Como ser aleatório perfeitamente.

Spoilers Abaixo:

É uma tristeza, mas o inferno de Boardwalk Empire parece longe de acabar. Chegamos ao episódio três e até agora, a coerência da narrativa pós-jimmy é completamente inexistente. Com um festival de iniciativas tolas, plots frágeis e repetições, a série parece entregue ao vírus da aleatoriedade, em que mais vale uma trama instantânea, que um planejamento direto.

Ou melhor, sejamos justos. É claro que Boardwalk Empire tem um planejamento. É claro que todos se reuniram pra resolver como seriam esses novos 12 episódios. Porém, qualquer planejamento que não partisse de um senso de continuidade, soaria como um “não-planejamento”. E a razão é muito simples: grandes eventos geram grandes reações. E quando a série começa toda de novo, como reagir?

E Terence Winter parece disposto a matar toda e qualquer possibilidade de reação, e já providenciou a resposta para nossa pergunta maior: Não! Não veremos Richard vingando seu amigo. A não ser, é claro, que Richard esteja blefando, o que, tirando pela natureza do personagem, duvido muito.

Mas chegaremos até aí.

O foco do episódio foram os sentimentos de Nucky perante o que fez a Jimmy – ou foi o que quiseram que a gente pensasse – e a outros que abateu pelo caminho. Peço uma discreta licença para dizer que estou DE SACO CHEIO desses sonhos pseudoanalíticos que insistem em ser usados como recurso para “aprofundar” os personagens. Já está uma coisa tão excessivamente habitual, que já devia ter entrado na lista negra da “cartilha do bom roteirista dramático”. Não vou dizer qual foi a série que começou com isso (todos já sabem), mas o fato é que Damages e Mad Men foram só alguns exemplos de coleguinhas que nos atormentaram com a estratégia.

O resultado foi ínfimo. Pouco percebi de verdadeiro pesar em Nucky, e especialmente nesse momento, em que ele parece estar apaixonado pela dançarina. A intenção, é claro, não foi pesar, e sim contemplação. O que também deixa a desejar para a série. Os sentimentos paternalistas de Nucky por Jimmy já tinham passado antes da morte dele, e vê-los refletidos, agora, na forma de correlações oníricas, é perda de tempo.

Foquemos no antagonismo entre ele e Gyp. Continuo achando que o mafioso malvadão é só uma maneira de movimentar a trama pro lado violento. E exatamente por isso, vou comprar a ideia e parar de reclamar. Vou me divertir com os arroubos ridículos e forçados de Rosetti e tentar esquecer que, se tudo tivesse ficado como deveria (com Jimmy vivo), a história de Boardwalk Empire seria sobre o ódio e o rancor entre dois homens que um dia já tinham sido como pai e filho, e agora, queimam vivos os aliados um do outro. E olhem aí… Essa premissa parece tão mais interessante.

Vamos esperar a aliança profana entre Gyp e Gillian, porque sem dúvida, ela virá.

Chegamos então, ao momento em que precisamos falar sobre os dois plots mais desnecessários da história. O primeiro é o de Nelsinho Bullying-Bullying. Céus, o que fizeram com essa criatura? É tudo tão patético, tão ridículo, que começo a torcer pela adesão definitiva dele na equipe de Capone. O que, convenhamos, não seria nada condizente com o personagem, mas pelo menos lhe daria certo destino. A força de Nelson estava em defender valores certos do jeito errado. Quando ele virar um criminoso, chapará tudo. Será o errado no errado. Rasteiro e superficial. Mas pelo menos, com uma mulherzinha bem safada.

O outro plot que completa a insanidade aleatória de BE, é o da heroína. O mínimo que podem fazer por nós é providenciar alguma convergência com o núcleo principal. E com sentido, por favor. Agradecido.

Por fim, vamos refletir sobre a emblemática cena entre Nucky e Richard. E que eu queria, desesperadamente, entender porque aconteceu. Alguém me ajuda? Porque raios o Richard achou que o Nucky (que ele não pretendia matar ou ferir) precisava assistir aquele teatro todo? A única razão lógica seria: eu matei o assassino de Angela, e vou chegar até você. Se a intenção não é essa, aquilo faz algum sentido em que esfera? A vingança de Richard não seria mais admirada pelos que eram ligados diretamente à Angela? Eu posso estar errado, mas levar o mentiroso covarde até a casa de Nucky para dizer apenas: matei e vou parar por aqui, é estranho demais. Por que Richard reivindicaria créditos pra alguém que ele não tem interesse de ferir?

Sejamos francos, enfim. Boardwalk Empire sabe não fazer sentido de uma maneira tecnicamente brilhante. Mesmo a esquisita cena entre Richard e Nucky teve seu poder, sua beleza. Tudo é muito bonito, aliás. A série se agarra aos sonhos, às metáforas fingidas, ao signos (o telefone aparece insistente, para um Nucky que não completa suas “ligações”). Porém, o que se esconde por trás do “a direção de arte é ótima”, “os atores são fantásticos”, “a trilha é soberba”… O que se esconde por trás disso é confusão e deficiência.

Bone For Tuna para Boardwak Empire, ela vai precisar.

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