Dealbraker!

Spoilers Abaixo:

“Sheer Madness” faz algo parecido com o que “Jimmy’s Fake Girlfriend” fez. Enquanto o segundo aproveita-se do elemento surpresa para criar uma atmosfera admirável e, consequentemente, produzir momentos emocionantes, o primeiro utiliza-se da velha questão que todas as séries têm que se fazer depois de um episódio como o seu antecessor: Como as coisas vão ficar agora que X e Y estão juntos? Raising Hope responde isso da maneira mais simples e realista possível, sem ser previsível, da mesma forma que o anterior, fazendo brincadeiras consigo mesma, admitindo a arriscada jogada que a série fez logo no início do episódio, em mais um daqueles momentos meta que a série produz com eficácia. Sitcoms normalmente são contra mudanças súbitas e dificilmente tentam buscar novos ares, algumas utilizam esse conforto de forma preguiçosa, mas algumas seguem isso de maneira inteligente. Raising Hope está no segundo grupo, o que é provado pelos dois episódios citados nesse parágrafo.

É interessante observar como em todas as suas histórias Raising Hope consegue abrigar todos os seus personagens de uma forma segura, trazendo assim um reflexo para todo o sentimento de família e união que a série passa. O paralelo que é realizado entre Jimmy/Sabrina e Burt/Virginia representa essa característica da série.  As pessoas dessa série sempre tendem a se preocupar umas com as outras, o que traz certo tipo de aconchego que a série sabe utilizar para o bem da comédia. A habilidade de entender as maluquices do seu companheiro que os personagens obtêm ao fim do episódio também consegue ter uma lição de moral bem produtiva para a série, mesmo sendo algo relativamente bobo, é sempre agradável ver aquela montagem final com a narração do Jimmy sobre o que eles aprenderam. Todos os acontecimentos desse episódio são focados apenas nos membros da família Chance, incluindo a sua nova integrante, mesmo que o episódio abra um espaço para o retorno de Andrew, que traz de volta Ethan Suplee em uma desnecessária participação, pois a série parece ter preguiça em criar uma continuação adequada para o conflito de Burt e sua mania de raspar o pé e acaba trazendo outro personagem apenas para cumprir essa função.

Não é novidade para ninguém que a palavra “segredo” é o pilar principal das situações cômicas de Raising Hope. “Sheer Madness” aproveita isso de uma maneira diferente dos outros episódios, pois agora vemos os personagens lutando para que algo revelador sobre sua pessoa não apareça ou tentando entender os motivos do outro, trazendo uma dinâmica diferente para o episódio e que produz vinte minutos repletos de momentos embaraçosos, como quando Jimmy invade o quarto de Burt e Virginia para poder despejar as OITO ventosidades anais (Thank you, Wikipédia!) que ele guardava, algo que é mais real do que parece, o que dá um efeito cômico ainda maior para a cena, assim como a reação natural dos seus pais diante da situação. Pode-se observar ainda como o roteiro trabalha bem a sua integração a família, algo que é visto pelas atitudes dela no episódio, que são semelhantes ao modo de agir de todos ali.

“Sheer Madness” provavelmente é o episódio mais engraçado de Raising Hope em sua curta jornada, encapsulando todos os tipos de humor que a série aborda, desde a questão dos peidos até as aranhas, com uma visita a primeira vez de Maw Maw, pessoas com flechas atravessando o corpo e fobias malucas.

“Single White Female Role Model” é o típico episódio que aqueles que estão fazendo maratona da série vão assistir, passarão direto e esquecerão uma hora após ver. Mesmo no episódio mais fraco da temporada, “Tarot Cards”, percebe-se que existe uma certa coesão na história sendo contada ali e na construção dos personagens, que acabou sendo continuada nos dois episódios seguintes. O episódio dessa semana poderia facilmente ser aquele momento de transição onde a série diminuiria a velocidade e navegaria por águas mais calmas, mas falha ao tentar fazer isso, não por se segurar demais nas participações especiais, mas por fazer que personagens tão caricatos ganhassem mais de uma piada ao longo do episódio, trazendo assim uma confusão ao longo do tempo de que se aquilo pretendia ser algo tão debochado que deveria ser engraçado ou se tudo era simplesmente falta de competência de um roteiro que pareceu perdido, tentando aplicar uma situação onde não existia contexto necessário. Ah, espera! Eu acho que vou rever o episódio para lembrar como foi legal ver o drama da prefeita maluca e da policial bizarra tentando conseguir atenção!

Enquanto existe uma grande luta para que o episódio emplaque, existem pequenos momentos que conseguem ser colocados diante de uma circunstância que se posicione nas características desenvolvidas pelos personagens nos últimos tempos, como quando Jimmy rejeita os avanços da prefeita, dando ênfase ao seu relacionamento, o protesto que Sabrina organiza, que traz uma excelente cena onde todos a abandonam, e o momento em que seu celular vibra dentro da prisão. E enquanto o primeiro não traz um momento tão cômico, mas reforça a figura leal de Jimmy, o segundo consegue desenvolver um primeiro ato que dava grandes esperanças para o episódio, que possui a proeza de injetar um pouco de humor quando foca nas participações de Maw Maw, que age de acordo com aquilo que ela é: uma velha maluca que adora queimar sutiãs do tempo do ronca e dirigir como se não houvesse amanhã pela cidade.

Virginia e Burt trazem de volta um pouco da atenção para Hope, que acabou um pouco ofuscada nos últimos episódios, com a primeira exibindo o quanto ela mudou até agora e exibindo como a pequenina mudou seu modo de ver o mundo. Usar pela milésima vez a premissa da série nunca deixa de render bons momentos para a mesma.

O episódio desenvolve um emaranhado de ideias que poderiam funcionar muito bem e até consegue em certos momentos, como quando a série aposta na necessidade de fazer amigos de Burt e Virginia para trazer aquele velho sentimento que mistura carinho, bizarrice e risadas, mas perde-se quando foca, por exemplo, na personagem de Katy Perry, que se esforça demais em sua atuação e aparenta não saber para onde ir, um reflexo perfeito do que foi “Single White Female Role Model”, o episódio menos harmônico de Raising Hope, sem escolher por onde seguir, a série acabou sabotando todas as suas histórias de alguma maneira e, em um dos raros momentos, a montagem final apareceu com quase nenhum sentido.

@andre_fellipee

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