A primeira e irregular temporada de The Newsroom chegou ao fim, cheia de altos e baixos. Em seus dez episódios, ela ia da comédia pastelão a drama sério num piscar de olhos, sem ser engraçada ou dramática o suficiente. Eu não espero que isso mude na próxima temporada. O que fazer, então?

Spoilers Abaixo:

Minha introdução é vazia de esperanças, reconheço, mas eu gostei do episódio ― que, em minha opinião, figura entre os melhores da temporada, junto com The 112th Congress, Bullies e Tragedy Porn. Mas tudo o que faz os nossos cavaleiros caírem do cavalo estava ali. O que mudou? A minha maneira de lidar com a série.

DOM QUIXOTE CAIU DO CAVALO

Quando o episódio começou, eu tive a impressão de ele ser a continuação direta do episódio anterior ― culpa da jaqueta e da camiseta azul de Lonny ―, mas ele se passa dois meses depois do blecaute. A reportagem de Brian, já publicada, criticava duramente o formato 2.0. Mesmo com algumas suspeitas de que Brian escreveria um artigo belicoso, eu confesso que fui pega de surpresa. É curioso que a forma que o texto do ex de Mackenzie critica o News Night parece com as críticas que a própria série recebeu da imprensa americana, é como se Sorkin já esperasse essa reação, já que os episódios já estavam todos filmados quando o piloto estreou. E, de certa forma, mostra uma autoanálise da série, assim como os personagens que se assumiram como idealistas, otimistas e motivados, mas muitas vezes ingênuos, os necessários grandes tolos.

Com a terapia, vimos que Will é um tanto sádico, depressivo e solitário. Brian percebe a mesma coisa, entendendo a relação de Will com sua audiência como algo doentio. Era um caminho interessante que fiquei contente em ver retratado com uma possível tentativa de suicídio ou não. Só que o fato mal chega a repercutir e não possui consequência nenhuma na narrativa da história. Essa falta de consequências foi regra e ela me incomoda bastante, pois faz com que as personagens pareçam fantoches, e não pessoas de verdade.

É com essa mesma falta de consequências que todo o desenrolar do quadrado amoroso foi mostrado. Pelo menos, até o episódio passado. Eu gostei de ver Maggie e Jim falando abertamente de como se sentem, com direito a beijo e discurso no meio da rua para fãs de Sex And The City (valeu as referências e o desabafo feminino de Maggie, mas o exagero e a incongruência, para variar, foram latentes).  Só que coragem para ficarem juntos que é bom, nada. Mesma coragem que falta a Don para sair de um relacionamento fadado ao fracasso, mas que sobra para Sloan se declarar e pegar todos de surpresa.

O quadrado amoroso (agora “promovido” a pentágono) foi muitas vezes onde a série mais escorregou na temporada. Cenas cafonas, comédia forçada, situações inverossímeis, momentos irritantes… A season finale teve um pouco de tudo isso e ainda deixou a impressão que caminhamos tanto com essas personagens e essas relações e não chegamos a lugar nenhum, embora tenha havido se algumas reviravoltas, mas nada muito efetivo. Don continua com Maggie. Jim continua com Lisa. E Sloan continua sozinha. O mesmo vale para Will e Mac, mas a relação deles é tão melhor abordada que faz mais sentido a estagnação.

Infelizmente a comédia falha não se restringiu só ao quadrado. Durante a temporada não faltaram momentos que nasceram com a intenção de serem engraçados, mas só conseguiram ser bobos ou constrangedores. Neal que o diga. Aliás, a pequena aventura “Neal e o Mundo dos Trolls” não deu em nada. Como eu não consigo enxergar para onde essa história vai caminhar, tento lhe dar o benefício da dúvida, o que fica difícil tendo Dev Patel no meio ― e nem é culpa dele, diga-se de passagem.

Outro ponto um tanto tenso foi o suicídio de Dr. Hancock, que também me pegou de surpresa. Sua morte pode não significar o fim das teorias conspiratórias, já que Jim disse que ia continuar a investigação e honrar a morte de Hancock.

Ver Charlie se emocionando ao saber da morte de sua fonte foi bonito, mas a cena por si só não faz milagres. A questão é que os saltos no tempo são tão frequentes, e, por vezes, tão erráticos e tão inesperados, que nós não conseguimos nos apegar a ninguém e ele prejudicou demais o desenvolvimento das personagens. Apeguei-me a eles, mas não o suficiente e de certa forma, eu sinto que ainda não os conheço.

