Chegou ao fim o primeiro ano da nova unanimidade de Vince Gilligan, um autor que sabe bem o que é “percepção coletiva”

No primeiro episódio de Pluribus, descobrimos que Carol é uma escritora de relativo sucesso, que fez sua carreira com livros de romance em um universo fantástico. Na maioria do tempo, a escritora que faz tantos leitores suspirarem vive sob um constante estado de cinismo. Quando se senta para sessões de autógrafos, Carol sabe que vai estar diante de uma coletividade sintonizada em frequências emocionais com as quais ela não se identifica. Desde o começo, Carol sabe o que é estar à parte. 

Vivenciar o trabalho de Vince Gilligan (criador de Pluribus) é como estar sentado na plateia de uma noite de autógrafos de Carol: seu primeiro grande hit – Breaking Bad – estabeleceu uma cognição viral que se espalhou pelo mundo e convenceu a todos de que aquela era uma unanimidade criativa infalível. Discordar disso era como observar de longe uma carreata seguindo para o horizonte da “terra onde todos são felizes achando a mesma coisa”. De certa forma, Pluribus parte de uma inquietação com uma elusiva homogeneidade utópica. Seria mesmo tão bom assim que todos quisessem a mesma coisa? 

Já lidamos há muito tempo com narrativas em que herois e heroinas lutam pela ideia de um mundo pacífico constante. Protagonistas imperfeitos são escritos para sublinhar a busca de seus criadores pela noção inalcançável de perfeição; numa luta interna e eterna contra o dualismo filosófico de Platão, que insiste que o mundo precisa de duas forças opostas em atrito. Nesse “atrito” estão contidas as experiências de alegria e contentamento, somente possíveis se as emoções opostas a elas (tristeza e pesar) fizeram parte da equação. 

Então lá foi Carol; fazer o que até então nenhum outro protagonista havia feito: lutar para que a miséria humana permaneça intacta. Ao descobrir que uma espécie de “frequência alienígena” chegou aos humanos e transformou-os em uma única consciência coletiva; imersa em completo positivismo, além de “inofensiva”; Carol percebe que a plateia de suas sessões de autógrafos virou o mundo todo. Seu cinismo e seu pessimismo não têm mais lugar nessa nova existência. 

Essa foi a primeira iniciativa de Vince Gilligan que mostrou a força de sua ideia: falar da busca por um mundo que estabeleça a necessidade da imperfeição. Onde estaríamos se só existisse a alegria? Ela poderia manter seus significados? Onde estaríamos se só existisse o amor? Como seria se todos fossemos afetuosos, pacíficos, veganos… Ao mesmo tempo, que tipo de pessoas seríamos questionando de verdade a validade de todas essas coisas? 

Mais do que responder essas perguntas, a série se desenvolve calmamente na direção dos efeitos sensoriais da protagonista quando se vê diante do solipsismo que ela passou a vida toda achando que era mesmo o que ela queria. Entretanto, a imunidade ao “vírus do bem” trouxe para ela a evidência de que estar à parte só é divertido quando você pode dividir o próprio senso de superioridade com alguém. Vejam bem… até para renegar o mundo você precisa de interlocução. Quando fica absolutamente sozinha, Carol percebe que precisa não estar. 

A primeira temporada de Pluribus fez essa curva: quem é a protagonista; como o luto da mulher que ela ama (que não resiste à infecção e morre) piora seu negativismo; e como ela precisa se ajustar à nova ordem das coisas. Os roteiros precisavam mostrar como ela rejeitava as mudanças, mas também como ela precisaria encontrar um lugar de convivência segura. No fim das contas, sobreviver para ela se tornou um confronto com aquilo que a “união” tinha erradicado: a complexidade. 

Vince Gilligan organizou os episódios assim: primeiro o estabelecimento das novas “regras”; depois a protagonista rejeitando a “união”; e por fim, cedendo. Houve quem achasse que a lentidão dos episódios era um problema; mas, efetivamente, se houvesse um contexto em que a contemplação seria coerente, esse contexto seria o contexto em que Carol vive. Era necessário mostrar que ela tentou resistir; que sua natureza teimosa reinou em suas decisões por algum tempo; para que ceder tivesse verdadeiro impacto. 

A maneira que Gilligan encontrou de responder à morosidade foi “enfeitando” os panos de fundo. O orçamento da Apple possibilitou à série uma viagem por locações que enriqueceram a “estampa” da série em níveis impossíveis de ignorar; sobretudo na jornada de Manousos até os EUA. Esses detalhes realmente inserem uma camada de “verniz” nos episódios e eles passam a ser julgados com olhos ainda mais ternos. Era evidente que mesmo nos momentos de hesitação a respeito da trama, os aspectos técnicos conseguiam o feito de estabelecer relevância. 

Na reta final, quando Carol cede ao impulso afetivo e pede que os “outros” voltem, a temporada ganha mais complexidade. Sua rejeição aos métodos dos “outros” (estranhamente semelhantes à nossa relação com a Inteligência Artificial, com seus comandos e tarefas) partia muito dos gatilhos de uma vida claramente dedicada a não permitir que os outros “a transformassem”. Carol sentiu na pele o que era homofobia; então, de certa forma, o risco de perder uma identidade que lutou tanto para expressar, tornava a promessa de felicidade da “união” nada tentadora. 

O fato é que o final da temporada mostrou que nem alienígenas invasores de mentes que prometem pacifismo, deixam de agir como controladores, eventualmente. Carol ainda está sob ameaça de “contaminação” (e contra sua vontade). Mas, a partir do momento em que os roteiros resolveram suas expectativas românticas com Zosia, era hora de pensar em bombas. Rhea Seehorn e Karolina Wydra fizeram um trabalho gigantesco na construção da química entre Carol e sua “supervisora”. Mas, Vince Gilligan jamais permitiria que a protagonista abandonasse sua missão de garantir a miséria da humanidade. 

A aridez da Albuquerque de Breaking Bad ainda está lá; o personagem violento caladão ainda está lá; as sequências iniciais sem imediata conexão com a espinha da série ainda estão lá; o ritmo moroso ainda está lá… Não é como se Gilligan tivesse abandonado seus métodos funcionais. A diferença é que dessa vez eles estão a serviço de uma trama intrigante, bem planejada, onde o aparente “final feliz” seria a garantia da infelicidade. Se vamos permanecer “infectados” pela união de uma plateia em uma apaixonada sessão de autógrafos, só o tempo vai dizer. 

Que essa não seja uma “encenação” para manter a “união” segura da fúria dos “imunes”. Tomara que Vince Gilligan saiba o que está fazendo.

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