade” fazia parte das ambições de Ryan Murphy, era o pedaço que ela precisaria reconstruir, para que o criador do personagem pudesse se comunicar.
O vídeo acima, infelizmente, não está legendado, mas nele Lea conta como foi seu processo de audição para a série. Novamente, Murphy explica que estava atrás de alguém que pudesse ser o porta-voz de uma legião de talentosos reprimidos pelo estigma de loser. Murphy, como contador de histórias (e também como artista), sabe que o espectador se deixa dominar por uma trama através até mesmo de pequenos detalhes, como a aparência de um ator, ou como ele se comporta fora de cena. Encaixar Rachel em Lea não era “mais fácil”, era mais eficiente. Lea tinha muito do que Rachel precisava, e como artista (antes de tudo), tinha condições de completar a personagem com o que ficava faltando. “Um papel construído a base de verdades cresce, ao passo em que fenece o que se baseou em clichês” (Stanislavski). O conhecimento de uma essência, aproxima o ator da reprodução desses impulsos. E não senhores… Administrar tudo isso, não é nada fácil.
Quando Glee começou, Rachel era a exemplificação absoluta daquele tipo de aluno-sabe-tudo que todos nós queríamos matar quando estávamos na escola. Na maioria das vezes, a necessidade de demonstrar inteligência o tempo todo é insegurança, e essas pessoas trocariam qualquer enciclopédia por um amigo. Iguais à Rachel existem muitos, mas ela ainda tinha um adendo preocupante: talento. O dom é uma força eruptiva que se não encontra passagem, enlouquece. Mentirosos compulsivos podem não passar de atores frustrados. E quando a arte te escolhe e te chama… Meu Deus… É como uma angústia que nunca passa. São 24 horas do dia, todos os dias, fantasiando e imaginando com tudo aquilo que você gostaria de viver.
Lea Michele não precisou almejar a Broadway, porque a Broadway a encontrou quando ela tinha oito anos. Ela não precisou fantasiar o aplauso, porque ele veio rápido e cedo. Sendo assim, a ansiedade, a angústia, a expectativa, a loucura de Rachel são mérito de uma construção que não parte do interior de Lea, mas sim do olhar que ela faz do mundo. É isso, e exatamente isso, que faz com que essa seja uma personagem que confirma o talento da atriz, e não o oposto.
A catarse alcançada por essa apresentação de Don’t Rain on my Parede, na metade da primeira temporada, só seria possível se nós torcêssemos por Rachel, e a revelia de toda a irritação, nós torcíamos. E torcíamos porque Lea defendia o texto de Murphy como ninguém, reconhecendo-se na personagem, usando essas semelhanças para moldar tudo aquilo que a própria história não entregava. Quando Rachel conta que fantasiava com o próprio enterro ou quando leva um tapa de Quinn e diz “apreciar o gesto dramático”, ela está transmitindo os pormenores já mencionados desse imenso e angustiado talento, que não fazem parte da rotina de sua intérprete.
Além disso, jamais conseguirei entender como uma personagem tão cheia de camadas pode ser considerada pedante. Ela é estridente e falastrona, mas não é só isso. Ela tem aspectos fascinantes de oscilação, indo da inveja à compaixão em segundos. Ela nunca é apenas mocinha ou apenas vilã, ela nunca é totalmente amiga e nem totalmente inimiga. Ele é complexa, imprevisível e até indecifrável, como os mais interessantes personagens devem ser. Mas acima de tudo, Rachel tem um sonho, um sonho imenso, que lhe consome e lhe impulsiona, e é um sonho de mágica… Sabe aquela mágica de fazer a arte que nos arranca lágrimas no processo?
Nem todos se emocionam ao ver uma apresentação como essa de O’Holy Night, tão cheia de competência vocal e sensações quase palpáveis… Ainda assim, deveria ser facilmente reconhecível que Rachel é tão fascinante em sua loucura e ansiedade, justamente porque só quer ter a chance de nos emocionar. O artista quer aparecer sempre, é claro, mas a vaidade dele é mais bem acarinhada com o arrepio que seu trabalho provoca, do que com o aplauso aleatório. E passo a passo, detalhe por detalhe, Rachel foi sendo construída assim: para realizar um sonho, nos emocionar no processo, e inspirar outros sonhadores.
Ironicamente, numa virada real tão mais dura que qualquer cliffhanger, Lea se viu obrigada novamente a olhar pra dentro e procurar partes de Rachel que usassem a emoção de sua criadora, mas que fossem partes únicas, que lhe proporcionassem viver a perda de um amor de modo distinto. Claro que estou falando de sua atuação no episódio em tributo a Cory Monteith, em que as dores estavam misturadas, mas que precisavam mais do que nunca, se diferenciar. The Quarterback foi feito para fins terapêuticos, mas também por uma questão prática. Lea teve que adiar seus sofrimentos para viver os de Rachel, e encontrar na semelhança das tragédias, a diferença das reações. Um movimento que ainda considero hediondo do ponto de vista emocional – obrigá-la a passar por isso – mas que independe da nossa ingênua maneira de ver o mundo do showbizz.
No entanto, o esforço não é reconhecido apenas pelo nosso olhar panorâmico. Ao aparecer em The Quarterback, Rachel invocou seu passado, sua ingenuidade, que se imprimiram na sua voz, no seu figurino, no seu cabelo… A dor de Rachel era diferente e mesmo devastada, Lea abriu caminho com foices para tentar chorar como Rachel, cantar em meio as lágrimas como Rachel, viver a morte de um amor sob a perspectiva de Rachel. E pra mim, ela conseguiu. No auge de seu completo controle vocal, Lea foi Rachel como há quatro anos. Voltou à gênese da personagem que ela construiu e que pode exatamente por isso, manipular.
Ser responsável pela costura narrativa de Glee não é um acaso. Rachel tem a responsabilidade de mostrar a jornada de quem tem um sonho, mas quer passar da etapa da inspiração. E um personagem como ela, que irrita, que vilaniza, que erra, sempre será mais interessante do que o modelo pré-estabelecido de mocinhas épicas. Rachel ser chata faz parte do show. Principalmente porque ser chata é só uma de suas obrigações. Nos seus passos por Nova York no final da terceira temporada, havia uma personagem pronta e dominada… Dominada por uma atriz que já tinha chegado ali naquele sonho há anos, mas que tinha a “fé cênica” necessária para fingir que não.
E que atriz Lea Michele é, por conseguir transmitir tudo isso tão bem, a ponto de fazer com que as impressões sobre o que ela é, se misturem ao que ela faz. Por conseguir se tornar um ícone, um pedaço da cultura pop, uma tendência. Ela nunca vai ser menos atriz por ser um pouco Rachel… Porque todo ator é um pouco de seu personagem. Lea não precisa ser Rachel por inteiro, porque essa personagem é bem escrita demais, e tem sua própria mitologia. Como disse Stanislavski no início desse texto, Rachel é uma verdade cênica, que penetrou muito fundo no artista e no público, difícil de desencavar, mas que nunca deixará de ser interessante.















