
Era inevitável que Gossip Girl fizesse um episódio com essa linha em algum momento.
Spoilers Abaixo:
Gossip Girl nunca foi conhecida pela sutileza ao desenvolver seus personagens e tramas. Pelo contrário, a principal característica da série é exatamente retratar, com uma bela dose de exagero, a vida dos moradores do Upper East Side. O problema é que com o passar dos anos o que era um recurso controlado tornou-se algo que se aproxima perigosamente da falta de sentido e do absurdo. Esse fator é, com certeza, um dos que mais prejudica a qualidade da série nas recentes temporadas. Por isso, por mais que elementos que sempre despertaram interesse permaneçam presentes atualmente, eles são ofuscados por narrativas que procuram sempre chocar o espectador, mesmo de maneira mal elaborada. All the Pretty Sources conta com todos esses elementos, ainda que consiga acertar em alguns aspectos.
O episódio volta a dar destaque ao casamento de Blair, mais especificamente ao chá-de-cozinha da noiva, organizado por Serena de maneira misteriosa. Para ele, não são convidados Chuck e Dan, por razões óbvias, o que faz os rapazes se unirem para passarem juntos a noite de isolamento social. Enquanto isso, Max procura Ivy/Charlie, revelando a verdadeira identidade da garota, que consegue contornar a situação por algum tempo. Já Diana sofre pressão de William para que Nate assuma o NY Espectator, mesmo que a atual editora-chefe ainda insista em derrubar a Gossip Girl.
Quando Charlie retornou da Los Angeles com Serena, era inevitável que em algum momento a trama da falsidade ideológica da garota fosse trazida à tona, o que a tornava uma bomba-relógio para a série. Apesar de a história ter sido explorada constantemente desde o primeiro encontro entre Charlie e Diana, é aqui que ela finalmente ganha contornos de solução. E, como esperado, a situação traz de volta todos os absurdos novelescos introduzidos na temporada anterior, com uma série de chantagens feitas por praticamente todos os personagens envolvidos, uma maneira ineficaz de tentar conferir algum significado a uma trama que beira a imbecilidade.
Para isso, os roteiristas se utilizam de Max, mais um exemplo de personagem introduzido de maneira extremamente precária, que, sem qualquer traço de personalidade definido, age como bem entende, ora dizendo-se aliviado por não ser responsável pelo fim do relacionamento com Ivy, ora pedindo 500 mil dólares para não revelar o segredo da ex. Em outras palavras, o rapaz passou do sonhador cozinheiro mostrado em The Big Sleep No More para um interesseiro chantagista em questão de instantes, o que evidencia, mais uma vez, a incapacidade dos responsáveis pela série em criar um novo personagem no mínimo coerente.
Da mesma forma, Diana é prejudicada pela necessidade de Gossip Girl em criar mistérios e impacto a todo momento. Se nos episódios anteriores a jornalista se mostrava um pouco mais inserida no contexto da série, fazendo bem o papel de manipuladora, aqui ela desaparece para dar lugar a um arco que não faz sentido algum, com Nate assumindo o cargo de editor-chefe mesmo sem possuir experiência alguma, apenas para agradar William. Além disso, a série já provou inúmeras vezes que o rapaz não tem condições de segurar uma trama que seja importante, por conta de limitações do próprio personagem.
O que nos leva à tentativa de derrubar a Gossip Girl, que é praticamente a única função prática de Serena no episódio. Se por um lado a situação exibe com precisão a personalidade destrutiva de personagens como a própria garota e Blair e retrata de maneira coerente a posição de Nate, que desde os primeiros episódios da série se mostra um rapaz de princípios, por outro pode significar um tiro no pé, levando a situações como a narração da própria blogueira, ao final do episódio, pedindo desculpas pelo ocorrido, fugindo da função que Kristen Bell tem na série. Além disso, se a Gossip Girl de fato for derrotada (não deve acontecer), a história passa a perder grande parte de sua razão de existência. Ou seja, dados os atuais problemas de audiência de Gossip Girl, não seria surpresa se esse plot fosse o início de algo que levasse ao final da série, uma vez que há uma grande possibilidade de esta temporada ser de fato a última.
Mas All the Pretty Sources ainda trata de outros temas, como o infindável conflito entre Blair e Louis, que torna-se um personagem cada vez mais absurdo. É impressionante como a garota se perde quando contracena com seu noivo, perdendo grande parte do destaque natural da personagem. Assim, a tentativa de transformar Louis em uma espécie de Chuck dos velhos tempos não consegue soar natural em nenhum momento, culpa da inoperância de Hugo Becker, cujo talento faz Chace Crawford parecer Marlon Brando, e da insistência dos roteiristas em ignorar qualquer lógica.
Apesar disso, se o episódio não é um completo desastre, isso é graças a dinâmica estabelecida entre Chuck e Dan, que também salva Blair em alguns momentos. Os dois personagens, que se aproximam por conta de um interesses em comum, compõem diálogos interessantes, que contribuem para que a mudança de Chuck soe menos repentina. Além disso, a reação de Dan ao conselho do novo amigo é inusitada e leva a outros confrontos relevantes, ainda envolvendo o trio.
No entanto, a recente percepção de Blair sobre a real mudança de seu antigo amor leva, novamente, à insistência em tratar o casal mais importante da série como algo ainda vivo. É impressionante como Gossip Girl adia de maneira escancarada o momento em que Chuck e Blair irão finalmente seguir em frente. Nesse momento, o roteiro se encontra em uma situação de vai-e-volta interminável, em que a série parece correr atrás do próprio rabo, recusando-se a encerrar um arco iniciado há quase dois anos .
Assim, é impossível classificar um episódio como All the Pretty Sources como algo que funcione apropriadamente, mesmo que existam elementos interessantes que já são explorados ao longo desta temporada. Todos os irritantes vícios de Gossip Girl se mostram presentes aqui, o que prova que os responsáveis pela série ainda não pretendem se livrar deles.