DOM QUIXOTE MONTA DE NOVO

A estadia de Will no hospital deu ao News Night o seu novo e primeiro furo jornalístico. Ao contrário das reportagens retratadas anteriormente, a história da senhora que teve negado o seu direito de votar ― votar é direito, e não dever, leitores ― foi a primeira que não teve uma cobertura jornalística externa à série. Pelo menos, nada apareceu nas minhas pesquisas. Sintam-se livres para corrigir-me, caso eu esteja errada. Mas foi uma história interessante de se acompanhar, e que me deixou, de certa forma, feliz de viver no Brasil e o nosso sistema eleitoral ― tirando os nossos candidatos.

Como toda reportagem do 2.0, ela se tornou um gancho para a repreensão do Tea Party e eu me pergunto se essa repreensão toda é mesmo necessária. Não estou tomando partido, mas é inegável que a série assumiu como sua bandeira a derrubada do partido, que desta vez recebeu a alcunha de Talibã Estadunidense, para o terror de Leona.

Preciso dizer também que achei a resolução da história à la News of the World um tanto simples demais. Leona foi da leoa que demitiu Will para a gata “coruja” chocada com o comportamento do filho. Há um certo maniqueísmo nas figuras de Reese e Leona ― na de Reese, principalmente. Acho que a série não leva em consideração a necessidade de mostrar com a mesma relevância o lado destes personagens. Uma que saiu na frente neste ponto foi a chefe do tabloide TMI, Nina Howard. Achei bastante singular a retratação da personagem. Olhando em retrospectiva, lembrei-me de quando ela tenta sem sucesso falar para Will que era de fato uma jornalista. Sua participação neste episódio me fez pensar se sua mudança de atitude não seria mais um efeito do 2.0 fora da redação, já que ele não foi o único: a universitária alienada do piloto é agora uma jornalista graduada e, contagiada pelo discurso de Will, resolve se juntar à batalha. É bom saber que mesmo que o News Night nunca vá mudar o jeito de fazer jornalismo – e muito menos o mundo -, ele ainda possa fazer singelas mudanças fora da redação.

Confesso que me senti por alguns momentos pensando se The Newsroom teria sido mesmo a bagunça que eu sempre bati e rebati neste espaço, devido a coesão das histórias de Nina e da universitária burra. Embora esses dois momentos tenham sido marcantes, a série, em geral, não foi coesa.

Caminhando entre a seriedade das notícias e de temas mais pesados e a comédia romântica que não se leva a sério, fica difícil definir a série, fica difícil inclusive criticar ou elogiar. Você não sabe se é para tratá-la como um drama de alto nível ou apenas mais uma série boa, um tanto quanto peculiar, sem a intenção de ser mais do que isso. Essa esquizofrenia deixa a série confusa, com elementos que não funcionam. Por exemplo, um dos méritos de Newsroom são os diálogos banais transformados em memoráveis. Esse é um traço marcante de Sorkin e isso é ótimo. Por outro lado, ele não pode se apoiar sempre nisso para salvar plots e cenas moribundas. Esse estilo lembra o de Amy Sherman-Palladino (Gilmore Girls e Bunheads), a comédia divertida de falas rápidas funciona na despretensiosa Gilmore, mas nem sempre em Newsroom, que tem lá suas pretensões de drama sério evidentes, e acaba às vezes a deixando rasa e superficial. E quanto mais você pensar nisso, mais decepcionado você ficará de Newsroom não ser tudo que poderia ser.

Depois de uma temporada, na qual os pontos positivos e negativos não se compensaram, fica a sensação que Newsroom é uma ótima série SE você não parar para analisá-la muito. A solução é aceitá-la como ela é, embora a própria ainda não tenha se definido.

Em tempo:

What Kind Of Day Has It Been: Pela primeira vez Aaron Sorkin não usa esse título pra finalizar a primeira temporada de uma de suas séries. Segundo ele, era uma forma de amuleto. Como fã, fiquei um tanto quanto decepcionada, rs. Mas The Greater Fool caiu como uma luva para o episódio.

– A título de curiosidade: Sorkin namora a atriz Kristin Davis (a Charlotte, de Sex And The City). Fica a questão: Será que o próprio Sorkin fez o tal tour?

– As gravações da segunda temporada começam agora em novembro e a previsão de estréia é para junho/julho. Quem ainda continua? O que acharam do episódio e da série como todo?

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