Tudo será sempre uma questão de envolvimento.

Não vamos nos enganar de que os realities show nasceram no mundo para oferecerem uma nova perspectiva narrativa. Ledo engano… Ainda que as vidas que discorrem na TV sejam “vidas reais”, sem gente que vai despir o figurino e sair do estúdio, os realities apenas descobriram um novo tipo de elenco, que não exige pagamento, e que conta, no fim das contas, a mesma história de superação que faz parte da dramaturgia desde que o mundo é mundo. O que o “show de realidade” quer, é fingir que faz parte da ficção.

Talvez essa seja a razão pela qual o X-Factor lança mão tão imediatamente, de uma série de recursos super-eloquentes, que enfeitam os participantes/personagens com os mesmos itens que nos pressionam na ficção a nos envolver, a nos emocionar. E nada me faz achar que tudo isso não seja proposital… A cada ano o The Voice se reafirma mais na crítica especializada, mas o X-FActor não busca readaptações elegantizadas. Ele se apressa, já no primeiro episódio, na direção do drama e da comoção, se atropela um pouco, mas consegue enfim, o efeito desejado. O The X-Factor está de volta, e quem não curte os clichês da alma e as vulgaridades do coração, dê meia volta e não olhe pra trás.

Foi um início provocativo… Não com relação às performances, mas enquanto no ano passado uma apresentação longa e escandalosa dos jurados servia para promover Britney, nessa estreia nada de perder tempo com isso. Foi tudo tão rápido que pareceu até desprevenido. Mario Lopez voltou pra narrar o backstage, mas, além disso, poucas transformações foram feitas na estrutura da edição. Mudaram apenas a ordem com a qual a história do candidato é apresentada (agora no meio da conversa com o painel), provavelmente na mesma busca por mais impacto narrativo.

E começamos com o jovem Carlito, que é claramente um retardatário apenas para que o público se assente e raciocine direito sobre a volta do show.  A apresentação dele não tem realmente nada de tão especial, mas vale pela forma original com a qual ele interpretou a canção de Rihanna:

http://www.youtube.com/watch?v=7k3j8flEACc

Mas a edição não espera muito para começar com suas correlações e apelos dramáticos. Ao palco chegam Sally e logo depois, Lillie. As duas tem mais de cinquenta anos, mas uma eternidade de pormenores lhes separam. Sally tem o melhor dos espíritos e não percebe que é ele que alegra as pessoas, e não sua música. É emocionalmente mais jovem que Lillie, mas menos talentosa. Já Lillie parece fisicamente muito mais jovem, mas é profissionalmente madura.

Sally tem mais de cinquenta assim:

http://www.youtube.com/watch?v=POu8_LBwuGI

E Lillie tem mais de cinquenta assim:

http://www.youtube.com/watch?v=o3U4kxuBfIo

Sally não consegue, claro. O mais interessante sobre Lillie é que além de despertar o interesse de Simon mesmo antes de começar a cantar (Paulina ia liberá-la pra começar e ele interrompeu, interessado em mais perguntas), ela é profissionalmente madura, mas longe daquela austeridade que costumamos ver nos participantes do The Voice. Lillie é uma Judith Hill sem trato. Tem mais a ver com o Factor porque se enquadra nas expectativas menos acadêmicas do show. E isso não é uma crítica, de modo algum. Se ela entra com o figurino errado, se comove demais na música, consegue ovação dos jurados e o faz enquanto uma trilha exagerada reclama por lágrimas do espectador, ela não está no caminho errado, muito pelo contrário. Lillie pode entrar na briga para conseguir “fazer” a terceira edição do X-Factor. É gente assim que o programa quer. Além dela ser obviamente boa.

Também tivemos Alex e Sierra, um casal cheio de potencial “Luã & Vanessa” e com o plus de serem ótimos. Sierra, aliás, é bem mais estranha que o namorado. Ele já tem um senso de humor bonitinho e entende que a força da dupla está no timbre peculiar dela, que me lembra muito a moça do Of Monsters and Men.

http://www.youtube.com/watch?v=w9JDrf1QBO4

A versão de Toxic não Britney e nem é Glee (que fez uma danada de boa também), mas resvala numa coisa meio folk que realmente impressiona. Além da estranheza do dois, eles também parecem uma resposta involuntária à produção do show, que tenta tanto ficcionalizar a narrativa, mas de vez em quando dá de cara com tipos assim, que não abrem mão dos maneirismos de quem saiu realmente de um pedaço pouco glamoroso da vida.

O recibo foi assinado na última audição do dia: Rion Paige tem 13 anos, cabelos meio Carrie Bradshaw e uma deficiência que amplia sua importância no curso dos acontecimentos. Tudo quer fazer parecer que a deficiência dela não é preponderante, mas no final das contas sempre é. Como todos que vivem uma existência deslocada (num mundo nada preparado para a diferença), a menina se compensa com humor e expansividade. Esse pode ser seu grande problema, já que daí pra pisar no terreno da superficialidade, não é preciso muito.

http://www.youtube.com/watch?v=11oMu365xYU

O talento dela é visível e se tornou forte candidata a “criança idolatrada”, categoria indispensável numa temporada do X-Factor. Ainda bem, a comoção do painel foi centrada. Painel esse que não se mostrou muito nessa estreia. Simon e Demi realmente parecem muito à vontade e são um frescor para os fãs, que precisam de uma sensação de familiaridade para continuar se envolvendo com o show. Kelly também parece interessante, e Paulina, como era de se esperar, continua uma incógnita. O futuro desse painel depende, acima de tudo, de sorte. Ano passado forçaram demais a presença de Britney, e tudo que deu certo só deu porque surgiu com naturalidade. Já entenderam isso ao demonstrarem cuidado com a super promoção do júri…

Foi uma premiere rápida e ligeiramente estanque. Porém, enquanto as comparações de audiência servirão para desacreditar o programa, ficou pra mim uma sensação de “era isso mesmo que eu queria”. A saudade era  imensa e esse já é meio caminho andado pras boas sensações. O X-Factor sabe que não é tudo uma questão de talento… Para se envolver é preciso torcer. para torcer tem que haver desnível e o desnível é a base fundamental de todas as dramaturgias do mundo. Se tudo fosse bom ou se tudo fosse ruim, jamais haveria o prazer da superação.

Bem-vindo de volta, X-Factor.

Notas de uma Britney recalcada: Clipe com vários grupos se dando mal… Claro. Todo mundo quer ser One Direction ou chegar tão longe quanto o Fifth Harmony.

Notas de uma Britney recalcada 2: Paulina já teve um bordãozinho reiterado pela edição. Minha torcida por ela não é a do oba-oba.

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