
“Neste momento, eu estou no controle da Casa Branca.” – Alexander Haig.
Spoilers Abaixo:
Em sua quarta semana, The Americans tocou pela primeira vez em um dos assuntos mais instigantes do período da Guerra Fria: as situações em que o mundo quase se viu à beira de uma guerra nuclear – toda a paranoia que cercou o período é, sem dúvidas, terreno fértil para produções televisivas. O “caso da semana” (a série parece estar se movendo nesse sentido – histórias inteiras que se desenvolvem em um episódio) foi a tentativa de assassinato do presidente americano Ronald Reagan, em 31 de março de 1981.
Não nascido à época, eu só posso imaginar a tensão que percorreu o mundo após o fatídico incidente. Até se descobrir que o disparo foi feito por John Hinckley, um americano com problemas psicológicos que queria impressionar Jodie Foster, o mundo certamente respirava intranquilo. E é aí que The Americans acerta: o roteiro abusou de discursos e reportagens reais para ilustrar a situação, criando uma urgência nauseante ao decorrer do episódio. Vimos, por exemplo, como a imprensa nem sempre pode ser confiável: o noticiário ao fundo declarava a morte de James Brady, o primeiro baleado – que está vivo até hoje (e que virou um dos principais militantes do desarmamento nos Estados Unidos).
Em seguida fomos apresentados ao ponto nevrálgico de toda a situação: a famosa declaração de Alexander Haig, então Secretário de Estado de Reagan, transcrita no início desta review. “Eu estou no controle”, disse, quando na verdade o vice-presidente e os chefes da House of Reprentatives (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira) e do Senado estariam à frente na linha de sucessão. O que depois se mostrou apenas uma decisão prática, logística, naqueles dias levantou o alerta vermelho nos soviéticos e nos próprios americanos – se realmente houvesse um golpe de estado, uma terceira guerra seria iminente.
In Control, neste sentido, acompanha a movimentação tanto da KGB quanto do FBI para descobrir informações sobre o ocorrido (mais uma vez vemos as duas polícias trabalhando no mesmo fato, como em Gregory). Em relação ao FBI, fomos mostrados apenas à parte da investigação sobre a ligação dos russos com o atentado – coisa que a informante Nina resolveu sem maiores problemas. Daí se destaca a rusga que ficou entre Stan e Chris – este não avisou àquele que um carro se aproximava no ponto de encontro entre Nina e o FBI. Se trará maiores consequências, fica para o próximo episódio. Também para frente ficou a situação de Nina – seu chefe na embaixada soviética já desconfia, tanto que mandou alguém segui-la na rua (mas de onde vem essa desconfiança, será que Nina já pisou na bola?).
A KGB, por sua vez, estava que nem “frango correndo com a cabeça cortada”. Mas tudo somava: a culpa do atentado ser dos soviéticos era motivo mais que justificável para um golpe de estado por Haig que, certamente, atacaria a URSS sem dó nem piedade. Se coloque no lugar dos soviéticos: se isso não faz você, potencial alvo de um arsenal atômico, enlouquecer e correr de um lado para o outro, o que faria? Por isso já estava pronta a “Operação Christopher” – Phillip e Elizabeth desenterraram um caixão cheio de rifles e explosivos do quintal de casa, just in case. Com motivações bem diferenciadas – discutirei sobre isso abaixo – Phillip e Elizabeth se passam por funcionários do vice-presidente (com direito a, mais uma vez, Elizabeth usar uma peruca que não engana ninguém), ouvem gravações do escritório de Wienenberg e acabam matando um guarda civil (e enterrando no quintal) até descobrirem mais ou menos o que de fato ocorreu.
Desta vez, Phillip salvou o dia – e foi o que me incomodou. Depois de um episódio nervoso, os espiões da KGB descobrem que Haig não só está no controle, mas está com a pasta que autoriza a usar a “bola de futebol nuclear” caso necessário. Sabendo disso, QUE ESPIÃO não reportaria a seus superiores? A reação de Phillip, ao não passar as informações por não querer ser responsável pelo “primeiro tiro” da guerra, me pareceu muito forçada: não cabia a ele tomar essa decisão, ele estava lá para coletar informações e enviar à KGB. Como disse Elizabeth, se tivesse havido uma guerra, não teriam sido eles (os dois espiões) que a teriam começado. Percebemos que Phillip, então, agiu para parar a KGB, enquanto Elizabeth agia para informar. Dito isto, os atos posteriores da moça pisaram no meu calo: ela passou o episódio interior questionando o marido (“você vê como eles falam de nós?”, disse), apenas para ao final aceitar a solução dele, esquecendo-se de suas convicções e, aparentemente, virando americana. Neste sentido, acendo o sinal amarelo para um receio lá das minhas Primeiras Impressões: o ufanismo exagerado. Para mim, até o episódio passado a produção tinha lidado muito bem com os dois lados da moeda, mas nesse episódio a mão pesou um pouco para o americanismo.
