Bebidas, drogas, jogo, armas, investimentos em territórios, entretenimento, esportes… Boardwalk Empire querendo abraçar o mundo.

Toda vez que fico diante de uma review de Boardwalk, luto com dois imensos impulsos críticos. Algumas séries fazem isso com a gente… Se tornam impositivas na forma como nos atingem. O primeiro impulso é o de falar muito sobre a frouxidão do planejamento da série, sempre se jogando para todo tipo de direção. O outro é o de compará-la com outro trabalho de Terence Winter, que percebo assombrando a obra desde sua estreia, mas que evito com mais ardor, porque sei o quanto deixa todos vocês irritados.

Reviews duplas são sempre complicadas de fazer, mas essa ganhou uma perspectiva interessante, porque representa categoricamente, a presença de fatores que tornam esses dois impulsos mencionados, quase impossíveis de se ignorar. O primeiro deles – a questão do planejamento – tem mais importância nessa discussão, porque Boardwalk Empire continua fazendo de suas temporadas, um ciclo de novas investidas, sem costuras dramáticas realmente marcantes. A cada novo ano tudo se apóia em quem chega como elenco novo, enquanto já sabemos que todos morrerão e tudo começará do zero na temporada seguinte.

No episódio Acress of Diamonds vimos Nucky renunciar ao que ele mesmo – e a série – tinha proposto na premiere: viver sob controle de danos, sem grandes expansões, apenas lidando com o que já tinha sido proposto. Claro que é absolutamente natural que o protagonista, sendo um criminoso, busque novos horizontes, mas em se tratando de Boardwalk, a gente já sabe no que isso vai dar. Novos rivais vilanizados, novas amantes e novos negócios mal executados. Tudo com data certa pra terminar e pra morrer.

A viagem a Tampa tem um propósito bem específico para Nucky: novos horizontes. Horizontes que ele primeiro vai rejeitar e depois, claro, abraçar como uma nova chance de poder. Tudo é conduzido de maneira esperta, mostrando Bill, o amigo de Nucky, tentando lhe colocar numa situação perigosa, apenas para conseguir com isso, salvar-se de uma dívida. Nucky se comporta como tem se comportado desde o início da temporada, com certa resignação, olhando as coisas de fora, panoramicamente, conseguindo com isso detectar qualquer distúrbio. O negócio termina não sendo interessante para ele pelas razões esperadas, mas por enquanto, ainda não dá pra dizer que essa será uma trama a longo prazo.

O episódio divide suas atenções com Narcisse, que tirando as citações bíblicas e o jeito prolixo de falar, quer o mesmo que todos os outros vilões das temporadas passadas queriam: superar alguém. No caso de Narcisse parece ser Chalky, mas até chegar à Nucky é só uma questão de tempo. Embora a atuação de Jeffrey seja ótima, Narcisse é um personagem nascido para Emmys e para promover choques. Boardwalk adora fazer isso e tirando pelo que aconteceu à Bobby Canavale na última premiação, é bastante competente nesse exercício.

Flutuando em meio à completa irrelevância, estão Gillian e Richard. Ela não fazendo nada mais do que já está acostumada a fazer: seduzir. Brincou de ser esposa e terminou se drogando no banheiro, após ter seu passado vindo bater à porta. Já sobre ele nem sei mais o que dizer… A impressão que dá é que mesmo não conseguindo dar ao personagem nenhuma função justa, os roteiristas também não querem se desfazer dele. E Richard fica ali, tentando fazer poesia com o sangue, ganhando elogios de “ele é foda”, sem fazer nada de verdade pelo desenvolvimento do show.

E então temos outro novo personagem, Willie. O filho de Eli chegou para viver pelo legado do pai, claro. Qualquer outra série violenta que já não tenha feito isso, que atire a primeira pedra. Sabe aquela que vocês odeiam que eu cite? Fazia isso o tempo todo, e por uma razão muito simples: não é fácil ser filho de um criminoso, porque ou isso te envergonha imensamente, ou te dá uma deleitosa sensação de poder. Obviamente que todas as obras sobre o mundo crime escolhem sempre a segunda opção. Isso nos leva  ao episódio All In, em que o papel de Willie na temporada ficou ainda mais específico.

Até o episódio passado, o personagem era só mais um loser sendo humilhado por conta de ereções involuntárias no campus da faculdade. Aqui em All In, no entanto, as coisas se confundem um pouco. Willie se vinga querendo provocar só um piriri, e termina se sujando de sangue pela primeira vez. Índole insinuada acho que não precisa se esforçar muito pra saber para qual direção isso vai no fim das contas.

Evitando novamente citar aquele outro trabalho de Terence que vocês odeiam que eu cite, posso dizer que a reunião do FBI no início do episódio foi bastante familiar. Assim como a decisão de investir em “elos frágeis” nas relações dos mafiosos. O empregado de Nucky deu o azar de ser chapa de um Capone por um dia, mas a abordagem sofrida por ele no final do episódio invocou uma série de semelhanças que também antecipam o destino da temporada. Previsibilidade começa a ser um problema.

Esperando quatro temporadas pra ver Capone ser o bandido pelo qual foi lembrado, e parece que talvez isso aconteça agora. Nelson (que agora é George) continua com aquela cara de cachorro manco, mas ao menos é inserido dentro da dramaturgia central. Nesse episódio, a preparação para a aproximação definitiva com os italianos só foi reafirmada, mas é sempre interessante ver como a violência é quase inerente à estrutura física daqueles homens.

Por fim, Narcisse quer entrar no mercado das drogas, e com seu discurso quase sussurrado, adianta a megalomania de seus planos. Do outro lado, Nucky se indispõe com Arnold humilhando-o na mesa de jogo, e firmando uma parceria sombria com Meyer. Narcisse fala em supremacia negra, mas trata os negros como se fosse melhor do que eles, como se todos fossem seus alunos. Nucky fala em ficar onde está, mas muda de ideia e já começa a fragilizar relações que resistiram até mesmo à quase derrota no ano anterior.

Não pensem que não entendo que tudo está estabelecido, que toda a fundação da temporada está impressa aqui. Acho que a questão é maior que essa, porque até agora (e ao contrário do que insinuou a premiere), a série parece apenas incutir novos personagens paralelos e repetir as mesmas dinâmicas. Posso me enganar, claro, e espero terrivelmente por isso. Por enquanto, não vou criar grandes expectativas… No final da temporada tudo zera, e podemos esperar as mesmas historinhas no ano que vem.

Boardwalk Steps: Patricia Arquette apareceu para… Para quê mesmo?

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