Como Dexter pretende encerrar sua jornada?
A oitava temporada de Dexter conta com uma estrutura narrativa bastante diferenciada em relação a outros anos. Como parte da necessidade de encerrar todas as tramas, a série preferiu dividir seu último ano em duas partes: uma explorando a crise de relacionamento entre Deb e Dexter, e outra dando moldes finais à jornada de seu protagonista. O que tornou uma trama já incongruente em algo apressado e desarmonioso. Mesmo assim, se levarmos em conta o que a série apresenta em temporadas particularmente ruins, como a sexta, é inegável que episódios como Dress Code tenham função bem definida e acertem em determinados pontos.
O episódio, escrito por Arika Lisanne Mittman, é consequência direta dos acontecimentos de A Little Reflection, trazendo os motivos para Hannah ter drogado Dexter e Deb, que passam por seu novo marido, do qual ela pretende se livrar. Enquanto isso, Dexter enrola para começar suas “aulas” com Zach, o que irrita o garoto a ponto de fazê-lo ir a seu apartamento. Já Masuka volta a se conectar com sua filha, chegando a oferecer a ela um emprego na Miami Metro, como assistente.
Um dos problemas que acompanham Dexter desde o início da quinta temporada é o fato de a série sempre precisar apontar o óbvio, jogando para o alto qualquer sutileza e expondo cada detalhe de uma cena através dos pensamentos de seu protagonista. E, nos últimos episódios, isso tem incomodado menos, especialmente pelo menor número de aparições de Harry e pelo fato de a trama não necessitar de tantos momentos de descoberta. Isso é um acerto deste oitavo ano, que se propõe a desenhar suas tramas sem exposições invasivas, o que consequentemente torna a trama mais fluida e ágil, diminuindo a sensação de arrasto vista em anos anteriores.
Mesmo assim, Dress Code traz diversas conveniências. O simples fato de Jacob saber que Hannah havia se encontrado com Dexter, sem maiores explicações, é uma delas. A série tenta vender a imagem de que o dono de cassinos é uma pessoa perigosa e onisciente, mas o faz sem sequer introduzir o personagem apropriadamente, esperando apenas que o espectador acredite nessa tese sem questionamentos, o que se torna ilógico com a facilidade com que Hannah o mata, transformando sua presença em mera formalidade, não acrescentando absolutamente nada para trama.
O que não tira o mérito da série por utilizar Hannah de forma ligeiramente diferente do que vimos na sétima temporada. Ao invés de pintá-la como par perfeito para Dexter e explorar esse romance, o que vemos em Dress Code é uma discussão sobre esse sentimento presente em um psicopata. O que é, aliás, o grande acerto deste ano, que explora melhor a natureza de seu protagonista, como uma forma de encerrar a série de maneira mais completa. Suas dúvidas sobre seu destino e aceitação sobre sua condição são passos fundamentais para o que está por vir, seja lá o que for (não vejo nenhuma possibilidade de final feliz que funcione para Dexter, mas tudo pode acontecer).
Ao contrário da trama que envolve Dexter e Zach, por exemplo. A ideia de um aprendiz soa quase cartunesca, como se a série tentasse comparar seu protagonista a uma espécie de super-heroi (o que, aliás, já foi feito explicitamente na segunda temporada, mas em um contexto muito diferente). É verdade que esse arco é utilizado exatamente como paralelo para suas descobertas existenciais que envolvem até Hannah, mas o roteiro trata a história de maneira atrapalhada, tratando Dexter quase como um pai ausente que provoca más atitudes de seu filho, culminando na previsível morte de Cassie, destinada a isso desde o momento em que apareceu na série, e que acaba não tendo impacto nenhum, já que a única reação emocionada que vemos vem de um personagem que apareceu por, no máximo, um minuto em tela. Novamente, por mais nobre que seja a intenção de provocar dúvidas na cabeça de Dexter com esse fato, a execução não poderia ser mais problemática do que isso.
Mesmo a relação entre ele e Deb, o maior ponto positivo da sétima temporada e da primeira metade desta, não funciona adequadamente. Após todo o conflito, a calmaria que acontece agora soa deslocada do restante da série, como se todo o alvoroço causado pelo assassinato de LaGuerta fosse interrompido repentinamente. Não há dúvidas de que isso voltará em breve, mas esse intervalo derruba toda a tensão da trama, diminuindo o interesse do espectador.
Assim como tramas de personagens secundários. É verdade que, em uma temporada final, é necessário que coadjuvantes menos importantes tenham pequenos arcos que encerrem sua participação, mas arcos como o de Masuka, que parecia se encaminhar para um fim, é retomada repentinamente como se a atitude dele de investigá-la nunca tivesse acontecido. O personagem sempre fora um alívio cômico importante em tempos em que Dexter tinha momentos extremamente sombrios. Hoje sua participação é quase irrelevante, tanto no que diz respeito às tramas como em humor.
Tudo isso levanta uma questão importante: com sete episódios exibidos, nada parece se desenhar para encerrar Dexter. Sim, a questão existencial do psicopata é importante, mas não como um arco principal. Seria desinteressante ver um series finale em que Dexter descobrisse que, na verdade, nunca foi um verdadeiro psicopata, por exemplo, e que tudo acabasse por aí. Sempre digo que não existem histórias ruins, e sim maneiras erradas de se contar uma, e, por enquanto, a série não parece conseguir criar uma forma para que Dexter acabe congruentemente, limitando-se a crises existenciais do protagonista, sem de fato desafiar seus próprios limites.
O que torna Dexter uma pálida figura do que a série já foi em seus melhores anos. Se Dress Code não é um episódio ruim, tampouco se destaca em uma temporada repleta de momentos medianos. Mas, após momentos tenebrosos, encerrar sua existência dessa maneira talvez seja o mais apropriado.