Outro ponto que critico é a aparente desconstrução do personagem de Elizabeth. Se no início ela foi mostrada como focada, fiel e eficiente, a personagem está virando alguém que precisa constantemente ser salva de seus impulsos pelo marido. A espiã está se mostrando instável, enquanto Phillip é calmo e sabe lidar com as situações. Para mim, isso mostra pobreza na evolução de um personagem, que começou com tudo para ser interessante. Neste sentido, os flashbacks que mostram as dificuldades de sua infância tentam justamente construir uma Elizabeth forte, calejada pela vida – em contradição com o que vimos na “atualidade”. Tomara que eu esteja errado.
Em paralelo, foram desenvolvidas mais algumas tramas: a relação de Paige com o filho de Stan, que promete voltar nos próximos episódios, e a aparente indiferença dela com o fato de um presidente estar quase morrendo – o que isso diz sobre a adolescente? Ainda, mais uma relação conjugal foi abordada, mas oposta à dos protagonistas: se estes estão convergindo, se unindo; Stan e Sandra se afastam, pela vida difícil que um espião leva – nada de novo (ou interessante) por hora.
Por fim, ainda teço mais uma crítica: a estreia de Jean de Segonzac (Law and Order, Chicago Fire) como diretor de The Americans não foi das mais positivas. Talvez por sua experiência dirigindo procedurals de TV aberta, Segonzac trouxe alguns elementos de didatismo que não me agradaram muito – pô, me deixa pensar um pouco antes de me explicar tudo! Por exemplo, a foto de Reagan na parede do FBI focada em primeiro plano, segundos antes de anunciado o atentado, me fez descobrir de cara sobre o que seria o episódio, tirando o elemento surpresa. Em seguida, o acontecimento histórico foi totalmente esmiuçado de maneira pedagógica, seja pela moça em prantos no hotel, seja pelo comentarista no telejornal.
Meus elogios rasgados à série nos episódios anteriores se deram pelo fato de ela saber equilibrar muito bem a espionagem e o casamento. Pois bem, em In Control o primeiro assunto foi muitíssimo bem abordado: fiquei de olhos grudados na TV para não perder nenhuma referência histórica. Contudo, infelizmente a série pisou um pouco na bola no segundo quesito, carecendo da emoção e profundidade vista nos episódios anteriores. Por isso, In Control foi o capítulo menos interessante até o momento. Fazendo uma média, dou nota 8 (por que a parte do atentando a Reagan foi realmente muito boa) – nada ainda tão alarmante e que não possa melhorar na próxima semana.
Observações:
– Hey, não esqueçam que estamos nos anos 80: a embalagem branca de Corn Flakes era a usada naquela década (o diretor fez questão abrir o episódio com o objeto na cara do espectador), e a música The Pictures on My Wall, do Echo & The Bunnymen (tocada na cena com os telefones pretos) fazia o maior sucesso em 1981. Os IBM PCs mostrados no escritório do FBI também começaram a ser produzidos naquele ano.
– Hey, não esqueçam que somos espiões: tivemos mensagens cifradas via rádio para a URSS, perucas, identidades e nomes falsos, carro clonado e central telefônica clandestina.
– Alguém entendeu a história do traficante de drogas na Romênia? Eu boiei.
– Se Elizabeth e Phillip não eram um casal, definitivamente este problema é passado: o episódio (praticamente) começou e terminou com eles na cama.
– Fomos apresentados ao jornalista Charels Duluth, o Sparrow, interpretado por Reg Rogers (que também interpretou o diretor de teatro meio maluco que apareceu na 3ª temporada de Friends), um ex-socialista aparentemente convertido ao reaganismo. Gostei dele de cara, promete.
– As discussões do casal principal durante o episódio renderam ótimas citações. Além das já citadas na review, o desabafo da esposa ante a teimosia do marido é uma delas: “Eu ainda me lembro de onde vim. Você não acha que eles também mentem e conspiram como todo mundo? Por que você pensa que eles são tão diferentes, tão puros?” Concordadíssimo, Elizabeth.
– Claudia lutou em Stalingrado sem nenhum treinamento e está viva para contar a história. Pena que a personagem apareceu tão pouco no episódio. Quem não gosta de Margo Martindale?
– Mesmo com a audiência tendo caído quase pela metade em relação à estreia, o FX anunciou a renovação de The Americans, como noticiou o Série Maníacos nesta semana.
– Me desculpem pela extensão do texto e por passar muito tempo falando de História. Como vocês já devem ter percebido, sou completamente fascinado pelo assunto e acabei me empolgando – sorry, vou tentar me controlar daqui pra frente.















