A grande decepção.

O casal Ross e Rachel sempre levantou discussões sobre a forma como Friends o trabalhava. Enquanto alguns o julgavam excessivamente meloso, outros torciam para que os dois namorassem o mais rápido possível. Mas a certeza era única: Ross e Rachel terminariam a série juntos, sem dúvida alguma (na verdade os showrunners da série finalizariam Friends sem que isso acontecesse, mas cederam à pressão). Por esse motivo, o momento em que os dois finalmente se beijariam, ou algo do gênero, é tema de toda a primeira temporada da série, o que torna inevitável que seja o foco deste The One Where Rachel Finds Out, ainda que o episódio deixe um pouco a desejar em certos aspectos.

O roteiro, escrito por Chris Brown, se inicia nas preparações para o aniversário de Rachel, que Ross não pode comparecer por ter que ir para a China lutar por um osso recém-descoberto. Lá, Chandler deixa escapar a paixão do amigo pela aniversariante, que fica transtornada e sem saber o que fazer, chegando a ir ao aeroporto para encontrá-lo, sem sucesso. Enquanto isso, Joey não sabe o que fazer para satisfazer Melanie, já que não pode fazer sexo por conta de um experimento científico que está participando sobre fertilidade. Já Monica força a barra para que Rachel escolha seu irmão, praticamente assumindo a posição dele em um relacionamento.

A premissa de The One Where Rachel Finds Out dá sinais de que o episódio seria praticamente focado em Rachel, mas Brown acaba perdendo a mão ao não conseguir fazer o que Friends fez durante toda a sua temporada, que é aproveitar bem todos os seus seis personagens principais. Repare como a função de Phoebe e Chandler, por exemplo, se limita a piadas pontuais e poucas intervenções. Assim, quando, já nos últimos minutos, o segundo tenta impedir Rachel de ir ao aeroporto com a justificativa de “não ter feito tantas coisas na vida”, a piada perde força pelo fato de o episódio esquecê-la durante boa parte da exibição, relembrando-a apenas quando é conveniente.

Da mesma forma, a trama de Joey soa deslocada durante toda a sua existência, jamais passando a sensação de pertencer ao mesmo episódio. Assim, ainda que seja divertido ver o personagem descobrindo novas formas de satisfazer uma mulher, soa estranho que Friends pule de um momento puramente romântico com Rachel para algo essencialmente carnal, prejudicando o ritmo do season finale. Ainda assim, a série sempre acerta quando investe em diálogos entre Joey e Chandler, que tem personalidades compatíveis e muito diferentes, permitindo momentos como quando o primeiro descreve sua noite com Melanie, que o segundo já conhecia pelo fato de morar no quarto ao lado.

Aliás, se o roteiro não funciona como deveria no que diz respeito à estrutura narrativa, traz bons momentos quando investe no que sabe fazer de melhor: explorar as características de seus personagens. É impressionante como Friends se apega a essa fórmula e é capaz de criar qualquer situação de humor a partir dela. Por exemplo, a “crise do osso” vivida por Ross só consegue ser engraçada pelo fato dele ter uma característica de profundo desânimo em momentos como esse, e o semblante mostrado pelo personagem de David Schwimmer é exatamente o que traz o humor para a cena. Assim como o fato de ser o sempre desastrado Chandler quem revela à Rachel a grande verdade da temporada, o que cria momentos posteriores divertidíssimos, como quando ele tenta explicar para ela o quão insignificante é a nova informação.

Mas a melhor característica de The One Where Rachel Finds Out é a forma como trabalha as expectativas do público. Tudo, desde a excelente cold open que brinca com as diferentes reações de homens e mulheres em relação a bebês até o momento em que Rachel dialoga com um Ross imaginário (e muito mais direto e sedutor que o verdadeiro), leva a crer que a primeira temporada de Friends terminaria com um beijo de verdade entre eles, encerrando o arco principal (e o fato dela ter beijado a versão de sua cabeça não deixa de ser um anticlímax). No entanto, o episódio prefere delongar-se na história, fazendo-o de forma inteligente e arrasadora, colocando uma ansiosa Rachel à espera dele após deixar seu encontro falando sozinho, enquanto, do outro lado da parede, prepara um grande soco no estômago, revelando que ela chegara tarde demais, assim como na primeira vez que fora ao aeroporto, mas desta vez de forma mais arrasadora.

E o fato de o episódio encerrar-se assim, com apenas o espectador sabendo sobre o que irá acontecer, é sublime. Friends se tornaria mestre em encerrar temporadas de forma aberta, quase sempre iniciando seus anos seguintes exatamente no momento em que os anteriores terminam, e essa é a primeira vez que a série investe nesse tipo de cliffhanger. Decepcionando Rachel, Ross e o espectador, mas de forma boa, evitando gastar tão rapidamente o trunfo do casal, e provocando uma reviravolta curiosa, colocando Rachel na exata mesma posição de Ross nos primeiros episódios.

Assim, Friends encerra seu primeiro ano com um episódio que está longe de figurar entre os melhores da série, mas relevantíssimo para seu arco principal. Além disso, The One Where Rachel Finds Out consegue despertar com extrema competência a curiosidade do espectador, iniciando um belo ciclo.

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