Vai um pouco de presságio no seu Mad Men, senhora?

Spoilers Abaixo:  

Mateus Borges: Vamos falar de morte. Enquanto vários personagens tentam preencher certas ideias que eles têm de autorrealização, “Lady Lazarus” parece coberto por uma estranha aura sombria, meio que agourenta quanto às decisões que eles tomam. Se por um lado é compreensível tal desgosto do roteiro por Pete, que passa o episódio todo indulgente ao seu lado mais infantil e triste, com alguns momentos que chegam a beirar violência própria, por outro lado é algo enigmático (e bastante revelador dos planos que a temporada tem) a saída de Megan da Sterling Cooper Draper Pryce ser tratada quase como esse evento apocalíptico para Don, contido em um sonho e em uma era pela qual ele sonha, mas que nunca consegue realmente apreciar.

A minha grande dúvida aqui é se isso acaba sendo uma reflexão das coisas como elas são ou uma reflexão das inseguranças dos personagens, de como Don Draper não consegue se desprender da sua ideia de finais e recomeços, de como Megan sempre foi presa e repreendida pelos seus passos. O que Mad Men está tentando nos dizer aqui, exatamente? E terá Pete Campbell, de todas as pessoas, alguma salvação? Não é a primeira vez que ouvimos a palavra “suicídio” ser jogada ao redor do personagem.

Guilherme Inojosa: Acredito que toda a tristeza tão falada na série funciona como um reflexo das inseguranças dos personagens. São homens, como Don sendo o maior exemplo, com uma vida perfeita de dinheiro, esposa, filhos… Mas que ao mesmo tempo falta algo para se completarem. A personagem de Trudy Campbell fala no primeiro episódio da temporada que esta é uma marca dos ambiciosos. Para piorar a situação tem todas essas mudanças ocorrendo, o pensamento materialista que pauta os membros da Sterling Cooper Draper Pryce está em baixa, fazendo-os contestar todo o ideal americano de felicidade, mas ao mesmo tempo não conseguirem mudar o rumo de suas vidas.

Hélio Flores: Eu realmente gostaria que todos os personagens terminassem a temporada com vida e saudáveis, mas a série tem um tom cada vez mais fúnebre. Quer dizer, um episódio com título de poesia de Sylvia Plath, carregado de tristeza e tentativas de realização pessoal, apólices de seguro e um elevador que não está lá quando a porta se abre? Por outro lado, ainda me espanto com a capacidade de Mad Men fazer isto sem deixar de lado o humor, o que me faz acreditar que no fim das contas tudo pode ser benigno, como o tumor de Betty. A série, talvez, caminhe para isso: a superação das angústias que tomam os personagens.

Claro que talvez eu esteja sendo otimista em excesso, mas Don e Roger parecem viver em paz, Megan achou o seu caminho (ainda que seja apenas uma tentativa, por enquanto) e Peter talvez também consiga esta superação com as pauladas que vem levando. Tudo muito agridoce, mas acredito mesmo que ao final da temporada tenhamos uma resolução positiva pra tudo.

MB: Acho que concordo com o Hélio, mais ou menos. Matthew Weiner vem da veia Sopranos de escrever tevê, e aquela série adorava levar tudo até uma clara destruição e então mostrar a verdade crua ao puxar o tapete na última hora, deixando todo mundo com as próprias merdas e poucos sinais práticos de que o modo de pensar delas é coisa errada. Geralmente rolam finais felizes como espécies de julgamentos para os personagens, meio que a série apontando o dedo e dizendo “Olha aí, que fulano alheio à perdição própria”. Não ficaria surpreso se a temporada terminasse assim – se bem que a quarta passou boa parte da sua duração nessa mesma coisa, com tudo aquilo da empresa quase falindo e do Don alcoólatra.

A história do anticlímax em The Sopranos, que passou bem diretinho para Mad Men, é como ambas as séries o usam para reverter consequências de volta aos personagens. Tem pouco na história de Pete que vai além da própria consciência dele presa numa maré ruim, e isso poderia com facilidade cair morto de lado em algo bem aborrecido. Mas tem algo no Pete que… Sei lá, dá pena? Ele é definitivamente irritante, mas o seu carisma falso tem certo apelo que me deixa apreensivo pelas menções de suicídio que a série faz várias vezes durante a hora.

