O mistério da quermesse de Neptune.

Se eu tivesse de procurar uma palavra para definir Ain’t No Magic Mountain High Enough, certamente diria “catártico”. Saem explosões em ônibus, nomes de protagonistas escritos em mãos de pessoas aleatórias e assassinatos de rapazes latinos em pontes e entra um grande festival de arrecadação de dinheiro para bancar a viagem dos alunos seniores, daqueles com parque de diversões, boca-do-palhaço, piscina de bolinhas e, claro, um (ou mais de um) criminoso que rouba a grana arrecadada – porque, se não tivéssemos como enxergar algo assim acontecendo milhas antes de a cena chegar, não estaríamos lidando com uma série como Veronica Mars.

Mas acho bom que seja assim. Muitas vezes, o sem número de casos da semana extremamente elaborados e ligados ao mundo do crime pesado podem nos fazer esquecer que estamos diante de uma série adolescente, e ambientar o mistério em um contexto como o da “quermesse” da escola é uma boa maneira de nos lembrar.

Independentemente de toda a aventura de Veronica em busca do ladrão de quermesse, o que chamou a atenção foi a relação da protagonista com alguns personagens, em especial Jackie. Se no episódio passado, o roteiro forçou um pouco a barra ao retratar as duas e Wallace como um trio unido em busca de um bem comum, ignorando a maneira como a relação entre os três havia sido deixada, neste há um cuidado maior com a inserção de Jackie de volta ao mundo de Veronica. Desta vez, sim, é possível compreender a simpatia que a ex-rival desperta na protagonista. Com a acusação do crime explodindo em cima do pai, Jackie se transformou em uma underdog, em alguém realmente desprezada dentro da escola, e isso já é motivo suficiente para que Veronica e Wallace passem a ver os pecados da garota com olhos mais lenientes. Ambos se identificam com o tipo de dificuldade que ela agora passa, e faz todo o sentido que eles fiquem ao lado dela. Entendo que a situação de Wallace precisava ter sido resolvida, mas, a meu ver, se tivesse havido uma inversão entre este episódio e o passado, a união entre o trio teria feito muito mais sentido. Perderíamos o fator surpresa que foi Jackie ajudando a livrar Wallace, sem dúvida, mas, a meu ver, coerência é mais importante do que impacto.

Outra relação interessantíssima é entre Veronica e Weevil, que no fim das contas acabou revelando-se como o ladrão da caixinha do evento. Como de costume, Weevil era um suspeito tão óbvio – ainda mais depois de o dinheiro ter aparecido no armário de seu rival – que acabamos negligenciando a possibilidade de ele ser realmente o culpado, o que foi muito bem explorado pelas voltas dadas pelo roteiro. Mas Veronica Mars não dá ponto sem nó. Fiquei pensando “Caramba, de onde surgiu essa história do nome Nancy escrito na nota, que eu não vi?” De fato não surgiu, foi apenas mais uma jogada inteligentíssima da loira para que Weevil se incriminasse. E, por mais que ela negue, gosto do fato de que Veronica tem consideração suficiente pelo rapaz para não dedurá-lo. Com Weevil, uma mão lava a outra, e certamente Veronica se beneficiará dessa proteção.

Até mesmo a relação com Clemmons recebe uma pequena atualização em Ain’t No Magic Mountain High Enough. Não é a primeira vez que vemos o diretor confiando em Veronica, mas certamente ele nunca havia se gabado publicamente dessa confiança. E ambos mereciam. A Sra. Hauser estava bitch demais para não ter culpa no cartório, e torci muito para que a união dos dois a derrubasse.

À parte dos principais acontecimentos do local estão duas vertentes: Logan e os irmãos Casablancas. O primeiro recebe toda uma trama romântica com uma bela moça que, por mais fofa que fosse, não desceu, e entender todo o propósito dessa história na última cena, com a revelação de quem era o pai da menina, me fez vibrar. Dick continua sendo Dick, agora com um travesti em seu currículo de conquistas, o que serviu ao propósito de nos revelar que Beaver é bem mais ardiloso do que parecia.

Paralelamente a tudo isso, quem brilha, como de costume, é o Keith Mars de Enrico Colantoni, mostrando-se não apenas um detetive excepcional, como também um personagem bastante tridimensional no momento em que se decepciona com sua descoberta em relação a Terrence Cook e ainda assim aceita pegar o caso para inocentá-lo. Veremos como ele se sai na tarefa. Confesso que o mistério da temporada passada me empolgou bem mais do que o desta, mas ainda assim estou curioso para ver como essa história do ônibus se resolverá. Enquanto isso não acontece, Ain’t No Magic Mountain High Enough se propõe a ser um pequeno desvio que nos entretém enquanto os roteiristas ganham tempo para trabalhar com a longa temporada que ainda temos pela frente. E atinge com bastante êxito essa proposta.

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.