Em tempos em que o novo filme do Superman é uma das mais aguardadas produções do ano, não dá para não pensar naquela que melhor apresentou Clark Kent ao mundo da TV: Smallville. A série dividiu opiniões, transitando entre extremos, da mesma forma que o herói kryptoniano fez ao longo de sua história. Ame ou odeie, você não pode menosprezar o potencial da trupe de Pequenópolis. Afinal, esta mesma trupe forjou uma das mais extensas mitologias do herói.

Spoilers Abaixo:

Tudo começou com a ideia de explorar a adolescência do famoso Homem de Aço, acompanhando-o na descoberta de poderes, sexualidade e dos elementos que formariam a personalidade conhecida pelo imaginário pop. Nesta receita, o drama (inicialmente adolescente) e a ficção científica fizeram com que a série ficasse no ar por dez anos. Tempo suficiente para nos fazer pensar no legado de seus 218 episódios.

A jornada de Clark Kent como último representante de sua raça no universo é a grande premissa do personagem. Os quadrinhos exploraram esse aspecto, assim como todas as outras produções literárias e audiovisuais baseadas no homem de aço. Entretanto, uma fórmula aparentemente desgastada ganhou ares de novidade com a galerinha de Smallville High School. Nesse ambiente comum ao americano, a mitologia do Superman foi desenvolvida de forma mais leve, intercalando bizarrices com drama e amor. Aproximando o herói que carrega os valores da sociedade norte americana em um ser comum a cada um de nós.

Em suas primeiras temporadas, Smallville explorou intensamente a busca de Clark por suas origens, as descobertas de suas capacidades físicas e a contradição entre as naturezas kryptoniana e humana. Aos poucos nosso herói descobriu de onde veio e o propósito de sua chegada. Inevitavelmente comparado com Jesus Cristo, Superman é sempre retratado como o salvador do planeta, alguém que virá para nos livrar de problemas ou, pelo menos, mostrar que há vida fora da esfera de água. E nesse ambiente, nos dar esperança. Carregar a fé da humanidade foi a informação mais difícil para Clark processar.

Apesar de entender a importância de sua formação humana, e o conjunto de valores morais que recebeu dos Kent, como fator essencial para assumir suas responsabilidades, o herói vive com sua natureza kryptoniana, geralmente retratada como fria e cruel. Ao fim da terceira temporada vemos um Clark corrompido pelos próprios poderes e consciente de que pode ter muito mais do que uma vida de fazendeiro. Essa jornada de descoberta acrescenta elementos inesperados na trama, mostrando um lado do Superman que todos os fãs adoram ver e adicionando realidade à história.

Ao longo de dez anos acompanhamos Clark questionar seus valores morais, seu papel no mundo, sua capacidade de ajudar as pessoas e fazer o bem. E ao longo de dez anos vimos Clark capengar entre momentos de confiança e insegurança constantes. Como cada um de nós ao longo da vida, enquanto buscamos por nosso caminho, nossas certezas. Kal-El é um estranho no ninho.

Um dos aspectos positivos de Smallville foi mostrar o herói escondendo a verdade a respeito de sua origem e poderes. Como consequência dessa escolha, inicialmente feita para proteger as pessoas que ama, Clark vê sua vida desmoronar. A maior das consequências foi, sem dúvida, a morte de Jonathan. No auge do sucesso da série, e da qualidade das tramas, Clark viu uma de suas escolhas ceifar a vida de seu pai humano e lhe mostrar que cada ação poderosa terá uma reação poderosa. A partir desse momento da trama, Clark descobre que não está sozinho no universo. Além de seus terráqueos favoritos, pode contar com uma série de outros amigos/inimigos alienígenas/humanos para completar sua jornada.

Enquanto os Kent formaram a base moral da personalidade humana de Clark, Jor-El, o pai kryptoniano, fez o contraponto na história ao forçar constantemente o personagem a seguir na estrada de seu grande destino.

O grande trunfo de Smallville foi explorar Clark Kent de uma forma humana nunca antes vista nas histórias do herói. Houve tempo para explorar as decepções amorosas; os anseios por ‘normalidade’; as consequências de erros e mentiras; o peso das responsabilidades; a contemplação da vida e, também, as delícias da adolescência e do sexo. Infelizmente essa visão mais intimista não permitiu explorar o personagem em âmbito mundial e intensificar o significado de destino e vocação. O orçamento da série se limitou a mostrar Clark como um cara ‘normal’ que descobre seu destino na vida e corre atrás dele, apesar das dores, decepções e dificuldades. E, vamos combinar, foi um grande feito.

Homem de Aço, produzido por Christopher Nolan e dirigido por Zach Snyder, traz um Clark Kent mais sério, sentimental, recluso e sisudo. O filme acerta em cheio ao humanizar o herói mais irreal de toda a cultura pop. Foi herança de Smallville? Sim. Foi herança de O Cavaleiro das Trevas? Também.

Smallville começou com uma proposta promissora, desenvolveu muito bem seus personagens, dramas e reviravoltas, mas pecou pelo excesso de confiança na longevidade da série. Planejada inicialmente para ter sete temporadas, as três que surgiram depois espalharam a manteiga suficiente para um pãozinho francês em uma baguete de metro. Cansou, mas no fim conseguiu encerrar dignamente sua história.

Por fim, ao fazer uma releitura da jornada de Clark, Smallville mostrou como um símbolo de esperança se desenvolve e como há muita história por trás do ícone, do ‘S’ e do rostinho bonito em óculos de aros grossos. Smallville forjou muito bem seu homem de aço.

P.S. Arrow também herdou o legado de Smallville.

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