Quem prefere as ruivas?

Spoilers Abaixo:

Existe uma lógica fácil de ser seguida quando uma comédia propõe que determinado personagem abandone seus princípios. A pessoa em questão passa seu tempo caminhando em uma passarela de desespero que torna-se comicamente claustrofóbica enquanto aqueles que estão ao seu redor se mantém ali para manter a piada viva. Existem também os instantes em que uma série pensa na proposta e espreme essa piada o máximo possível sem a prudência necessária, correndo o risco de criar cansaço e uma imagem caricata ao invés de desespero.

Com Lindsay, Arrested Development faz um esforço maior simplesmente porque estamos tratando de uma personagem com escrúpulos inexistentes. Derrubar ou desenvolver a imagem anterior para criar aquela postura de ativista política em que ela se apoia ao longo de “Red Hairing” é um exercício que o roteiro é capaz de resolver sem dificuldades, mas não consegue retirar aquele sentimento predominante de que todo esse arco da personagem está distante do nível de excelência da temporada.

Isso não significa exatamente que “Red Hairing” seja um episódio ruim. Aliás, tal afirmação não poderia estar mais inadequada, mesmo diante de um clímax que se desapega facilmente dos conceitos criados anteriormente para levar a personagem aquele estado de redenção e aceitação que não se mostra como uma história interessante, encerrando uma reafirmação como Bluth que tem tanto impacto como qualquer discurso político brasileiro. Entretanto, como piada? É bem desenvolvida porque é aquele exemplo de humor ridículo que aproveita-se do narcisismo natural que a personagem possui como meio para que ela passe por todas as ideologias políticas existentes em um pequeno período de tempo. Poderia até ser uma construção psicológica inteligente dela caso não fosse tão apoiado naquele discurso nas festividades do Cinco de Cuatro. Passar da dúvida para a desistência era um caminho bem traçado antes de o episódio puxar essa esperança para ela. Todo o peso na consciência faz com que o desfecho possua um gosto não tão apetitoso.

Mas, enfim, antes de mergulhar na ideia de fazer de Lindsay candidata a qualquer cargo político, o episódio flerta categoricamente com inúmeras concepções que tornam-se divertidas. O jogo sexual entre Herbert Love e ela ignora qualquer normalidade e termina permitindo piadas sensacionais, envolvendo desde a questão da muralha e o arco de Michael com uma ligação inteligente entre todos esses segmentos. O político é um destaque da temporada por terminar alheio a qualquer possibilidade de regularidade, apoiando-se na impunidade que séries de comédia nesse estilo possuem para mostrar um lado risível que é totalmente adequado com o típico comentário voltado para política dessa série.

Se manter relações sexuais com um dos políticos mais influentes define a linha de incerteza que ronda a mente de Lindsay, Marky e sua deficiência garantem a inocência que equilibra o mesmo traço. A própria condição envolvendo a inabilidade de reconhecer rostos dele permite que as piadas voltadas* para o diferente visual de Portia de Rossi (ou qualquer que seja a atriz que realmente esteja ali) sejam bastante simples e efetivas ao aproveitar-se desse contexto. Além disso, a presença do personagem e sua conspiração política permite um dinamismo excelente para o primeiro ato desse ótimo “Red Hairing”, que pula lá da fronteira do México de volta para as condições habituais com o impulso necessário para que toda a saga da ruiva comece bem antes de encarar os problemas supracitados.

Outras observações:

-* Não sei se a questão de ele não ser capaz de identificar rostos realmente tem relação com a atriz, mas gosto de pensar dessa maneira porque deixa a experiência mais divertida.

– No campo dos paralelos aleatórios: Tobias/Marky abraçando o azul e carregando a tradição das piadas recorrentes que continuam surpreendendo mesmo em 2013.

– Tenho quase certeza que não existe uma cena entre dois ou mais membros da família Bluth juntos que possa ser classificada negativamente. Michael e Lindsay colocando o papo em dia é um reencontro tão casualmente imbecil que arremata gargalhadas sem dificuldades. Além disso, o relacionamento entre pai e filho também segue a tendência, empurrando o protagonista em um buraco que o separa cada vez mais de George Michael. A indiferença dos dois é uma dinâmica que a temporada explora com excelência por fazer com que a separação seja bem justificada ao se respaldar no fato de que os dois não poderiam gravar juntos.

 – Voltando para aquele campo visual que continua em seu ápice nos episódios: a disputa entre Sitwell e Bluth não poderia ser melhor com os cartazes da eleição.

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