Última temporada do sucesso da Netflix teve o mínimo de emoção e o máximo de incoerência.
Em 15 de Julho deste ano (2026) a série Stranger Things fará seu aniversário de 10 anos. Em 2025 ela encerrou sua trajetória no oitavo episódio da quinta temporada. Foram 10 anos para produzir 42 episódios, distribuídos em épocas que sofreram turbulências como a pandemia e a greve. A série – focada em um grupo de crianças – precisou aprender a como lidar com a inevitável ação do tempo e também a como ceder às exigências do mercado. A única coisa que “o maior sucesso da Netflix” jamais teria era autonomia.
Não será possível dizer com certeza quais eram os reais planos dos irmãos Duffer para a longevidade da série. Mas, é possível dizer que independente de quais fossem eles, tiveram que sofrer mudanças diante de um cenário inerente ao sucesso: o da pressão pelo lucro. Enquanto empresa, a Netflix fez apenas o que se esperava dela: ofereceu dinheiro e oportunidade para que a boa recepção fosse proveitosa para todos. Cabia aos criadores organizar suas ideias para que a união entre criatividade e oportunismo fosse o mais saudável possível.
No início de tudo, Stranger Things era uma força dramatúrgica que explorava com inteligência e ternura os mundos de Steven Spielberg, Stephen King e H.P. Lovecraft. Estavam ali também as influências do RPG. A maneira como as crianças se uniam no propósito de proteger um segredo fantástico, reunia o melhor do trabalho infanto-juvenil de Spielberg. O medo de ser devorado por criaturas que pareciam farejar o pavor individual de cada um, lembrava o horror das páginas do escritor Stephen King. Já a realidade paralela e os monstros no horizonte emularam o universo vasto e complexo de Lovecraft.
Era realmente muito difícil não se envolver com a maneira charmosa, emocional e inteligente com o qual o roteiro da série se desenvolvia naqueles dois primeiros anos. A homenagem ao mundo desses escritores e aos anos 80 como um todo, vinha tomada de paixão e reverência. Os elementos fantásticos da história começariam a perder o controle (sabíamos disso; é parte da essência desse tipo de produção), mas se as relações entre os personagens fossem bem conduzidas, Stranger Things estaria a salvo.
O tempo, contudo, se tornou um inimigo bem rápido. Se os hiatos entre temporadas já eram muito grandes antes da pandemia e da greve, com elas o distanciamento se tornou inviável no compromisso de manter o interesse pela série gradativo e afetuoso. As crianças cresceram e perderam espontaneidade. Os dramas precisaram mudar; os resultados deles se tornaram mais enfadonhos… e não importa o nível de perigo a que os personagens fossem expostos; quanto mais o elenco crescia, menos perigosos esses níveis de perigo pareciam ser. Se a tua história não é “uma história onde as perdas caibam”; então não passe o tempo todo ameaçando a vida dos personagens. É emocionalmente cansativo e desonesto.
Já na terceira temporada havia problemas para manter a relevância de todos. Eleven (o maior Deus ex Machina da série) foi “desativada” para garantir que os outros personagens conseguissem agir sem ela. Mas, na iminente quarta temporada, os roteiristas precisavam saber de novo o que fazer com ela; o que seria complicado, já que todo o arco central se baseava em explorar a depressão de Max e a ação de Vecna. Ao som de Kate Bush, eles conseguiram manter Stranger Things nos trilhos usando o campo da nostalgia. Os problemas já estavam lá, mas a catarse ainda estava também.
Entretanto, a quinta temporada foi um desastre anunciado. Muito do que a série era já tinha se perdido nos anos anteriores, mas a evolução natural daquele universo (afinal, nada tem que permanecer o mesmo) precisava se agarrar ao mínimo de familiaridade. E eles fizeram isso na primeira parte da temporada. Hawkins tentava se manter de pé depois do que chamaram de “o grande terremoto”; enquanto o sumiço de Holly e os ataques dos demogorgons traziam de volta uma sensação de “volta ao lar”. A inserção de Derek no elenco também foi um movimento claro nesse sentido.
Mesmo a “transformação” de Will numa espécie de “pseudo-eleven” veio para revivermos parte da excitação com a descoberta de “poderes” usados para tirar os personagens das enrascadas em que se colocavam. Unir a jornada de Will à sua saída do armário foi uma decisão louvável dos criadores. Porém, a insistência em querer implicar um planejamento de que eles sempre souberam o que levaria a série até ali, ajudou a tirar um pouco da credibilidade dela. A mudança do clima “lovecraftiniano” para a “marvelização do inimigo” não pareceu orgânica e muito menos planejada.
Dividida entre os eventos de Hawkins e a invasão dos militares no Mundo Invertido, a quinta temporada teve muita dificuldade de ser clara sobre onde estava e para onde queria ir. Os militares pareciam querer montar um exército de Elevens; mas a personagem de Linda Hamilton estava tão inexpressiva quanto esse enredo. Vecna continuava capturando crianças; continuava dizendo que queria “fundir” os mundos em busca de vingança; poder; controle ou um ar mais respirável… As motivações eram vagas e davam a constante sensação de que se ele vencesse, não iria existir nada mais que ele pudesse controlar.
Nessa temporada final, inclusive, os criadores resolveram quebrar a teoria do Mundo Invertido e declarar que, na verdade, ele sempre foi uma “ponte” entre o mundo real e um universo repleto de monstros; onde se encontra, enfim, o Devorador de Mentes. A coisa toda já parece exagerada no papel, mas piora em live-action, com os personagens demonstrando absurdos conhecimentos para construir explicações usando objetos triviais. O recurso foi usado tantas vezes que começou a parecer cômico, paródico. E lá foram eles, atravessar realidades, enfrentar militares e aranhas gigantescas com cara de vagina; serem salvos no último instante de qualquer perigo e voltarem para suas vidas meses depois sem que tenham feito uma só sessão de terapia.
Joyce ficou por ali meio esquecida… As personagens de Linda Hamilton e Amybeth McNulty desapareceram sem nenhuma explicação. Ninguém sabe como a receita Hawkins/Militares/Experiências foi resolvida… O investimento emocional nos 20 minutos finais foi o que garantiu a boa experiência de uma parte do público, mas até a tentativa de deixar ambíguo o destino de Eleven caiu por terra quando o roteiro preferiu ilustrar a descrição da “fantasia” de Mike, e não simplesmente deixar que ele falasse (e tudo aquilo fosse imaginado por eles, por nós).
Há uma imensa relação afetiva do público por aqueles personagens; é bem por isso que no final das contas, aqueles 20 minutos de despedidas eclipsaram todos os equívocos anteriores; e o impulso natural de todos que amaram e se dedicaram àquele universo por tantos anos, foi o de abraçar os “poréns” e se concentrar na emoção do fim. Isso não é certo nem errado; é uma escolha. Os termos do final de uma série são imutáveis.
É uma pena que a megalomania financeira e criativa tenham colocado Stranger Things na posição de precisar de concessões para ser amada. Sobretudo quando houve um tempo em que amá-la era quase incondicional; em que amá-la não era a coisa mais estranha a se fazer.






















