Existem séries que se destacam pelo seu conteúdo narrativo, seu apuro visual ou a mistura genial dos dois. Mas outras ficam conhecidas pelos problemas em seu entorno e nos bastidores, que chamam mais atenção do que a obra em si.
Ironicamente, Euphoria se encaixa nas duas categorias.
Com uma temporada inaugural que explorou de maneira visceral a juventude moderna, a série se tornou um sucesso de público e crítica ao abraçar o valor de choque e entregar atuações potentes de seu elenco, que mergulhou de cabeça num retrato que por vezes parecia sonho e em outras, pesadelo.
Mas na segunda temporada as coisas começaram a desandar. O visual neon foi deixado de lado por uma paleta sépia. Os personagens começaram a patinar sem rumo em suas tramas e os primeiros problemas começaram a vazar para a imprensa.
Acusações de plágio, mortes no elenco e um fracasso retumbante do criador Sam Levinson para a emissora só afundaram ainda mais a percepção da série perante o público.
Agora, quatro anos depois da 2ª temporada, a principal pergunta que surge na cabeça de quem assiste Ándale é: era realmente necessário uma nova temporada? Ou a série já devia estar morta e enterrada?
Essa premiere faz a balança pender pro lado do segundo questionamento.
Cinco anos se passaram e agora os personagens saíram do colegial e entraram na vida adulta. Mas a miríade de problemas continua a mesma.
O principal ponto a se notar aqui é o sentido de retrocesso narrativo. O ambiente foi trocado, mas os personagens e suas mazelas são iguais.
Rue, que terminou com a promessa de mudar de vida, agora se encontra como mula de Laurie, levando e trazendo drogas (especificamente fentanil) através da fronteira do México com os EUA.

Nate e Cassie estão, nas palavras do próprio roteiro, numa bolha suburbana de direita, vivendo um relacionamento mantido por mentiras e percepções erradas de amor e afeto. Ele assumiu os negócios do pai, mas não sabe dar continuidade ao legado. Ela vive como esposa troféu, que tenta criar uma carreira como influencer através do fetiche alheio.
Dentre os novos desdobramentos, esse é o que talvez tenha mais apelo nesse retorno. Visto que a decisão de Cassie de começar a atuar no Onlyfans vai mudar o foco de poder na relação e colocar Nate numa posição interessante de submissão, um estopim que, se bem trabalhado, pode resultar numa explosão cheia de tensão.
No completo espectro está Lexie, que agora trabalha como assistente numa série de TV e segue uma vida totalmente voltada pros valores completamente opostos ao de sua irmã, algo que fica evidente na sua admiração Patty Lance (Sharon Stone), produtora da série e modelo de vida ideal para a jovem.

Ainda nessa questão metalinguística da fama e da TV como espelho da própria série, está Maddy, que agora trabalha para uma agência de talentos e vive uma vida cheia de glamour, mas sem ter as posses para aproveitá-lo.
São avanços que mereceriam um episódio especial, talvez um filme, para amarrar essas pontas soltas. E não uma temporada. Até mesmo personagens que não apareceram, como Jules (que vive como sugar baby) e Fezco, que está na prisão, tiveram suas resoluções em apenas poucas linhas de roteiro.
E sem o norte criativo de Petra Collins (como na T1) ou um viés metalinguístico claro (como na T2), sobrou pra Levinson explorar aquilo que ele já fez em outras obras suas: abrir a tampa do bueiro e mostrar os recônditos mais vis e chocantes dos EUA.
Isso poderia ter um impacto maior quando os personagens eram adolescentes vivendo nessas situações marginais. Mas agora, como adultos, fica difícil se importar com tais personagens e a trama acaba se resumindo a mais uma produção “mundo cão”, como tantas outras despejadas pela linha de produção audiovisual recente.
Até mesmo a fotografia se perdeu no caminho. Ainda que apresente um senso estético condizente, tudo é árido e sem vida. Mas o que representa a situação atual dos personagens, também é algo que tira o impacto, a vibração apresentada nas temporadas anteriores.
É um faroeste? Na cabeça de Levinson parece ser. É comédia? Realmente algumas situações são risíveis. É um retrato da sociedade atual? Também pode ser, com questionamentos sobre a situação política, a fama, IA e tantos outros.
Mas no meio desse mar de possibilidades, o roteiro se afoga na mediocridade.
Essa premiere não torna fácil a vida da produção, que se dobra em si mesmo, como uma cobra que morde o próprio rabo, apresentando uma narrativa que não evolui.
Zendaya recentemente disse que acha que essa será a última temporada da série. A mesma coisa foi dita por Levinson, que disse que não tinha ideias para fazer algo além desse ano.
Pelo bem do público, que essa realmente seja a última.
Porque ficou claro que ele não tinha ideias o suficiente nem para essa temporada.














