
Primeiro Thanksgiving feliz é inesquecível.
Existe um momento especialmente marcante em “The One Where Ross Got High” que encaixa-se nessa posição não apenas porque permite que todos os pequenos segmentos elaborados juntem-se em um fantástico desfecho para uma discussão de nível semelhante. Essa ocasião ocorre quando Judy Geller simplesmente diz que aquilo é muita informação para trinta segundos. Isso é uma verdade especial que reflete muito bem no contexto para permitir que certo traço da personagem se envolva para atingirmos o instante final da narrativa. Os episódios referentes ao dia de Ação de Graças de Friends são especiais por essa simples razão encapsulada nas palavras da mãe de Monica. Eles podem se diferenciarem uns dos outros por motivos como a estrutura da narrativa, mas todos eventualmente não têm medo de atribuir inúmeras funções aos membros do grupo, operando sob uma lógica que soa como uma verdadeira preparação para um jantar em grupo.
“The One Where Ross Got High” é aquele que baseia suas piadas nas noções mais simples possíveis, trazendo informações novas sobre determinadas pessoas (o fato que intitula o episódio), reciclando velhas piadas no paradigma menos conveniente possível (a interpretação inadequada de Rachel diante da enrolação de Ross e Joey devorando a sobremesa bizarra) e aproveitando-se de diversos aspectos da sexta temporada que estão sendo expostos (a chegada de Janine e Monica e Chandler morando juntos). Essa facilidade em associar inúmeros elementos é adequada porque o roteiro entende que existem motivações e ocupações suficientes para todos os envolvidos, não apostando em nenhuma moral puramente relacionada ao feriado para unir tudo. O dia de Ação de Graças funciona como uma breve motivação para que todos permaneçam no mesmo espaço, atingindo de leve determinados comportamentos, como Rachel colocando sobre si a responsabilidade de fazer uma boa sobremesa para não deixar uma marca negativa e Chandler lidando com seu histórico no feriado, sendo o segundo uma das melhores piadas recorrentes de Friends.
O uso básico do ambiente é essencial para que esses momentos sejam divertidíssimos. Ross e Joey estando naquela posição contra suas vontades carrega a narrativa para um ritmo veloz que faz com que exista um senso de urgência em todas as ações. Esse cenário é especial para o primeiro porque ele é uma das peças que mais transita naquele meio, possuindo nessa sua vontade de ir para a outra festa essa justificativa que torna-se mais engraçada a medida que o personagem descobre-se em uma situação pior que a anterior. Observa-se um dos raros momentos ultimamente em que a questão da vergonha alheia favorece o personagem, existindo não de forma artificiosa, pois a piada reside em dois fatores muito bem aceitos no universo de Friends: seu relacionamento fantasioso com os pais e sua amizade com Chandler. Por essa razão que as conversas dentro do quarto não prejudicam o compasso da história, abrindo espaço para que as reviravoltas aconteçam enquanto todo o resto não possua conhecimento diante daquilo. Aliás, essa troca de informações que fazem com que as piadas tornem-se tão efetivas, apostando em um quebra-cabeça onde determinados polos não podem saber daquilo enquanto aqueles que sabem agem por egoísmo.
Explorando essa dinâmica ao máximo, vemos como Phoebe e sua queda por Jack encaixam-se com facilidade no contexto exibido. Sua posição excêntrica é claramente a característica essencial que possibilita que ela não entre em um território deslocado. Seus devaneios por si só são piadas tão fieis ao seu caráter que não necessitam de outro acompanhamento além de um interlocutor básico (Rachel) para serem divertidos. O roteiro chega a investir demais na piada quando a personagem entra em discursos envolvendo Jacques Cousteau, destoando um pouco do significado principal do desfecho, mas mantendo-se como um acompanhamento relevante pela luxúria instantânea dela.
Enquanto todos esses segmentos chegam a serem marcantes individualmente, seu potencial alcança o estado que poderia quando todos são colocados em paralelo. Usar a competição entre Monica e Ross para isso reafirma o quanto a ocasião é familiar, trazendo um conjunto de revelações que são hilárias por colocar em diálogos ágeis todas as motivações que levam os personagens até ali, desde Joey e sua vontade de sair até Chandler e sua jornada por aceitação. As reações do personagem de Matthew Perry têm uma função pontual que é respeitada até o momento do clímax. Seus breves comentários sobre como filhos são reflexos dos pais e sua história de como uma ave derrubou a sobremesa de Rachel são piadas excelentes que mantém ele com um pequeno pedaço do holofote apenas para que ele seja o mais cínico possível no fim. A continuidade do relacionamento dele com Monica é feita do modo mais natural possível. É interessante a estratégia da série com o casal. O grande diferencial dos dois é justamente o fato dos seus conflitos serem tão comuns, explorando dinâmicas familiares como a relação entre os pais da moça e o namorado, criando essa atmosfera tão agradável que a cena final proporciona para encerrar um belo episódio.