Sinto que nesta temporada, pelo fato da lacuna entre a imagem dele e a de Don ter aumentado, o personagem de vez fez o salto de “excelente” para “memorável” (leia-se: não devendo nada para a dupla top, Peggy e Don).

GI: Por falar em Don e Peggy, gostaria de mudar um pouco o assunto para explorar um pouco a forma como as interações entre ambos vêm sendo conduzidas nesta temporada. Indo contra a fórmula dos quatro anos anteriores, em que o relacionamento de altos e baixos de ambos era um dos principais pontos da série, Weiner parece querer criar um estranhamento ao colocar ambos praticamente isolados um do outro durante a maior parte das cenas. Como se Don estivesse isolado em seu novo mundo e Peggy estando satisfeita em ser a líder, de fato, da equipe de criação sem a influência de seu tutor. Essa cisão gerou um clima de estranheza apropriado, como se na própria agência algo estivesse faltando.

Obviamente, tudo isto deu força ainda maior para a discussão entre ambos no episódio. Não é igual a antes, onde era tudo visto como um fato corriqueiro, mas surge com um alívio de que algo que estava faltando voltou, como se a própria saída da Megan fosse devolver um senso de rotina para a Sterling Cooper Draper Pryce. Pode apenas ser mais uma, das muitas, pistas falsas que o roteiro joga para dar a falsa impressão de que a temporada tomará um caminho contrário que nunca ocorrerá, ou um indicativo de que foi chegada à etapa final e os ânimos entre ambos se acirrarão como sempre ocorreu na série.

HF: Acho que a relação de Don e Peggy também acaba ficando em segundo (ou terceiro) plano porque a temporada tem feito um investimento interessante no relacionamento de Don e Megan. A cada episódio, uma fase ou um aspecto deste casamento: Don mudado e como são diferentes um do outro (A Little Kiss), como Megan lida com o Don mulherengo e como este lida com esta característica sua (Mistery Date), como reagem às inevitáveis brigas (Far Away Places), a dinâmica entre os dois no trabalho (vários episódios) e a insatisfação de Megan por ter abdicado de alguns sonhos (os dois últimos episódios) – sobre isso, chamo a atenção pra forma como o Lady Lazarus foi editado, nos deixando por um bom tempo sem saber qual era o segredo de Megan e inserindo o caso de Peter nos momentos em que esperávamos ver para onde ela estava indo, passando uma ideia forte de traição e uma engraçada inversão de papéis, com Don em casa esperando a esposa chegar, sem o mínimo de preocupação e ciúmes que este tipo de situação poderia causar em qualquer outro homem que não estivesse perdidamente apaixonado (daí não concordar com o Mateus quando ele diz que a saída de Megan da SCDP ser um “evento apocalíptico” pra Don, porque ele aceita muito bem, como um bom homem cego pela paixão. Caramba, a esposa sai à noite pra um teste enquanto o marido fica em casa ouvindo Beatles! O quanto isso é “moderno”?).

Juntando isto com o espaço generoso que a série tem dado a Joan, Peter, Roger e Lane, é até natural o afastamento entre Don e Peggy. Mas a encenação dos dois como marido e mulher, além de engraçada, funciona como espelho pra própria relação que os dois têm atualmente: afastados, e também totalmente fora de sintonia.

Outras observações

GI: Não poderia deixar de comentar sobre a montagem final tocando “Tomorrow Never Knows” dos Beatles, uma música que por si só é profundamente existencialista e com um clima que combina bastante com o da série. Não fosse o bastante, a sequência, embora não tenha um nível David Simon de excelência, consegue pontuar bem cada uma das tramas não só no episódio, como de toda a temporada, de seus três principais personagens, de uma forma simples ao mostrar apenas Don esperando Megan, Peggy trabalhando e Pete infeliz flertando com seu último caso. Nada rebuscada, porém bem eficiente.

MB: Adorei ver os Beatles na série… Achei “Tomorrow Never Knows” perfeita para o momento. Melhores 250.000 dólares que Mad Men já gastou. 

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