
Todos nós sabemos que o herói da nave Serenity é o antipático e incompreensível Malcolm Reynolds. Mas para River, o seu grande herói é o irmão Dr. Simon Tam.
Seguindo em nossa coluna flasback, revivemos o episódio “Safe” de Firefly, uma sequencia que demonstra já nos primeiros dias de vida da série que todos os personagens não são apenas coadjuvantes, mas sim participantes relevantes a toda sua trama. Assim, suas histórias são trabalhadas, detalhadamente e, com qualidade para que nos afeiçoemos com cada integrante da família Serenity.
No quinto episódio, conhecemos a vida de Simon Tam (Sean Maher). Um jovem, nascido no clã da alta classe social do mundo moderno, com sua carreira definida desde a infância, um brilhante médico cirurgião.
É impressionante a qualidade de Joss Whedon para trabalhar o futuro. Mesmo sabendo que Firefly retratava cinco séculos à nossa frente, seria tolice apresentar o futuro com o esvanecimento dos nossos atuais valores morais e sociais de um mundo capitalista. Logo, esquecer-se que as profissões de grande valor a sociedade, assim como o constante interesse em alcançar um “grande status” nunca irão desaparecer, (uma vez que constituem a essência de qualquer indivíduo nascido a partir do feudalismo), porque isso morrerá em um futuro distante? E é apoiado nesta premissa que conhecemos a vida de nosso Doutor (fator crucial para que gostássemos de seu personagem).
Simon é o primogênito da família, e como consequência, carrega consigo a responsabilidade de manter e elevar sua fortuna e o status. Enquanto que sua irmã, River Tam (Summer Glau), além de ser a caçula é uma garota. Ela não tem obrigações ou um futuro traçado pelo pai, sua única responsabilidade é não interferir no destino do irmão. Porém é isto o que ela fará, não intencionalmente, mas sim porque seu irmão, talvez tenha sido a única pessoa naquela família que a conhecia verdadeiramente.
Assim, Simon, consegue perceber que River não é a mesma nas cartas que envia ao irmão de seu suposto colégio (principalmente porque ele é o único a ler suas correspondências). Observando a ignorância da família às atuais condições de sua irmãzinha caçula, o Doutor decide não se unir aos entes omitindo-se às circunstâncias. Ao contrário, ele vai buscar respostas e alternativas que o permitam resgatar River, mesmo que isto custe tudo pelo que ele já batalhou na vida: O respeito da família e sua carreira na medicina.
Este é o contraste que Firefly nos apresenta para subjetivamente exibir como é a vida no lado ilustre do mundo moderno. Onde os planetas recebem investimentos não apenas para a subsistência, mas também para manter o conforto e a tecnologia. E a verdade exposta é que o mundo material pode ter mudado, a tecnologia nos permite prolongar a vida além das suficiências do planeta, mas as sociedades continuam as mesmas em seus costumes e valores.
Enquanto o passado de Simon relata a riqueza dos planetas centrais, o presente nos leva ao “rabo da galáxia”, assim como ele mesmo diz. No planeta Jiangyin, onde o capitão Malcolm precisa entregar sua carga (gado contrabandeado) e receber seu pagamento sem que o imprevisto de tiroteios, mortes e fugas desesperadas façam parte do contexto. O quão inocente nosso capitão possa ser, eu não tenho ideia, pois para nós que chegamos ao quinto episódio desta série já sabemos que o sinônimo para Firefly é confusão. Logo, é fato que haverá problemas (no plural, sempre).
Enquanto Mal negocia o preço de sua carga, os federais aparecem em busca dos dois péssimos negociantes (Marcus e Nathaniel Grange), por conexões com o assassinato de Rance Durbin (e Reynolds dizendo que eles eram limpos e virtuosos). No ato do pagamento, tudo desanda, os mercadores tentam reagir, Zoe atira para impedir que seus companheiros sejam feridos. E a partir daí o tiroteio começa. Abro um hiato para citar a frase de Malcolm enquanto tenta pegar sua arma e recolhe as moedas espalhadas pelo chão “Isso nunca sai tranquilo. Por que nunca sai tranquilo?”.
E como nada termina bem, a vítima do tiroteio é o pastor Book, gravemente ferido no peito, precisa de cuidados imediatos de Simon. O problema é que o Doutor está em apuros sendo sequestrado por um vilarejo que desistiu de evoluir desde o século XV.
Simon é sequestrado, juntamente com River, para auxiliar os moradores locais em suas enfermidades, (já que não é possível pedir eles decidem por obrigar a algum médico em ajuda-los). Enquanto isso, o capitão Mal decide por partir e ajudar o Pastor buscando cuidados médicos no planeta mais próximo, deixando os irmãos para trás.
A concepção de valores e definição de bondade são muito bem explorados aqui. Temos o Capitão Mal como o nosso grande mocinho da série, mas isso não significa que ele é um Santo. Malcolm é racional, trabalha com as possibilidades, e sua definição de ajuda é prática. Se ele fica procurando os dois, (vivos ou mortos), o pastor morre. Mas se larga os dois para trás, tem a chance de salva-lo e pode voltar depois. Reynolds toma suas decisões pensando no bem de sua tripulação e na sobrevivência da mesma, não importando quais os conceitos morais precisam ser rompidos para garantir este fato.
Se a tripulação de Firefly está em apuros por decidir buscar auxílio em uma nave da Aliança. Os irmãos Tam encontram-se em dificuldade pior, quando River decide conversar com uma garota muda escancarando sua capacidade intuitiva (e Simon nos enrolado com aquele papo de esquizofrenia paranoica). Para um vilarejo onde o tempo estacionou na Idade Moderna com a Inquisição Espanhola, a garota não teve nem tribunal – Manda para a fogueira!-. E se por um lado, o Capitão Malcolm deixa a tripulação para trás em uma matemática básica da vida, (eu salvo quem eu posso). Simon apresenta o caráter do herói incorruptível, “Se não posso salvá-la, eu morro junto a ela”. E com esta percepção ele abraça e irmã e diz para atearem fogo aos dois.
Mas no meio da população fanática e sedenta por “carne assada”, eis que surge nosso grande vagalume no céu, com Jayne empunhado uma espingarda enquanto Zoe e Malcolm avançam pela multidão na hora exata, querendo sua tripulação de volta. Não importa se ela é uma bruxa, ela é a “nossa bruxa”.
O contraste cultural impresso nesta cena é muito curioso, se por um lado temos um grupo de conservadores fanáticos religiosos, retratando a civilização sem cultura, lançada às traças nos extremos do universo, que não sabe nem o que significa mandarim. Pelo outro temos um grupo de rebeldes enfurnados em uma nave, mas que conhecem todos os pontos das galáxias e que se apoia na concepção mais atual de moralidade para sobreviver às condições do universo: “O mundo pertence aos mais fortes!”. Após um dia tradicional de contrabando, transporte, tiroteio, mortes e afins. A tripulação da tranquila Serenity retorna sã e salva para o conforto de seu leito e o aconchego desta excêntrica família, a qual o capitão Malcolm reconhece como tripulação.














