O primeiro episódio triste de Friends.

Toda sitcom passa por um momento em que precisa entregar uma situação triste, até como forma de tornar a atmosfera mais realista, evitando se prender apenas a acontecimentos felizes e engraçados. No entanto, é preciso saber balancear o lado dramático com as piadas, para que um não sobreponha ao outro de tal forma que as histórias se tornem desrespeitosas. Essa difícil missão é o diferencial entre um episódio excessivamente melodramático, outro incoerente e, finalmente, um bem executado, que traz tramas bem desenhadas e equilibradas. Pela primeira vez, Friends se aventura por algo que não se limita a ser puramente cômico, mas que traga alguma carga emocional. E The One Where Nana Dies Twice atinge com maestria tal equilíbrio.

Escrito pelos showrunners Marta Kauffman e David Crane, o episódio se divide principalmente em duas histórias. A primeira, e principal, trata da morte da avó de Ross e Monica, o que desencadeia uma série de acontecimentos que levam ao funeral dela, como o fato de ter sido declarada morta duas vezes, ou as superficialmente conhecidas críticas de Judy Geller a praticamente tudo que sua filha se atreve a fazer. Enquanto isso, Chandler enfrenta uma situação curiosa quando uma colega de trabalho tenta arrumar um encontro com um homem, o que o faz questionar o porquê dela o considerar gay, descobrindo que até seus amigos tiveram a mesma primeira impressão.

Não deixa de ser curiosa a forma como este episódio é abordado. É raro que uma comédia com tão poucas semanas de vida se aventure por histórias desse tipo, pelo fato de estas geralmente exigirem uma maior aproximação do público, o que, consequentemente, aciona o lado emocional do espectador. Mas o trunfo do roteiro é justamente o fato de evocar a morte de um personagem que jamais havia aparecido, abrindo espaço tanto para situações adoráveis quanto para piadas que seriam impensáveis caso o público tivesse tido a oportunidade de conhecer melhor Nana. Imagine, por exemplo, se Jack morresse em algum momento de Friends, e Joey assistisse a um jogo de futebol no meio da recepção. Seria desrespeitoso e certamente não provocaria as mesmas risadas.

Por isso, a abordagem de Kauffman e Crane é inteligente, já que consegue explorar dois mundos sem precisar se preocupar demais em estabelecer limites. Assim, situações como a criticidade exagerada de Judy podem ser melhor trabalhadas, e funcionam muitíssimo bem mesmo durante um funeral. Aliás, é curioso como a exigência da mãe de Monica é introduzida no episódio anterior, de forma rápida e sutil, para que o espectador não pense que aquilo é criado apenas para dar certo pontualmente. Friends faz muito bem a tarefa de cultivar características de personagens para poder utilizá-las quando julgar necessário. Esse elemento é chave para o sucesso de uma comédia, que consegue dessa forma variar suas piadas sem soar artificial ou incoerente.

É isso que a série faz com Chandler. Nos primeiros sete episódios, vemos o personagem se movimentar de forma diferente, e se sentir terrivelmente desconfortável em situações capitais, como o momento em que fica preso no banco com Jill Goodacre, em The One with the Blackout. Por conta disso, quando sua colega imagina que ele pudesse ser gay, não achamos estranho ou uma tentativa desesperada de gerar humor a todo custo. Pelo contrário, para o espectador é até natural que isso pudesse acontecer em algum momento, já que a série nos vende essa imagem do personagem desde os primeiros episódios.

Mas o ponto principal de The One Where Nana Dies Twice é a forma como o roteiro comunica as duas tramas. Quando um episódio se foca em histórias tão diferentes, é comum que o texto pareça excessivamente segmentado, prejudicando a fluidez da narrativa e, consequentemente, a qualidade das piadas. Mas Friends adota uma abordagem que busca conexões entre os dois arcos, ainda que elas não existam de fato. Como no momento que Joey faz um comentário inapropriado e, percebendo isso, procura mudar de assunto, trazendo à tona a história da confusão sobre a opção sexual de Chandler. Dessa forma, a série não parece estar procurando desesperadamente estabelecer algum paralelo entre os arcos, mas os interliga de forma inteligente e fluida, permitindo a transição entre diferentes universos de forma fácil e ágil.

Da mesma forma, The One Where Nana Dies Twice cria momentos adoráveis e emocionantes mesmo que não conheçamos a pessoa que morreu. Isso acontece porque a série, inteligentemente, introduz pequenas pistas que se revelarão mais tarde. Por exemplo, quando Ross e Monica estão no hospital, conversam com sua família sobre a mania de sua avó de roubar sachês de adoçantes de restaurantes ou mesmo da casa de seus familiares. Assim, quando Ross, em um momento particularmente saudoso, encontra uma caixa com os mesmos sachês, é inevitável que o espectador, ainda que inconscientemente, puxe pela memória o diálogo e compreenda o porquê deste momento ser tocante, como se a série tivesse permitido ao público conhecer um pouco da personagem que jamais havia aparecido.

Embora o episódio pouco ofereça em relação aos personagens e aos arcos de cada um deles, The One Where Nana Dies jamais os abandona, principalmente no que diz respeito a Ross e Rachel. Primeiramente, dando sequência à birra do primeiro com Paolo, o que gera momentos inevitavelmente engraçados. Mas o mais importante é quando Ross, completamente dopado, finalmente revela amar Rachel, e ela, desavisada, retribui sem saber o verdadeiro peso daquelas palavras. A situação é incrivelmente competente em gerar humor pelo fato de ser natural uma pessoa fora de suas condições normais dizer que ama os amigos, familiares, animais, etc. Como o próprio Ross deixa claro ao afirmar amar Monica, Phoebe e Chandler (em outra esperta conexão feita pelo episódio entre as tramas). Além disso, cria um sentimento agridoce, já que acabamos de acompanhar o fracasso dele em sua primeira tentativa de conseguir alguma chance com Rachel.

O que transforma The One Where Nana Dies Twice em um episódio muito eficaz em evocar sentimentos ligeiramente diferentes de seus antecessores, provando que Friends é uma série capaz de criar humor de diversas maneiras sem soar pretensiosa ou repetitiva.

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